Senhor dos Anéis, O: A Sociedade do Anel

26/09/2003 | Categoria: Críticas

Primeiro capítulo da trilogia de Tolkien apresenta universo fantástico com nível de realização impecavelmente minucioso

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★½

Um fenômeno acima da crítica. É dessa forma que deve ser encarado o primeiro capítulo da trilogia épica O Senhor dos Anéis, denominado “A Sociedade do Anel” (Lord of the Rings: The Fellowship of the Ring, EUA/Nova Zelândia, 2001). O filme está cercado de números impressionantes. Alguns recordes foram batidos: nenhuma outra produção conseguiu atrair, até 2002, 3 milhões de pessoas à Internet em 24 horas, todas ansiosas por baixar um trailer. A bilheteria atingiu US$ 73 milhões nos primeiros cinco dias. O furor mundial em torno do lançamento o tornou muito difícil se ser analisado criteriosamente.Agora, com a película em DVD, a tarefa fica mais simples.

O ataque de estatísticas é, em certa medida, prejudicial ao filme. Aceite um conselho e faça um favor a si mesmo: esqueça a operação de guerra que foi a pré-produção, os números, o marketing gigantesco, toda essa parafernália de informações que confunde o espectador. Se concentre no filme, porque ele merece. “A Sociedade do Anel” é um ótimo filme, um verdadeiro espetáculo para olhos e ouvidos. Dá para dizer, sem medo de errar, que o diretor neozelandês Peter Jackson, 40 anos, criou um épico cinematográfico à altura do romance do professor inglês John Ronald Reuel Tolkien. “A Sociedade do Anel” é barroco, meticuloso ao extremo e apela em vários momentos para o elemento piegas que qualquer filme com bilheteria acima dos US$ 900 milhões precisa ostentar. Enfim, tem falhas, mas elas são insignificantes diante da ousadia cenográfica do diretor. O resultado é um épico emocionante, que possui um visual arrebatador, atuações convincentes e roteiro empolgante.

A obsessão que tomou sete anos de trabalho do cineasta não era a fidelidade absoluta ao texto, mas a recriação visual do verdadeiro protagonista do livro, o grande personagem de Tolkien e sua maior paixão: a mítica Terra-média, espécie de continente único que existiria no nosso planeta há cerca de sete mil anos. O lugar, repleto de enormes montanhas geladas e vales verdejantes, é habitado por diversas raças e criaturas fantásticas, como elfos, dragões e hobbits. Eles falam línguas criadas pelo próprio Tolkien e pelo menos dois desses dialetos, o quenya e o sindarin, ambos usados pelos povos élficos, são falados em algumas cenas do filme. Isso demonstra o respeito de Jackson ao material original.

O enredo básico do livro, ao mesmo tempo simples e intrincado, foi deixado intacto no filme. O hobbit (raça de sujeitos com pouco mais de um metro, pés enormes e peludos) Frodo Bolseiro herda do tio Bilbo um anel mágico que, se descoberto pelo espírito maligno Sauron, pode destruir a Terra-média. Frodo precisa, então, reunir um grupo de representantes dos povos livres do continente, a fim de acompanhá-lo numa longa viagem até a Montanha da Perdição, bem no coração do reino de Sauron, chamado Mordor. Lá fica o vulcão Orodruin, único local em que o anel pode ser destruído.

Parece fácil, mas não é bem assim. A jornada vai ser repleta de surpresas, contratempos, batalhas e encontros com criaturas de diversas raças e origens. No tratamento cinematográfico do texto, aliás, está o maior acerto de Peter Jackson. O cineasta, que escreveu o roteiro com a mulher Fran Walsh e a amiga Phillipa Boyens, não hesitou em fazer pequenas alterações na ação original para poder manter intacto o espírito do livro. Alguns personagens vistos no romance, como o folclórico Tom Bombadil, acabaram limados do resultado final. Outros, como a princisa élfica Arwen, ganharam espaço na trama.

Por incrível que pareça, as mudanças ajudam o filme, que funciona bem de duas formas: como uma grande e despretensiosa aventura e como um gigantesco épico catalisador de emoções. “A Sociedade do Anel” leva três horas para apresentar a extensa e complicada mitologia de Tolkien. São dezenas de raças, criaturas, línguas, acidentes geográficos, reinos, árvores genealógicas. O filme se sai muito bem na tarefa de driblar esse excesso de conteúdo sem desprezar as minúcias que deliciam os fãs literários. Até mesmo por causa disso, mostra ser um desses raros trabalhos capazes de causar medo e prazer, provocar lágrimas e sorrisos.

VISUAL – O aspecto principal do filme de Peter Jackson é, claro, a riqueza visual. Nesse ponto, Jackson simplesmente humilha a concorrência. As paisagens belíssimas tiram o fôlego do espectador, os monumentos arquitetônicos enchem os olhos, a caracterização minuciosa dos personagens beira a perfeição, os efeitos especiais inovadores derrubam os queixos dos mais céticos. O cuidados com os detalhes é impressionante. A abertura da obra, com um prólogo de seis minutos narrado pela rainha dos elfos, Galadriel (Cate Blanchett), conta a história do anel e funciona como uma demonstração definitiva do virtuosismo visual que é característica-mor da obra.

