Separados pelo Casamento

04/10/2006 | Categoria: Críticas

Direção preguiçosa gera comédia romântica sem graça e extermina química entre dois bons atores

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★☆☆☆

Um dos subgêneros cômicos mais importantes da era de ouro de Hollywood, período situado entre as décadas de 1930 e 40, era composto por filmes sobre reconciliações. Muitos clássicos da época, como o genial “Jejum de Amor” (1940), de Howard Hawks, pertencem a este ciclo da comédia de costumes cujo biótipo foi, lentamente, se transmutando no esqueleto narrativo daqueles romances engraçadinhos tipo “guerra dos sexos”, dirigidos em geral ao público feminino. “Separados pelo Casamento” (The Break-Up, EUA, 2006) pertence ao filão, e é uma lamentável coleção de clichês românticos sem muita graça.

Produzido e co-escrito pelo ator Vince Vaughn, o filme fez grande sucesso nos Estados Unidos, onde faturou US$ 105 milhões nos cinemas, confirmando mais uma vez uma máxima da indústria cinematográfica do século XXI: comédias românticas independem da qualidade para arrastar largas porções do público ao cinema. É fácil entender o porquê. São filmes cuja produção é simples e rápida, custam pouco e têm um público-alvo bastante grande. Os produtores não precisam gastar fortunas e nem dar duro por meses a fio para produzir bons roteiros ou efeitos especiais caprichados. Bastam dois atores medianos, algumas piadas requentadas, duas ou três cenas brincando com problemas da vida real de qualquer casal, e voilá! – um filme de sucesso garantido.

Assim como o filme-irmão “Armações do Amor”, lançado poucos meses antes, “Separados pelo Casamento” teve origem em uma boa idéia. Ambos resultaram de observações pertinentes sobre fenômenos curiosos na vida das pessoas nas grandes cidades. O filme com Matthew McConaughey construiu a trama a partir da constatação de que homens com mais de 30 anos estão demorando mais a sair da casa dos pais. Já “Separados pelo Casamento” ancora a trama em uma situação semelhante – os casais que, por limitações financeiras, precisam continuar dividindo o mesmo lar mesmo depois do divórcio.

O pior é que “Separados pelo Casamento” até começa bem. O prólogo mostra o primeiro encontro entre o guia turístico Gary (Vince Vaughn) e a gerente de uma galeria de arte Brooke (Jennifer Aniston), durante um jogo de beisebol. Ela está acompanhada, mas ele solta uma cantada mesmo assim. Entram os créditos e sobe uma montagem interessante de fotografias do casal, indicando que eles ficaram juntos. Os créditos fotográficos resumem dois felizes anos na vida do casal. Na cena seguinte, chegamos ao presente, quando a paixão já esfriou e o dois agora precisam enfrentar os desafios da vida diária. Eles têm uma briga feia, decidem se separar, mas nenhum deseja sair do apartamento que deram duro para comprar. Cada um fica em um cômodo e a vida continua.

O filme começa a incomodar de verdade quando observamos o perfil de cada personagem, construídos de modo burocrático e superficial, como opostos em tudo. Ele é agitado e tagarela, gosta de cerveja e de beber com os amigos, e adoraria ter uma mesa de sinuca na sala – ou seja, é vazio como um balão de gás. Ela é discreta, tranqüila, prefere vinho tinto e jantares com a família. Como é normal neste tipo de filme, o homem é mostrado como alguém desleixado, egoísta e infantil; a mulher é mais madura, mas teimosa como uma mula. Dois clichês de marca maior. “Separados pelo Casamento” endossa a tese (outro clichê) de que os opostos se atraem. É evidente, desde as primeiras imagens, como a história toda vai terminar.

Abusando de chavões e lugares-comuns, os roteiristas Jeremy Garelick e Jay Lavender repetem ponto a ponto todos os elementos que nos acostumamos a ver em comédias românticas. Há a habitual fauna de coadjuvantes exóticos e engraçadinhos, como o recepcionista gay e a dona perua da galeria onde Brooke trabalha. Como de praxe, cada protagonista ganha um melhor amigo e conselheiro. Para não variar, a tradicionalíssima “cena do jantar” (você ainda não percebeu que toda comédia romântica tem pelo menos uma cena de jantar?) marca presença, copiando descaradamente uma seqüência de “O Casamento do Meu Melhor Amigo”, de 1997.

O festival de equívocos ainda tem a direção preguiçosa de Peyton Reed, algo que também é de certa forma surpreendente. No bem melhor “Abaixo o Amor”, de 2003, Reed havia feito um filme que pelo menos caprichava nas soluções visuais, algo que inexiste em “Separados pelo Casamento”. Ele filma todos os diálogos da maneira mais burocrática possível, sempre cortando do rosto de um para o rosto do outro, um plano/contraplano interminável, que quase nunca mostra os dois juntos no mesmo quadro, como bem observou o crítico do New York Times, A.O. Scott. Essa opção técnica extermina a possibilidade de química entre Vaughn e Aniston, dois atores com ótimo timing cômico, e ainda por cima realça o isolamento emocional de cada um deles. São dois solteiros, não um casal.

Se você juntar todas essas observações, vai compreender porque, lá pela metade, a gente começa a pensar que não deveria haver filme. Vejamos: é uma história trivial, previsível, em certos momentos até chata, e muito menos engraçada do que se supõe. Além disso, Gary e Brooke não são pessoas interessantes, e não inspiram o público a torcer para que voltem a se tornar um casal. Não há uma cena sequer em que demonstrem que podem ser carinhosos. Não soltam faíscas quando estão na cama. arecem sempre estar fazendo sacrifício para ficar junto com o outro. Não dá para continuar casado com alguém nessas circunstâncias. Então, para quê filme?

O lançamento da Universal vem em DVD simples e sem extras, em cópia boa, que preserva o enquadramento original (widescreen anamórfico) e tem bom som (Dolby Digital 5.1).

– Separados pelo Casamento (The Break-Up, EUA, 2006)
Direção: Peyton Reed
Elenco: Vince Vaughn, Jennifer Aniston, Joey Lauren Adams, Jon Favreau
Duração: 105 minutos

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