Senhores do Crime

11/06/2008 | Categoria: Críticas

Cronenberg oferece mais uma janela fascinante para aspectos sombrios da condição humana, mostrados sob o signo da normalidade

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★½

O problema da crise de identidade é crucial para compreender a época contemporânea. No mundo globalizado, com as distâncias reduzidas a pó e modas que vão e vêm em ciclos cada vez mais rápidos, as pessoas não possuem mais uma identidade estável. Mudam o tempo todo. São como vários personagens habitando o mesmo corpo. O cinema de David Cronenberg problematiza esta situação desde a década de 1970, com maior (“Existenz”) ou menor (“A Mosca”) vigor. Em aparência, o thriller “Senhores do Crime” (Eastern Promises, Canadá/Inglaterra/EUA, 2007) parece fugir do tema, mas uma análise atenta permite afirmar o contrário. Múltiplas identidades são uma das chaves que conectam o belo trabalho de Cronenberg com sua obra passada.

O longa-metragem atesta, mais uma vez, a maturidade de um autor maiúsculo. Desde “Spider” (2002), Cronenberg vem adotando um estilo clássico de narrativa, mais sóbrio e discreto. Faz isso, contudo, sem abandonar suas marcas registradas. Há cenas de violência sim, e algumas delas são especialmente gráficas, mas não vê mais a vontade de chocar que era perceptível em trabalhos como “Videodrome” (1983). Algumas pessoas até creditam à mudança de registro estético uma ruptura no aspecto autoral de Cronenberg. Acredite: é só aparência. O cineasta tem se mostrado um mestre em construir mundos sobrepostos, em filmes com diferentes camadas de significado. Aqui, ele abre mais uma janela fascinante para aspectos sombrios da condição humana, escondidos sob uma aparência de normalidade.

Quem compara o registro extravagante e grand guignol dos primeiros filmes (as cabeças explodindo em “Scanners”) com os temas visuais naturalistas de “Senhores do Crime” acredita que Cronenberg mudou. Na aparência, mudou mesmo. A trajetória dele tem semelhança com a seguida pelo espanhol Pedro Almodóvar, que também migrou da histeria à discrição, mas sem perder as ligações com as raízes temáticas. O que às vezes não se percebe que é as mudanças na obra de Cronenberg são apenas estéticas. O diretor canadense tem mostrado uma capacidade extraordinária de se reinventar sem cortar os laços com o próprio passado. Um desses laços está, justamente, na temática reincidente das identidades múltiplas. Ela estava em “Marcas da Violência” (2005) e volta a aparecer em “Senhores do Crime”.

As duas produções são irmãs. Dividem não apenas o ator Viggo Mortensen como protagonista, mas também o conteúdo subversivo, escondido sob a capa de aparência inofensiva. À primeira vista, “Senhores do Crime” parece ser um thriller comum sobre as atividades criminosas da máfia russa em Londres, mas uma observação criteriosa revela o perene interesse do cineasta pelo lado violento da natureza humana. Como os grandes romancistas, Cronenberg sabe como lançar luz sobre aspectos obscuros da psique do ser humano de sua época. Como não é filósofo, ele não tenta doutrinar ninguém. Seu negócio é contar histórias. E “Senhores do Crime” é uma história muitíssimo bem contada.

Inicialmente, o diretor constrói um mundo organizado, de aparência normal, onde todas as coisas funcionam como a gente espera que funcionem. Aos poucos, Cronenberg vai penetrando do âmago deste mundo. No processo, revela que por baixo dele existe um outro mundo, subterrâneo e secreto. Um mundo que funciona à base de violência, crime e instintos primais. Tudo, em “Senhores do Crime”, tem duas camadas sobrepostas. A locação principal, por exemplo, é um sofisticado e tranqüilo restaurante londrino que serve, na verdade, como base principal de operações para uma organização criminosa especializada em contrabando, prostituição e assassinato.

Assim é, também, o grande antagonista da produção. Pacato e sorridente, Semyon (Armin Mueller-Stahl) dirige o tal restaurante com dedicação e humildade. Nas trevas, porém, ele é um dos mais perigosos, violentos e implacáveis entre os chefões da máfia russa. Quem dispara a narrativa principal, porém, não é ele, mas Anna (Naomi Watts), enfermeira de um hospital público e filha de russos. Ela consegue salvar o bebê de uma adolescente grávida que dá entrada na emergência e sangra até morrer. Decide, então, procurar a família da criança órfã a partir das anotações presentes no diário deixado pela garota. A partir de pequenos trechos traduzidos pela mãe e pelo tio, que sabem a língua, ela decide procurar Semyon. Não imagina, mas é uma atitude que pode colocar a vida do bebê (e a dela própria) em risco.

