Sétima Profecia, A

15/11/2004 | Categoria: Críticas

Suspense sobrenatural parte de boa premissa e tem belo design de som, mas furos no roteiro comprometem resultado

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★½☆

Filmes de suspense sobrenatural sobre profecias bíblicas costumam ter público cativo. Por isso, “A Sétima Profecia” (The Seventh Sign, EUA, 1988) mirou nas pessoas que curtem produções antigas desta linhagem, como “A Profecia”, dos anos 1970. O cineasta Carl Schultz tinha até mesmo uma estrela ascendente comprometida com o elenco, Demi Moore (antes do megasucesso de “Ghost” e de virar marombeira). Apesar disso, e de ter um ponto de partida promissor e intrigante, ele não conseguiu cumprir inteiramente a promessa, fazendo um filme irregular.

A primeira meia hora de “A Sétima Profecia” é realmente fascinante. A seqüência de abertura chama particularmente a atenção. Um homem desconhecido caminha no meio de uma aldeia de pescadores do Haiti. Ele chega à beira do mar, quebra um selo de cerâmica com aparência antiga e sai caminhando. Um garoto que observa a cena, curioso, percebe que em seguida vários peixes mortos começam a boiar no mar. O guri caminha até lá, pega um dos peixes e sofre uma queimadura instantânea. Os peixes estão mortos. Foram cozidos em pleno mar. É a primeira de sete profecias, previstas no Livro do Apocalipse, para o fim do mundo.

Há um corte e passamos a conviver com a família Quinn, um casal jovem típico da classe média dos EUA. Abby (Moore) está grávida. É uma gravidez de risco, levando em consideração que ela passou por um traumático aborto pouco tempo antes e chegou a tentar o suicídio por isso. O marido, Russell (Michael Biehn), é um advogado que tenta suspender a sentença de morte de um cliente responsável pelo assassinato dos próprios pais. O caso lhe deixa um tanto distante da mulher. Não é preciso ser gênio para descobrir que o casal pode desempenhar, sem saber, um papel central no Apocalipse que está por vir.

O cineasta Carl Schultz faz um trabalho razoável com o roteiro de Clifford e Ellen Green. O texto, evidentemente, foi escrito por pessoas que conhecem a fundo a mitologia dos hebreus, pois utiliza várias lendas verdadeiras para enriquecer personagens fascinantes, como o padre Lucci (Peter Friedman), um observador nomeado pelo Vaticano para descobrir se os sinais do Apocalipse estão realmente ocorrendo ou se eles não passam se fenômenos naturais perfeitamente explicáveis.

A escalação do ator alemão Jürgen Prochnow para o papel de David Bannon, o estranho que aparentemente detona as profecias, quebrando selos antigos, também é uma boa escolha. O rosto angular e a fisionomia dura garantem a permanência do mistério: quem é este homem? O que ele deseja, indo se hospedar na casa de Abby e Russell? E por que parece tão solícito e amável com a garota, quando está na verdade condenando bilhões de pessoas à morte?

Há respostas coerentes para estas perguntas, mas à medida que o filme se aproxima do clímax, o roteiro sai do controle dos criadores e desemboca em um final aguado, piegas e previsível, além de absolutamente inexplicável. Na verdade, os roteiristas foram vítimas de uma maldição antiga: criaram personagens secundários (Lucci e Bannon) infinitamente mais complexos e interessantes do que o casal protagonista. Russell, em particular, não passa de um bobo.

Por outro lado, o longa-metragem possui uma cuidadosa edição de som e uma trilha sonora planejada nos mínimos detalhes para enriquecer a narrativa. Observe, por exemplo, como o compositor Jack Nietzche usa coros angelicais para sublinhas as aparições do estranho que lança as profecias, indicando sutilmente sua natureza sobrenatural. Perceba como o padre Lucci sempre aparece acompanhado de sons estranhos, dissonantes, por vezes ameaçadores. Quanto a Abby, não raro o surgimento em cena da garota traz consigo o canto (quase imperceptível) de pássaros. Tudo isso tem significado narrativo. Pena que o roteiro desperdice tudo isso em uma fórmula gasta. 

Por causa desses problemas, “A Sétima Profecia” foi relegado ao circuito de filmes B e jamais conseguiu atingir o status de cult como a série do Anti-Cristo tramada por Richard Donner. Ainda assim, que gostou de “A Profecia” pode se divertir vendo este filme. Em DVD, contudo, ele só existe na Região 1 (EUA), e em edição sem extras.

– A Sétima Profecia (The Seventh Sign, EUA, 1988)
Direção: Carl Schultz
Elenco: Demi Moore, Michael Biehn, Jürgen Prochnow, Peter Friedman
Duração: 97 minutos

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