Sentinela

11/12/2006 | Categoria: Críticas

Michael Douglas produz e atua em thriller genérico sem surpresas e com clichês de montão

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★½☆☆

Veterano agente secreto, que anos antes desempenhou importante papel em um atentado contra um presidente dos Estados Unidos, se vê envolvido involuntariamente em nova trama para acabar com a vida do chefe de Estado do país mais poderoso do mundo. Reconheceu o filme em questão? Se você é um espectador atento, deve ter pensado que se trata de “Na Linha de Fogo” (1993), bom thriller de espionagem com Clint Eastwood no papel principal. O argumento é o mesmo, mas o filme não: estou falando de “Sentinela” (The Sentinel, EUA, 2006), thriller genérico do diretor de aluguel Clark Johnson.

A história básica do longa-metragem de 1993, primeiro sucesso em Hollywood do diretor alemão Wolfgang Peterson, foi reembalada em uma trama nova, que mistura a situação predileta de Alfred Hitchcock – um homem inocente acusado de um crime que não cometeu – com a dinâmica acelerada do seriado “24 Horas”, com espiões tentando encontrar um traidor entre eles. O resultado é um policial reconhecível a léguas de distância, implausível e pouco surpreendente, mas feito sob medida para aquela parcela do público que gosta de brincar de detetive e tentar adivinhar a identidade do criminoso, uma técnica que no cinema se chama de “whodunit”.

Dirigida por um cineasta sem credenciais elevadas, a produção tem como nome principal o de Michael Douglas. Além de interpretar o papel principal (e vestir mais uma vez a estupenda coleção de ternos e gravatas que tem no guarda-roupa, já que ele é provavelmente o melhor ator disponível para papéis de homens engravatados), Douglas atua como produtor executivo. Na tela, realiza um duelo de gerações com Kiefer Sutherland, sujeito que carrega o rótulo “agente secreto” colado na testa, devido ao papel do super-popular agente Jack Bauer, personagem principal da série “24 Horas”.

A história traz Douglas como Pete Garrison, respeitado agente secreto que, na década de 1980, levou um tiro ao proteger o então presidente Ronald Reagan de um atentado. Duas décadas depois, ele continua na equipe que protege o morador ilustre da Casa Branca, mas agora possui um bônus – um caso com a primeira dama (Kim Basinger). Quando o assassinato de outro agente deixa claro que existe uma conspiração para matar o político, e que esta conspiração inclui um traidor dentro do círculo de confiança da Casa Branca, os indícios levam a Garrison. Ele precisa então desmascarar o dedo-duro e provar sua inocência, mas sem revelar que anda freqüentando a cama da mulher do chefe do país.

“Sentinela” tem a ação concentrada em tensos e escuros corredores de agências governamentais, com um par de seqüências em locações externas. A ação é simples e trivial, e inclui algumas perseguições a pé que não cheiram o chulé do velho e ainda excelente “Operação França” (1971). Além disso, os caminhos da investigação solitária comandada por Garrison são bastante previsíveis. Para solucionar o caso, o agente não utiliza o raciocínio lógico de um Sherlock Holmes nem o conhecimento científico dos melhores episódios de “C.S.I”; tenta apenas apostar na sensação de urgência e tensão extrema de “24 Horas” – e a presença de Kiefer Sutherland, como o agente responsável por investigar o personagem de Douglas, faz questão de nos lembrar disso em quase todos os momentos.

Por outro lado, o roteiro burocrático assinado por George Nolfi recicla um número incontável de chavões dos thrillers de espionagem. Há, por exemplo, os tradicionais desentendimentos entre mestre (Douglas) e aluno (Sutherland), que precisam superar desavenças pessoais para avançar nas investigações. Roteirista e diretor não esqueceram nem mesmo de colocar na trama o velho informante do FBI que sabe demais sobre o caso. É incrível, aliás, que um investigador experiente como Pete Garrison perca a pista do suspeito, mesmo após um primeiro encontro cheio de informações comprometedoras.

O ponto mais elogiado do filme, pela crítica norte-americana, está na atuação de Eva Longoria, que faz a parceira de Sutherland. Mas a verdade é que ela tem pouco tempo de tela, assim como a veterana Kim Basinger, cada vez mais enterrada em sub-papéis insossos. Para completar, o filme nem mesmo realiza um bom jogo de charadas com o espectador, uma vez que não somos abastecidos de nenhuma pista sequer sobre a identidade do traidor, e não há como adivinhar quem é ele antes que o filme nos informe. OK, “Sentinela” pode ser um passatempo interessante, mas só se você não assiste a filmes policiais há um bom tempo.

O DVD da Fox Filmes não tem extras, mas tem boa qualidade de imagem (widescreen anamórfica) e som (Dolby Digital 5.1).

– Sentinela (The Sentinel, EUA, 2006)
Direção: Clark Johnson
Elenco: Michael Douglas, Kiefer Sutherland, Eva Longoria, Kim Basinger
Duração: 108 minutos

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