Sem Sol/La Jetée

17/01/2007 | Categoria: Críticas

DVD da Aurora reúne dois filmes experimentais (e sensacionais) do francês Chris Marker

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★★

Um dos mais obscuros e paradoxalmente mais arrojados diretores franceses, Chris Marker é antes de tudo um experimentador. Se tomarmos como base a definição clássica de cinema – contar histórias através da combinação de imagens e sons – vigente na indústria, então o que Marker faz não é bem cinema, certamente não no sentido convencional. Por causa desta característica não-comercial, o trabalho dele não é conhecido fora do âmbito acadêmico e dos círculos de cinéfilos mais curiosos. Dois dos mais importantes e instigantes filmes feitos por ele estão disponíveis no Brasil em um único DVD: “La Jetée”, curta-metragem de 1962, e “Sem Sol” (Sans Soleil), documentário de 1982.

O primeiro tem mais chances de despertar a atenção por ter sido a matéria-prima em que Terry Gilliam baseou a excelente ficção científica “Os 12 Macacos” (1995). Trata-se de uma das mais brilhantes elaborações cinematográficas construídas a partir do conceito de viagem no tempo. A história narra a jornada de um sobrevivente da Terceira Guerra Mundial que, vivendo nos subterrâneos de uma Paris destruída, é escolhido por cientistas para viajar ao passado e ao futuro, em busca de socorro. Vale ressaltar que este homem misterioso tem uma obsessão secreta por uma imagem da infância – uma tarde no aeroporto de Orly, onde viu uma mulher cujo rosto jamais esqueceu, e também presenciou um assassinato – e esta característica foi essencial na escolha dele como passageiro das viagens no tempo.

Investigação sobre tempo e memória, rica e complexa em conteúdo, a trama tem uma característica peculiar: é um filme inteiramente composto por fotografias estáticas, apresentadas em seqüência. Esta descrição pode dar a idéia de que se trata de uma loucura experimental, mas não é o caso, porque Marker cria um fluxo contínuo de informações, usando os efeitos sonoros (passos, portas batendo, ruídos de animais) e alternando com inteligência o ponto de vista da câmera (planos médios, panorâmicas, closes). O resultado é impressionante, e cria uma sensação fantasmagórica, de vertigem, que se aplica perfeitamente ao tema do filme em si.

Além disso, a história é tremendamente inteligente, daquele tipo que deixa o espectador vagando em torno de múltiplas idéias representadas na tela com perfeição (holocausto nuclear, paradoxos temporais, a inevitabilidade do tempo, a natureza fugaz e fugidia da memória), tudo isso em meio a citações inteligentes ao filme predileto de Marker, “Um Corpo que Cai”, de Hitchcock (a cena da sequóia) e conduzindo a um final arrepiante, que liga todas as pontas soltas com firmeza invejável. Enfim, uma maravilha.

O segundo filme, “Sem Sol”, é um documentário poético que repisa preocupações semelhantes com tempo e memória, mas de maneira completamente diferente. Para narrar o fluxo livre de imagens e palavras que compõem o todo, Marker criou a figura de um fictício narrador, um poético andarilho do mundo. A narração em off seria, em tese, trechos das cartas desta figura, que vai de Tóquio a Guiné Bissau, de San Francisco à Islândia, meditando sobre a impossibilidade real de deter fragmentos do passado no que chamamos de memória.

Não há, a rigor, uma trama propriamente dita, e a duração (100 minutos) pode deixar algumas pessoas efetivamente irritadas. É o tipo de filme que muita gente qualificaria como “cabeça”, muito embora a qualidade de sua poesia e a abordagem inovadora de temas decididamente difíceis tenham certa facilidade de encontrar admiradores entre os círculos mais intelectualizados de cinéfilos, gente para quem os filmes podem ser mais do que simplesmente histórias bem contadas. Vale a pena conferir.

Os dois filmes estão reunidos em um único DVD simples da Aurora. A produção é esmerada: além de cópias excelentes dos dois filmes, com formato correto de imagem (widescreen 1.66:1 letterboxed) e som legal (Dolby Digital 2.0), o disco vem com um livreto de 15 páginas, contendo artigos de professores de cinema sobre os dois filmes. Há ainda uma pequena apresentação em vídeo do pesquisador Erick Felinto, da UFRJ (5 minutos), e um trailer de “Sem Sol”.

– Sem Sol/La Jetée (Sans Soleil/La Jetée, França, 1982/1962)
Direção: Chris Marker
Elenco: Alexandra Stewart, Jean Negroni, Etienne Becker, Davis Hanich
Duração: 100/27 minutos

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