Logo na abertura do filme, podemos ver uma batalha de proporções insanas, aos pés do vulcão Orodruin, entre os exércitos de homens e elfos (os povos do bem) e orcs (os deformados servos de Sauron). A câmera lembra uma águia: sobe, desce, gira e dá mergulhos em ângulos impossíveis dentro da multidão ensandecida de 20 mil figurantes, muitos deles soldados do Exército da Nova Zelândia, terra-natal de Peter Jackson, que abrigou as filmagens. A produção dessa seqüência exigiu a criação de um software especial, capaz de dar movimentos diferentes a milhares de criaturas digitais simultaneamente. O resultado é uma batalha tão real que quase podemos sentir o cheiro de sangue.

O excesso de movimentação da câmera, por outro lado, é um dos pontos mais discutíveis do filme. Nas cenas de luta e seqüências com muito uso de computação gráfica, o diretor insiste em transformá-la numa espécie de montanha-russa virtual, que sobe, desce e pula sem parar. Esse recurso parece ter sido usado nas filmagens para esconder possíveis defeitos na posterior adição dos efeitos digitais. De qualquer forma, os movimentos incessantes de câmera soam como exagero. Uma vez que o espectador se acostuma com esse detalhe, porém, é hora de curtir o filme propriamente dito.

A história começa com a chegada do mago Gandalf na terra dos hobbits, o Condado. Ele reencontra o amigo Bilbo numa seqüência espetacular, em que a dupla chega a trocar abraços, dentro da diminuta casa de portas e janelas redondas que caracterizam os hobbits. A cena é estarrecedora quando se sabe que os dois atores nunca filmaram juntos, porque Bilbo bate na cintura de Gandalf e teve a imagem reduzida por computador, na fase de pós-produção. Em pouco tempo, Gandalf descobre a natureza do anel mágico e põe o sobrinho de Bilbo, já dono da jóia, na estrada. Frodo segue rumo à segurança de Valfenda, um reino dos elfos (seres imortais de orelhas pontudas), mas já está sob a perseguição dos temíveis Cavaleiros Negros, nove fantasmas a serviço de Sauron. Quando eles aparecem, o filme ganha agilidade e o espectador deixa de sentir o tempo passar. A partir daí, ficamos conhecendo de perto a sinistra aldeia humana de Bri, o misterioso andarilho Passolargo (Viggo Mortensen), os reinos barroco-brega de Valfenda e Lothlórien, as maldades do mago Saruman (Christopher Lee) e muito mais.

O ápice do filme vem na seqüência em que a sociedade é obrigada a cruzar um desfiladeiro por dentro. Para isso, eles devem passar pelas velhas minas de Moria, uma antiga cidade encravada nas Montanhas Nebulosas e habitada por anões. A seqüência dura meia hora e brinda o espectador com cenas antológicas: um belo diálogo sobre o destino, travado entre Gandalf e Frodo; as melhores cenas de luta do filme, quando a sociedade é cercada por guerreiros orcs comandados por um gigantesco troll; e uma fuga sensacional em cima de uma escadaria que ameaça desabar, enquanto todos são perseguidos por um balrog, espécie de demônio feito de fogo e sombras. Tudo isso acontece num cenário espetacular, formado por uma rede intrincada e aterradora de cavernas e salões de pedra negra, apinhados de enormes colunas redondas de granito.

Se o visual é arrebatador, Peter Jackson nunca esquece que a alma de um filme está no elemento humano. O elenco afiado e homogêneo, apesar de formado por atores de pouca fama, garante a emoção (e, nas horas mais dramáticas,Peter Jackson recorre a todos os truques possíveis para garantir as lágrimas da platéia:câmera lenta, canções tristes e muitos, muitos closes). O maior destaque fica por conta dos veteranos ingleses Ian McKellen e Ian Holm. McKellen faz um Gandalf enigmático e cheio de compaixão, e Holm não fica atrás na pele de Bilbo. Há muitas outras atuações de gala, como a de Viggo Mortensen, surpreendente como o atormentado andarilho Aragorn, e Sean Bean, como o impetuoso guerreiro humano Boromir. Elijah Wood (Frodo), Sean Astin (o hobbit Sam), Hugo Weaving (o rei elfo Elrond) e Christopher Lee (o mago Saruman) também estão muito bem.

A única decepção é Cate Blanchett, que não consegue transmitir o ar misterioso da rainha mais poderosa e temida dos elfos. Aliás, a caracterização barroca dos reinos élficos, inspirada na horrenda art noveau (estilo artístico neobarroco que predominou no início do século XX), é um dos poucos elementos visuais de mau gosto. Isso, contudo, não chega a arranhar o encanto dessa obra-prima do cinema fantástico. O universo de “Guerra nas Estrelas” agora tem concorrente à altura.

O DVD, por sua vez, consegue a proeza de ser duplo e muito econômico.O prato principal entre os extras é um trio de documentários realizados para televisões a cabo. São bacanas, mas superficiais e adulatórios, sem entrar de verdade nos detalhes (e são muitos!) sobre a construção da trilogia. Pelo menos o filme está com qualidade excelente de som e imagem, mas se você tem grana sobrando, vale a pena encarar uma importadora e trazer a edição especial, com quatro discos e uma quantidade impressionante de material extra.

– O Senhor dos Anéis: A Sociedade do Anel (Lord of the Rings: The Fellowship of the Ring, EUA/Nova Zelândia, 2001)
Direção: Peter Jackson
Elenco: Elijah Wood, Viggo Mortensen, Ian McKellen, Sean Astin, Dominic Monaghan, Billy Boyd, Orlando Bloom, Liv Tyler, Cate Blanchett, Christopher Lee
Duração: 179 minutos

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