Ser e Ter

25/04/2007 | Categoria: Críticas

Documentário francês desvela fenômeno contemporâneo das escolas de uma turma só

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★½☆

O objetivo inicial era compor o retrato cinematográfico de um fenômeno tipicamente francês: as “escolas de uma turma só”, pequenos estabelecimentos de ensino fundamental, que existem aos montes nos pequenos municípios do país europeu. Basicamente, são lugares em que um único professor dá aulas para crianças de 4 a 10 anos de idade, todos juntos, na mesma sala. Por se tratar de um tema rural, quase alienígena para o público eminentemente urbano que freqüenta cinemas e locadoras, ninguém esperava que “Ser e Ter” (Être et Avoir, França, 2002) virasse um sucesso. Mas aconteceu. O longa-metragem de Nicolas Philibert levou quase um milhão e meio de espectadores aos cinemas, e se tornou o documentário mais visto na França em todos os tempos.

Não é tarefa simples explicar tamanho sucesso. Em parte, pode ter acontecido porque o filme lida, usando um espírito lúdico bem adequado ao tema, com crianças. Filmar os pequenos em tarefas cotidianas quase sempre resulta em imagens fascinantes, já que eles tomam conta naturalmente de qualquer filme, com seus comentários de sinceridade desconcertante. Quando um documentário envolve crianças, o filme estabelece com o espectador uma espécie de acordo tácito: você vê como as coisas são, sem retoques, já que as crianças não têm a capacidade de enfeitar histórias ou interpretar papéis, algo que os adultos, às vezes inconscientemente, fazem o tempo todo. O ser humano tem compulsão para parecer mais bacana do que realmente é, mas meninos não sabem mentir.

Sob esse aspecto, “Ser e Ter” alcança um resultado interessante já a partir das opções narrativas e estéticas do cineasta. Para começar, ao invés de tentar produzir um ambicioso painel do fenômeno, Philibert preferiu fazer um registro mais cálido e intimista. Para tanto, percorreu mais de 300 escolas e selecionou apenas uma, no município de Auvergne. Lá estudam apenas dez crianças, com o professor Georges Lopez, de 55 anos. O mestre está a um ano e meio da aposentadoria. O recorte escolhido permite que o filme trate cada criança (e também o professor) como personagem completo. Todos são gente com anseios, emoções, frustrações. Durante um ano, a equipe acompanhou as aulas na escola, todos os dias.

Durante as gravações, aos poucos, as crianças foram se acostumando com a câmera e a presença da equipe, de forma que após algumas semanas o cineasta conseguiu o efeito desejado: a invisibilidade. Assim que a presença dos técnicos se tornou cotidiana, os meninos passaram a considerar a câmera como parte do cenário da escola. Não olhavam mais para ela, daí a naturalidade espantosa. As crianças realizam suas pequenas tarefas como se não houvesse mais ninguém na sala além delas. Com exceção de um pequeno segmento que divide o documentário em dois blocos – uma entrevista curta com o professor – o que vemos é meramente um registro editado de um ano na vida da escola. Simples e espartano. O resultado é encantador, especialmente para quem, como os brasileiros, desconhece um método de ensino tão inusitado e incomum.

Obviamente, esta opção de Philibert também geral alguns problemas. Há quem discorde dela, e desconfie que a edição do material bruto privilegiou determinados momentos em detrimentos de outros, cujo registro era mais artificial e menos naturalista. Pode ser. O papel do editor é, no documentário, ainda mais importante do que no cinema de ficção, porque quando existe muito material bruto, toda e qualquer escolha sobre o que vai entrar e o que será deixado de fora da edição final se torna uma escolha moral. Importante, neste caso aqui, é que o resultado radiografa de forma eficiente não apenas o fenômeno da “escola de uma turma só” – o espectador tem uma boa idéia de como a coisa toda funciona, afinal – mas também garante que haja uma boa dose de drama humano nas histórias tristes e alegres dos pequenos e grandes personagens.

A título de curiosidade, vale a penas comentar que o professor Georges Lopez brigou feio com o cineasta, após o lançamento (e o conseqüente sucesso, avassalador e inesperado, do longa-metragem). Lopez chegou a entrar na Justiça com uma ação indenizatória, argumentando que Philibert o havia transformado em protagonista do filme, sem avisá-lo, e deveria pagar por isso. No processo, exigiu 250 mil euros como “cachê”. Foi derrotado, enquanto o filme seguia uma carreira vitoriosa, angariando admiradores incondicionais e elogios da crítica. É um documentário bem interessante, especialmente para educadores e pais.

O DVD nacional, simples e sem extras, é da Video Filmes. A qualidade de imagem (widescreen anamórfica) e áudio (Dolby Digital 2.0) é ótima.

– Ser e Ter (Être et Avoir, França, 2002)
Direção: Nicolas Philibert
Documentário
Duração: 107 minutos

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