Sétima Vítima, A

03/03/2005 | Categoria: Críticas

Filme espanhol dá sustos ao investir em atmosfera assustadora, mas esquece um pouco do roteiro

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★½☆☆

Uma mistura de filmes de casas mal-assombradas com histórias de serial killers, feita com capricho especial no visual estilizado. Assim pode ser definido o filme espanhol “A Sétima Vítima” (Darkness, Espanha, 2002). O longa-metragem do diretor Jaume Balagueró, um dos expoentes do circuito europeu dedicado ao gênero fantástico, chega ao Brasil com dois anos de atraso, para a delícia dos fãs do terror B praticado ativamente, em pleno século XXI, nas terras do Velho Continente. É um filme sem muito brilho, mas envolvente, que deve ser visto muito mais como um exercício de estilo do que como obra realista.

“A Sétima Vítima” foi bastante criticado pela crítica tradicional, tanto na Espanha quanto fora do continente europeu. Por outro lado, fez bastante sucesso nos circuitos de festivais dedicados ao gênero fantástico, e tornou-se título cult entre os grandes fãs de produções de terror B. A Espanha, para quem não sabe, vem se solidificando como um dos países mais prolíficos e com mercado consumidor mais ativo, ao lado do Japão, para filmes desse gênero. Os fanáticos pelo estilo ajudaram a criar uma aura cult em torno de “Darkness”, embora a maior parte dos cinéfilos comuns desconheça esse tipo de boca-a-boca.

À primeira vista, a badalação parece coisa de uma subcultura desconectada com a realidade mesmo. O filme dá sustos desde o primeiro fotograma, incluindo flashbacks cheios de imagens sinistras, ruídos de crianças chorando e coisas parecidas durante os créditos. Após poucos minutos de projeção, já é possível perceber qual o objetivo de Balagueró: investir na criação de uma atmosfera assustadora, para manter o espectador com os nervos em alerta durante toda a projeção. Esse feito ele consegue.

O longa inicia com a mudança de uma família norte-americana para uma casa isolada, no campo, nos arredores de Barcelona. Regina (Anna Paquin, de “X-Men”), a filha mais velha, logo começa a notar fatos estranhos relacionados à mansão. Ela vê um velho rondando a casa algumas vezes. Fica sabendo que o irmão mais novo, Paul (Stephan Enquist), vê fantasmas de crianças caminhando pela casa. E ainda percebe que o pai, Mark (Iain Glenn), apresenta mudanças súbitas de comportamento.

Quando começa a investigar o que ocorre, com a ajuda do namorado espanhol, Carlos (Fele Martínez), ela descobre alguns fatos perturbadores. Aparentemente, a residência gótica foi construída para ser o local de um culto satânico, quatro décadas antes. Ela ainda fica sabendo que um assassino serial raptou e assassinou algumas crianças, na mesma época, pelas redondezas. E os corpos nunca foram encontrados.

Parte do filme é uma história de detetive, com Regina e Carlos investigando os fatos do passado. Está exatamente nessas cenas o ponto fraco do filme. O roteiro tem falhas evidentes, deixa muitas perguntas sem resposta e ainda recorre a clichês absurdos dos filmes de terror banais. Em determinado momento, por exemplo, a garota insiste em permanecer em determinado local, sozinha, de livre e espontânea vontade, mesmo sabendo que está sujeita a aparições bastante desagradáveis. Um pouco mais de suor dos roteiristas e uma situação mais verossímil poderia ter sido criada para justificar o isolamento da personagem.

A outra parte é um filme de terror envolvente, com sustos bem construídos, à base de uma fotografia estilizada que usa cores saturadas e faz um jogo interessante entre luz e sombras (cortesia de Xavi Gimenez). “A Sétima Vítima” tem uma influência palpável na nova geração de diretores de terror japoneses, que privilegiam a construção de uma atmosfera de suspense, muitas vezes deixando de lado a preocupação com um enredo realista, que faça sentido. Há um dedo do cineasta italiano Dario Argento nessa prática. “Darkness” pode agradar bastante aos fãs desse tipo de filme.

Por outro lado, o desequilíbrio entre estilo visual, clima gótico e texto é muito evidente. A sensação que fica, ao final da projeção, é que Jaume Balagueró dedicou toda a atenção a construir bem as cenas de sustos, escrevendo às pressas aquelas que deveriam explicar e manter a coerência do enredo. De certa forma, é palpável a vontado do diretor em fazer um filme simples, acessível ao mercado internacional. Daí a presença da atriz Anna Paquin e o fato de o filme ser praticamente todo falado em inglês. Ao tentar seguir os passos de Alejandro Amenábar e rodar sua própria variação de “Os Outros”, Balagueró só conseguiu agradar à platéia de sempre.

– A Sétima Vítima (Darkness, Espanha, 2002)
Direção: Jaume Balagueró
Elenco: Anna Paquin, Lena Olina, Iain Glenn, Fele Martínez
Duração: 102 minutos

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