Anna é a personagem que representa a platéia em “Senhores do Crime”. Quando o filme começa, ela não dispõe de informações suficientes para ver além da primeira camada do mundo, a mais superficial. Aos poucos, à medida que procura localizar a família do recém-nascido, Anna passa a descobrir a depravação e a decadência que se escondem por trás da aparência de normalidade do restaurante chique de Semyon. Por que ela não recua e se afasta do perigo? Por duas razões: primeiro, porque a maternidade latente da enfermeira a impele a encontrar uma nova mãe para o bebê – ela se vê como uma guardiã provisória da criança. A segunda razão é apenas sugerida por Cronenberg: Anna desenvolve um sentimento ambivalente de atração e repulsa pelo chofer do mafioso, Nikolai (Viggo Mortensen).

Nikolai é o verdadeiro protagonista de “Senhores do Crime”. De postura firme e tranqüila, ele é um homem de inteira confiança da família de Semyon, que tem um filho meio maluco (Vincent Cassel). Dá para perceber porque ele deixa Anna atordoar. Homem longilíneo, de movimentos rápidos, tatuado dos pés à cabeça, Nikolai é uma figura educada e assustadora, que transmite autoconfiança. Anna sente – e nós também, porque ela nos representa na história – que há bondade por trás daquele rosto enigmático. Nikolai não pratica violência por prazer. Ele é um profissional. Quando recebe a incumbência de “tratar” um cadáver que não deve ser reconhecido, saca um alicate do bolso e arranca os dedos da mão do morto. Seu rosto não denota nenhum sentimento. No trabalho, ele é como um burocrata que carimba documentos.

Nikolai é um magnífico exemplo de composição de personagem. Ele jamais é definido por palavras. Não conhecemos nada do passado dele (os personagens conhecem, pois as tatuagens nos mafiosos daquele país contam a história de cada pessoa), mas achamos que o conhecemos – até que chegue o terceiro e último ato do filme, quando finalmente descobriremos uma coisinha ou duas a respeito de Nikolai. É quando todas as peças se encaixam, e percebemos o controle absoluto de David Cronenberg sobre todos os aspectos da obra, desde o espetacular elenco multinacional (com atores canadenses, dinamarqueses, alemães, poloneses e franceses interpretando russos!) ao roteiro preciso de Steve Knight (um especialista em histórias do submundo de Londres).

Curiosamente, a metáfora dos dois mundos sobrepostos também funciona fora do filme. Cronenberg aprendeu a sugerir mais do que dizer, a trabalhar os temas na história sem explicitá-los através de diálogos explicativos, e manteve – ainda que oculto nas sombras – o interesse pelos mesmos assuntos. Ele continua fascinado pela desconstrução do corpo humano, como comprova a maneira curiosa como ele fotografa os corpos cobertos de tatuagem. Mas o interesse pelo corpo resplandece mesmo na genial seqüência da luta na sauna, onde entre Nikolai luta, inteiramente nu, contra dois mafiosos. É uma cena espetacular, que já nasceu clássica.

Além disso, a própria temática das identidades múltiplas também pode ser vista nos personagens de “Senhores do Crime”. Semyon, obviamente, personifica com perfeição esta idéia (ao mesmo tempo em que sintetiza soberbamente o conceito de camadas sobrepostas de informação). O tio de Anna é outra figura que tem uma faceta normal e outra não tanto. Mas o ponto focal desta leitura do longa-metragem está na figura de Nikolai. Basta segui-lo com atenção até o final para perceber como o chofer mafioso representa, sempre utilizando a idéia de sobreposição de informações, esta temática contemporânea das identidades múltiplas. Que Cronenberg consiga tudo isso simplesmente contanto uma história é a grande façanha de “Senhores do Crime.

O DVD da Playarte contém o filme, com boa qualidade de imagem (widescreen anamórfica) e áudio (Dolby Digital 5.1).

– Senhores do Crime (Eastern Promises, Canadá/Inglaterra/EUA, 2007)
Direção: David Cronenberg
Elenco: Viggo Mortensen, Naomi Watts, Vincent Cassel, Armin Mueller-Stahl
Duração: 96 minutos

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