Sentido da Vida, O

08/11/2004 | Categoria: Críticas

Coleção de esquetes do Monty Python, engraçada mas irregular, ganha DVD de luxo

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★½☆

“O Sentido da Vida” (Monty Python’s the Meaning of Life, Inglaterra, 1983) não foi uma produção comum, para o cinema, de um grupo de comediantes que fazia muito sucesso na TV. O grupo Monty Python já havia se separado há muitos anos quando se reuniu para fazer o longa-metragem. A reunião surgiu a partir de circunstâncias favoráveis que envolveram o sexteto desde o fim do humorístico que eles mantinham. Com o passar dos anos, o humor anárquico e corrosivo do grupo tornou-se quase lendário, e as duas produções cinematográficas do grupo (“A Vida de Brian” e “O Cálice Sagrado”) haviam adquirido o status de clássicos da comédia.

Todos esses fatores fizeram com que os seis humoristas tivessem, pela primeira vez, condições financeiras de realizar um filme mais bem acabado. Ao contrário de “A Vida de Brian” (feito nos cenários de um filme de Franco Zefirelli) e “O Cálice Sagrado” (filmado em um parque nos arredores de Londres), o grupo finalmente conseguiu trabalhar com cenários mais sofisticados, contratar um bom diretor de arte, comprar figurinos de verdade – e não sobras do programa de TV – e reservar tempo para burilar o roteiro.

Se esses detalhes indicavam, em teoria, grandes chances de o Monty Python realizar seu melhor trabalho no cinema, na prática o “fator Let It Be” não deixou essa promessa se concretizar. O paralelo é irresistível: o relacionamento interno entre os seis comediantes já havia deixado de ser amistoso há algum tempo. John Cleese e Michael Palin tinham carreiras em Hollywood, como atores. Terry Gilliam começava sua trajetória como diretor, também nos EUA. Eric Idle tinha ambições no campo musical. Graham Chapman lutava contra um alcoolismo crônico que acabaria por lhe matar. Apenas Terry Jones, o diretor, brigava para dar um sentido de unidade às piadas inegavelmente arrasadoras da trupe.

A produção de “O Sentido da Vida”, por causa dos ciúmes e das ambições pessoais do sexteto, seguiu mais ou menos a mesma lógica que o disco Let It Be, dos Beatles. Cada integrante escreveu esquetes cômicos sozinhos. O resultado, altamente previsível, foi um filme engraçado, mas irregular. “O Sentido da Vida” é o trabalho mais fraco que os Python produziram para o cinema, embora contenha alguns dos esquetes mais hilariantes que as seis mentes privilegiadas foram capazes de conceber. Ao lado desses momentos, porém, há seqüências grosseiras e outras simplesmente sem graça.

A cena mais conhecida de “O Sentido da Vida” é conhecida como “Sr. Creosonte”. Nela, um homem monstruosamente gordo entra em um restaurante chique, come uma montanha de comida enquanto, ao mesmo tempo, vomita em alguns baldes colocados ao lado da mesa. Após várias rodadas de comida e vômito, ele engole o chocolate da sobremesa, que o faz literalmente explodir. Engraçado? Para alguns, talvez. Para outros, simplesmente nojento. Como de hábito, o Monty Python inclui vários esquetes zombando de religião, de intelectuais, de judeus, de mulheres. Eles não são politicamente corretos, ainda bem. Alguns espectadores podem achar, entretanto, que o grupo ultrapassa os limites do aceitável, aqui e acolá. Não deixam de ter razão.

Há momentos memoráveis em “O Sentido da Vida”. O curta-metragem que abre a projeção é um deles. Um grupo de velhinhos que trabalham como contadores se revolta contra a exploração dos chefes e toma o controle do escritório, que de repente se “transforma” em uma espécie de barco-pirata. O “escritório” navega até Wall Street, onde os velhinhos atacam os economistas usando gavetas de contabilidade e carimbos como se fossem balas de canhão. Hilariante. E, melhor ainda, cinematograficamente competente, com excelente design de produção e narrativa econômica (quase não há diálogos).

Existem outros momentos de destaque. A canção “Todo Esperma É Sagrado”, que enfureceu grupos conservadores na época do lançamento inglês, é engraçadíssima. O trecho em que médicos enchem uma sala de parte com máquinas sofisticadíssimas que não aprenderam a usar, apenas para impressionar o administrador do hospital que passam em uma inspeção, é uma crítica bem-humorada à maneira do Monty Python à mercantilização da profissão. O jogo de rugby entre crianças de 10 anos e acadêmicos de 40 também faz chorar de rir. Mas essas cenas são minoria em um filme de 90 minutos.

Existem duas versões do DVD no mercado brasileiro. Uma, fora de catálogo, é da Columbia, e contém apenas o filme. Já a versão dupla, lançada pela Universal, contém uma segunda versão do longa, com oito minutos a mais. Tem também uma trilha de áudio em DTS 6.1 (excelente) e imagens restauradas. No disco 2, um documentário (49 minutos), cenas excluídas (18 minutos) e oito featurettes, que incluem desde clipes musicais das músicas de Eric Idle até um pacote de trailers e publicidade de TV sobre o filme. É uma excelente box para fãs do Monty Python. Pena que suas duas obras-primas não foram lançadas no Brasil com o mesmo cuidado.

– O Sentido da Vida (Monty Python’s the Meaning of Life, Inglaterra, 1983)
Direção: Terry Jones
Elenco: John Cleese, Eric Idle, Graham Chapman, Michael Palin, Terry Gilliam, Terry Jones
Duração: 90 minutos

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