Senhor dos Anéis, O: As Duas Torres

07/10/2003 | Categoria: Críticas

Cenários grandiosos e batalhas em escala grandiosa dão mais movimentação à trilogia épica de Peter Jackson

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★☆

Cenários grandiosos, batalhas sangrentas, efeitos especiais de alta qualidade, bons atores declamando textos barrocos e lágrimas, muitas lágrimas. Todos os elementos que seduziram milhões de pessoas ao redor do planeta e transformaram a primeira parte da trilogia “O Senhor dos Anéis” no quinto filme mais visto da história do cinema estão de volta no segundo capítulo da saga. “As Duas Torres”, considerado o menos comercial dos três longas que compõem a saga baseada nos livros do inglês J.R.R. Tolkien, mantém intactos os pontos alto (a construção minuciosa das paisagens naturais e arquitetônicas, além das criaturas fantásticas dos romances) e baixo (uma carga exagerada de superficialidade nas construção e nas relações entre os personagens) do primeiro trabalho de Peter Jackson.

Na realidade, tanto as qualidades quanto os defeitos de “A Sociedade do Anel” e “As Duas Torres” já estavam presentes nos livros. De fato, as tendências de Peter Jackson como cineasta — suas qualidades e defeitos mais visíveis — são correspondentes às características do próprio Tolkien. Basta lembrar que as 1.300 páginas que compõem a saga do anel estão repletas de descrições acuradíssimas de paisagens deslumbrantes, enquanto diálogos e movimentos interiores dos personagens invariavelmente ocupam poucas páginas. Peter Jackson não apenas transpõe para o celulóide perfeitamente essa característica como as amplifica. Os filmes são tão barrocos, no que isso tem de bom e de ruim, quanto os livros.

“As Duas Torres” é um digno sucessor de “A Sociedade do Anel”. Para fãs que gostam de movimento, batalhas épicas e lutas repletas de efeitos especiais, pode ser até mais atraente. Não é o meu caso; ainda acredito que os dois primeiros atos de “A Sociedade do Anel” (da aldeia dos hobbits até a travessia de Moria) são o melhor momento de toda a trilogia – e posso apostar que nem “O Retorno do Rei” baterá essas cenas. Mas o que importa mesmo é a coerência. Se fossem reunidas e exibidas de uma só vez, as duas películas certamente poderiam passar por uma só. Isso confirma, definitivamente, o acerto do diretor neozelandês, ao decidir filmar toda a trilogia como se fosse um só trabalho — um esforço que consumiu US$ 300 milhões e dezoito meses de filmagens.

Há um ponto altamente positivo que atua como fio da meada na forma como Jackson conduz a trilogia, e isso fica evidente logo nos primeiros minutos de “As Duas Torres”: ele não subestima a inteligência do espectador, nem o trata como sujeito sem memória. Jackson recusa qualquer tipo de prólogo para explicar o que ocorrera no filme anterior, e também não gasta tempo reapresentando os personagens. As Duas Torres abre com cenas da luta entre Gandalf e o demônio balrog, mas a partir do ponto em que a ação foi abandonada no primeiro filme. Vemos ambos caindo no abismo sem fim de Moria e lutando ferozmente, antes de descobrirmos que as cenas são de um pesadelo de Frodo, o pequeno hobbit que carrega o anel do poder. É uma atitude corajosa: optar por um prólogo poderia irritar muitos fãs, além de deixar o já longo filme com uma proibitiva duração de 3h30.

Para quem não lembra, portanto, aqui vai uma breve retrospectiva: no fim do primeiro filme, a comitiva encarregada de destruir o anel mágico mais poderoso que existe na Terra-média está quebrada, gerando três diferentes tramas. Na primeira, Frodo (Elijah Wood) e Sam (Sean Astin) entram nos pântanos rumo à terra de Mordor, onde está entrincheirado o espírito maligno Sauron, que busca o anel. Só lá, no vulcão Orodruin, a jóia pode ser derretida. Enquanto isso, os hobbits Merry (Dominic Monaghan) e Pippin (Billy Boyd) foram capturados por um bando de orcs a serviço do mago Saruman (Christopher Lee), novo aliado de Sauron. Já os três remanescentes, o humano Aragorn (Viggo Mortensen), o anão Gimli (John Rhys-Davies) e o elfo Legolas (Orlando Bloom), saem no encalço dos orcs para salvar a dupla. É nesse ponto que a ação de “As Duas Torres” começa.

O nome do filme, claro, não tem nada a ver com o ataque terrorista ao WTC. As referidas torres são Orthanc, morada de Saruman, e Barad-dur, lar de Sauron. O título, emprestado do romance original, refere-se a um suposto pacto entre os dois magos (pacto, aliás, inexistente no livro, já que lá Saruman age sozinho para roubar o anel) para, usando o poder da jóia, escravizar todos os povos livres da Terra-média, o continente mítico que corresponde à Europa de dez mil anos atrás. As conspirações entre Sauron e Saruman emprestam à história um clima de destruição que transcende a mera ação física. Peter Jackson segue fielmente a narrativa de romance, equilibrando-se entre três narrativas diferentes e enfocando o encontro dos personagens do primeiro filme com novos protagonistas.

