Serpentes a Bordo

07/03/2007 | Categoria: Críticas

Fenômeno graças à Internet, filme B é aventura despretensiosa com personagens ocos e ação exagerada

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★☆☆☆

Enquanto a maioria dos executivos dos estúdios de cinema sua frio ao ouvir qualquer coisa relacionada à Internet, alguns poucos visionários usam a grande rede para escutar atentamente o que dizem os fãs e, assim, traçar estratégias para promover filmes de maneira diferente. O caso clássico de produção minúscula que ganhou fama mundial por causa do boca-a-boca favorável na Web foi o de “A Bruxa de Blair” (1999). A New Line, mesmo estúdio que domou os fãs rebeldes da trilogia “O Senhor dos Anéis” mandando-os para visitas aos sets de filmagens, fez coisa parecida com a aventura “Serpentes a Bordo” (Snakes on a Plane, EUA, 2006).

O filme nasceu como um projeto de orçamento modesto, conduzido com rédeas curtas pelo estúdio. Trocou de diretor ainda na fase de pré-produção, teve o roteiro mexido por pelo menos quatro diferentes escritores, e caminhava para uma carreira quase anônima (com provável lançamento direto em DVD) se não houvesse chamado a atenção de cinéfilos jovens que freqüentam fóruns de sites de cinema. Estas listas de discussão on-line geraram uma impressionante onda espontânea de atenção sobre o filme. Um dos fãs mais afoitos chegou a criar uma paródia musical, com uma frase gritada por um imitador de Samuel L. Jackson, astro do longa. A canção virou hit instantâneo na Web.

Toda esta publicidade gratuita não passou despercebida à New Line. Em atitude incomum, a empresa decidiu fazer diversas modificações no filme, aceitando todas as mudanças sugeridas pelos internautas. Para começar, substituiu o título final pelo antigo nome de trabalho (ficou “Snakes on a Plane”, simples e direto, e saiu o misterioso e insípido “Pacific Air Flight 121”). Também liberou verba para que, seis meses após a conclusão das filmagens, o diretor David R. Ellis voltasse aos sets por cinco dias, de forma a acrescentar cenas com mais sexo, violência e humor. Por fim, mandou filmar uma seqüência em que Samuel L. Jackson gritava a frase que havia virado sucesso na paródia que circulava pela Internet: “Quero essas cobras filhas da p… fora dessa p… de avião!”.

Talvez este seja o primeiro caso em que os fãs de uma produção tenham atuado como co-produtores informais, mas eles obviamente não estão creditados no longa-metragem. De qualquer forma, a história dos bastidores da produção é bem mais curiosa do que o filme em si. “Serpentes a Bordo” não passa de uma aventura comum, despretensiosa, com uma ou outra tirada de humor ocasional, personagens ocos e estereotipados, além de intermináveis, exageradas e muitas vezes implausíveis seqüências de ação. Em certos momentos, o espectador tem a sensação de estar numa montanha-russa que não acaba nunca, tamanha a gritaria que sai da tela sem terminar.

O enredo foi construído com um fiapo de trama: um mafioso havaiano liberta uma carga de 450 cobras venenosas dentro de um vôo Honolulu-Los Angeles, com a intenção de matar a testemunha (Nathan Philips) que pode mandá-lo para a cadeia. O jovem surfista o viu eliminando uma pessoa e está sendo escoltado para os Estados Unidos por um agente do FBI (Jackson). Quase todo o longa-metragem se passa dentro do avião, ambiente claustrofóbico sempre eficiente para thrillers medianos (“Plano de Vôo” e “Vôo Noturno”, ambos de 2005, fazem a mesma coisa).

Apesar disso, o diretor David R. Ellis prefere distância do formato thriller, investindo em uma aventura simples, direta como o título, sem perder tempo construindo um clima de tensão que poderia ajudar muito ao filme. O cineasta até tenta gastar os primeiros 30 minutos apresentando os personagens que sobem a bordo da aeronave azarada, mas infelizmente eles são rascunhados apressadamente e construídos a partir de estereótipos (a dondoca que embarca com um cão, a aeromoça prestes a sair de férias, o rapper famoso que não gosta de ser tocado por anônimos, o sujeito recém-casado que tem medo de voar). Pior ainda: as características pessoais de cada um não terão nenhuma importância a partir do momento em que as cobras começarem a atacar.

Para completar, os roteiristas não tiveram puder em ancorar a ação num fato implausível: as cobras atacam os passageiros como cães enfurecidos, fato explicado de modo canhestro pelo terrorista responsável pelo ataque (“colocamos feromônios no sistema de ventilação da aeronave”). Claro que nada disso seria importante caso o filme fosse sedutor e tivesse o clima frenético das melhores aventuras. Infelizmente, não é o caso; as seqüências de ação abusam de ângulos absurdos (há inúmeros momentos de câmera subjetiva mostrando a visão das cobras!) e, no fundo, se resumem a mostrar os répteis atacando passageiros, enquanto outros fogem.

De certa forma, “Serpentes a Bordo” não passa de uma variação de filmes de horror adolescentes como a série “Sexta-feira 13”: após a apresentação dos personagens, eles vão sendo eliminados um a um, geralmente em cenas que tentam provocar algum humor a partir de situações de violência pop. O primeiro ataque, por exemplo, acontece dentro de um banheiro do avião e vitima um casal que transa em pleno vôo (impossível não lembrar do primeiro “Pânico”, de Wes Craven, que estabelecia a seguinte regra para este tipo de filme: “qualquer casal que faz sexo será morto pelo assassino”).

Por fim, David R. Ellis desperdiça uma ótima idéia no final do longa-metragem, quando o avião está prestes a pousar, e encerrar o filme de modo abrupto, rápido demais, sem aproveitar a situação dramática criada pelo roteiro para gerar uma atmosfera de angústia e tensão. Aliás, a palavra “atmosfera” resume tudo o que falta em “Serpentes a Bordo”. Ou seja, é um filme que narra a história direitinho, indo do ponto A ao ponto B, e daí para o C, mas de maneira burocrática e previsível. Mal comparando, é mais ou menos como feijão sem tempero: a gente sabe que poderia ser gostoso, mas como foi cozinhado errado não dá muito prazer.

O DVD nacional, da Playarte, é simples. A imagem respeita o formato original (widescreen), tem bom áudio (Dolby Digital 5.1) e conta com making of e cenas deletadas.

– Serpentes a Bordo (Snakes on a Plane, EUA, 2006)
Direção: David R. Ellis
Elenco: Samuel L. Jackson, Julianna Margulies, Nathan Philips, Rachel Blanchard
Duração: 105 minutos

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