Senhor das Armas, O

16/02/2006 | Categoria: Críticas

Roteiro de Andrew Niccol é inteligente e mordaz, mas o filme em si não passa do burocrático

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★☆☆

O neozelandês Andrew Niccol é um cineasta de idéias criativas e originais. Foi da mente dele que saiu, por exemplo, o instigante estudo sobre a privacidade mostrado em “O Show de Truman”. Se como roteirista ele se revela um dos melhores e mais politizados nomes em ação na Hollywood atual, como diretor Niccol ainda não conseguiu sair do lugar comum. “O Senhor das Armas” (Lord of War, EUA, 2005) é uma prova disso. A saga do traficante de armas russo que ascende ao posto de principal negociante de armamentos do planeta é um drama ambicioso e inteligente, mas também burocrático, apresentando claramente potencial para render um filme superior.

Após uma demolidora seqüência de abertura, em que apresenta a trajetória de uma bala desde a produção até os momentos em que ela está prestes a entrar na cabeça de uma criança africana, o filme apresenta o imigrante ucraniano Yuri Orlov (Nicolas Cage), que vive em Nova York com a família. Jovem charmoso, ambicioso e de raciocínio rápido, Orlov não tem a intenção de se conformar com a existência humilde e modorrenta reservada a pessoas como ele. Dessa forma, logo percebe um nicho de mercado, obviamente ilegal, através do qual pode enriquecer rapidamente: o tráfico de armas.

Orlov é o homem certo no lugar certo na hora certa. Ele tem a ambição e a amoralidade necessárias. Também possui contatos no Leste europeu (inclusive um tio que é general na Rússia), onde enormes estoques de armas entram no mercado negro após a dissolução da URSS e o fim da Guerra Fria, nos anos 1980. Orlov inicia uma rápida escalada, de vendedor de fuzis abandonados pelos norte-americanos no Afeganistão até importante comerciante de tanques e mísseis soviéticos contrabandeados. Vende grandes lotes, quase sempre a grupos guerrilheiros e nações africanas em guerra. “Em certo momento, oito de cada dez zonas de guerra no mundo tinham minhas armas, às vezes nos dois lados do conflito”, narra ele.

Orlov é um excelente personagem, interpretado com firmeza por Nicolas Cage. O ator o constrói como um Mefistófeles do século XX, um homem encantador, de sorriso contagiante, que foi capaz construir uma moral particular para justificar, às vezes para si mesmo, os atos que pratica. Na teoria de Orlov, armas matam menos do que cigarros e drogas. Além disso, ele não aperta o gatilho – apenas fornece segurança às pessoas. Portanto, não pode ser responsabilizado pelos assassinatos cometidos com as armas que constrói. Inteligente e versado em leis internacionais, ele monta verdadeiros emaranhados contratuais para legalizar os negócios. “Às vezes, até eu fico em dúvida se estou atuando dentro ou fora da lei, mas isso pouco importa”, raciocina.

Infelizmente, o mesmo cuidado utilizado na excelente construção do protagonista deixou de ser empregado para os demais personagens do filme. Há, entre outros, uma supermodelo (Bridget Moynahan) que é seduzida pelo charme inesgotável do anti-herói, o irmão viciado mas sensível do ucraniano (Jared Leto), um agente da Interpol que é incansável perseguidor de Orlov (Ethan Hawke) e o maior traficante de armas do mundo, principal rival de Orlov nos negócios (Ian Holm). Todos eles atuam em cenas importantes da película, mas não têm tridimensionalidade, não têm densidade emocional, não parecem pessoas reais. São caricaturas vazias, que estão no filme apenas para justificar cenas e dar algum sentido à jornada trágica de Yuri Orlov.

Da mesma forma, o retrato da África pintado pela lente de Andrew Niccol é imperfeito, apoiado em clichês, o que jamais dá uma aura de credibilidade às imagens que vemos. A certa altura, por exemplo, o diretor neozelandês dá uma amostra de seu domínio da técnica cinematográfica, mostrando como Orlov foi capaz de escapar da prisão fazendo pousar um avião carregado de armas numa estrada vicinal de Serra Leoa (África). Com uma montagem super-acelerada, mostra os nativos do local desmontando a aeronave e roubando suas peças. A cena é construída meticulosamente para ilustrar o cinismo e a rapidez de raciocínio do traficante, bem como a tenacidade do seu perseguidor. Mas soa falsa como uma nota de oito reais. A África que vemos é obviamente uma ilusão, uma reconstrução de estúdio.

O problema da falta de credibilidade é acentuado por causa de outro filme de temática parecida, lançado nos cinemas na mesma temporada (outubro de 2005 no Brasil): “O Jardineiro Fiel”, de Fernando Meirelles. O diretor brasileiro também filmou na África, em locações parecidas, a saga de um homem envolvido com uma indústria que mata – no caso, a farmacêutica. O filme de Meirelles, contudo, não apenas evita clichês exagerados e caricaturais como a seqüência descrita no parágrafo anterior, mas também tem personagens secundários densos e complexos, e sobretudo consegue capturar a urgência, o desespero e o calor – real e metafórico – de viver na miséria africana. A comparação entre os dois filmes, na cabeça do espectador, é inevitável e até mesmo inconsciente. Com isso, “O Senhor das Armas” fica parecendo mais de plástico do que nunca.

Por outro lado, Niccol é um cineasta com aguçada sensibilidade visual, o que o faz compor seqüências inspiradas, de composição cuidadosa. Atente, por exemplo, para a engraçada cena em que Yuri seduz Ava Fontaine (Bridget Moynahan) chamando-a para um passeio no seu “avião particular”. Ou cheque a intensa seqüência em que Orlov visita pela primeira vez o pátio de tanques de guerra chefiado pelo tio militar – a câmera sobe para revelar uma impressionante e interminável fileira de veículos brindados, “alugados” pela produção a um traficante de armas real. Além disso, a habilidade de Niccol como roteirista rende uma narração em off que, apesar de exagerada às vezes, é responsável pelo ritmo rápido e pelo tom de comédia que domina a maior parte da projeção, dando-lhe leveza e agilidade.

Aliás, a narração em off é outro elemento que aproxima Niccol da obra de Fernando Meirelles. O tom é mordaz e cínico (às vezes, Nicolas Cage propositalmente narra o texto com pausas e suspiros que sugerem o tédio e a monotonia do traficante de armas ao fazê-lo, o que é um acerto), e as frases curtas e quase publicitárias remetem de imediato à narrativa de Buscapé em “Cidade de Deus”. Isso é ruim? Não. Apenas revela a falta de personalidade de um cineasta que tem boas idéias e deseja bater forte em hipocrisias sociais (é dele também o promissor e sem graça “Gattaca”), mas ainda não desenvolveu um estilo pessoal capaz de transformá-las em imagens contundentes.

O DVD, lançado pela pequena Alpha Filmes, é fraco. A imagem tem cortes laterais para caber no formato 4:3, mais quadrado, e o som aparece no formato Dolby Digital 2.0, apenas razoável. Não há extras.

– O Senhor das Armas (Lord of War, EUA, 2005)
Direção: Andrew Niccol
Elenco: Nicolas Cage, Ethan Hawke, Jared Leto, Bridget Moynahan, Ian Holm
Duração: 122 minutos

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