Há um certo desequilíbrio, porém. No filme, a ação fica concentrada demais na terceira trama, ambientada em Rohan, uma grande planície habitada por humanos criadores de cavalos. É lá que Saruman pretende dar o primeiro golpe contra os povos livres, destruindo a capital do reino, Edoras. Por isso, depois que encontra Gandalf (que, imortal, retorna mais forte e mais sábio), o trio Legolas/Aragorn/Gimli fica encarregado de organizar a resistência de Rohan. É no reino dos cavaleiros que vamos conhecer a maior parte dos novos personagens: o rei Théoden (Bernard Hill), o capitão Éomer (Karl Urban), o traidor Grima (Brad Dourif) e a bela e corajosa Éowyn (Miranda Otto).

Nesse ponto, o roteiro de “As Duas Torres” abandona o caráter de fidelidade quase canina ao texto original — para o mal e para o bem. De um lado, algumas alterações ajudam a explicar melhor algumas situações grosseiras do livro (o reforço das tropas élficas ao cerco no Abismo de Helm, apesar de certamente desagradar aos fãs mais radicais, explica como seria possível resistir a um cerco de tantos guerreiros sem qualquer estratégia, algo que o livro fica devendo). Outras mudanças, realizadas nitidamente para condensar a narrativa literária, acabam emprestando superficialidade aos dois pontos mais frágeis da trilogia de Peter Jackson: as construções dos personagens e as relações entre eles.

Assim, a intrigante Éowyn, única mulher do romance original, perde quase completamente o caráter rebelde e turrão, virando uma princesa caseira bem ao gosto dos contos de fada. A complicada paixão dela por Aragorn, que no filme serve de mote para flashbacks (dispensáveis) de cenas com a elfa Arwen (Liv Tyler), acaba reduzida a alguns olhares tortos. Da mesma forma, a relação entre Théoden e Galdalf, que no livro se estrutura fragilmente entre a reverência e a teimosia, acaba simplificada pela pouco elaborada estratégia de imaginar uma suposta possessão do rei pelo mago Saruman. Essa acaba sendo a mais desastrada modificação ao conteúdo do romance em “As Duas Torres”.

O personagem da narrativa literária que mais sofre no filme, porém, é Barbárvore. A longa duração da trama obrigou Peter Jackson a cortar muitas cenas dentro da floresta de Fangorn. Assim, o universo dos ents (espécie de espíritos que habitam enormes árvores) ocupa poucos minutos da ação. Barbárvore acaba retratado como uma espécie de velho teimoso, algo que está bem distante do ser poderoso do romance. No aspecto visual, pode-se até questionar a aparência excessivamente humana dos ent, com pernas muito longas e finas demais, mas o rosto enrugado e a voz de taquara realmente impressionam. Resta esperar a edição especial, mais longa, que trará muito mais cenas na floresta de Fangorn.

A melhor coisa de “As Duas Torres” chama-se Gollum (ou, em muitos momentos, Sméagol). Tudo no hobbit deformado é genial, desde a cuidadosa construção gráfica de corpo e rosto (de longe, o ser digital mais convincente do cinema) até a brilhante forma encontrada por Peter Jackson para mostrar a dualidade do caráter de Gollum, o sofrimento interior ante dupla personalidade. Interpretado com destreza por Andy Serkis (cuja voz flutua entre o irritante e o apavorante), Gollum tem a vantagem de ser o personagem mais atormentado de todos os filmes, algo que é capturado minuciosamente nos monólogos que ele trava enquanto Frodo e Sam, que o capturam logo no início da ação, dormem, no decorrer da jornada pela terra ora esturricada ora pantanosa de Mordor.

“As Duas Torres” prova que Peter Jackson sabe exatamente o que está fazendo. O filme tem muito mais qualidades do que defeitos e, afinal, é um épico de aventura feito para adolescentes (de todas as idades), com uma longuíssima batalha de 40 minutos e várias outras cenas de lutas. Nesse aspecto, o filme funciona muito bem. Se o ataque em massa dos orcs no Abismo de Helm não capturar a imaginação de cada fã, bem… ainda dá para esperar por “O Retorno do Rei”, quando poderemos ver um confronto ainda maior — a batalha dos campos do Pellennor (que inspirou o Led Zeppelin a fazer a linda The Battle of Evermore), o ataque de uma aranha gigante a Frodo e, claro, a conclusão da saga, nos túneis de lava da montanha Orodruin. Mas “As Duas Torres” cumpre bem a tarefa ingrata de articular uma ligação entre o começo e o final (os dois momentos mais sedutores) de uma trilogia que promete entrar para a história dos épicos de aventura.

Quanto ao DVD nacional em si, é preciso ressaltar que é de alta qualidade – melhor inclusive do que o disco do primeiro longa da trilogia. Além do filme, há três documentários que totalizam quase 1h30 de bastidores das filmagens, e um extra curioso: um curta-metragem (que nada tem a ver com o universo fantástico da trilogia) dirigido pelo ator Sean Astin, o hobbit Sam. Há ainda trailers e vários pequenos featurettes roubados da Internet, que detalham momentos-chave dos bastidores, como a transformação do ator inglês Andy Serkis em Gollum.

– O Senhor dos Anéis: As Duas Torres (Lord of the Ring: The Two Towers)
Direção: Peter Jackson
Elenco: Elijah Wood, Viggo Mortensen, Ian McKellen, Sean Astin, Dominic Monaghan, Billy Boyd, Orlando Bloom
Duração: 178 minutos

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