Seven

01/01/2005 | Categoria: Críticas

Obra-prima de David Fincher relata investigação intrincada, amarrando roteiro e composição de personagens brilhantes

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★★

Quando “Clube da Luta” foi lançado, em 1999, muita gente já via o cineasta David Fincher como um dos mais respeitados diretores contemporâneos. A violência verborrágica do filme provocou tanta polêmica que, de certa forma, acabou jogando na sombra o trabalho mais bem acabado do diretor. Pura injustiça. “Seven – Os Sete Pecados Capitais” (Seven, EUA, 1995) é um dos mais interessantes thrillers de suspense dos últimos dez anos e, de quebra, possui talvez o melhor terceiro ato (o final) de um filme dos anos 1990. Isso é suficiente para colocar David Fincher na linha de frente dos autores surgidos nessa década.

O cineasta não gosta de ser chamado de autor. Fincher costuma afirmar que dirige filmes de estúdio, tentando apenas escolhê-los de forma coerente com seu pensamento. Sendo assim, é certo dizer que Fincher não é um cineasta autoral, não no sentido de Woody Allen ou Pedro Almodóvar. Mas a noção de “autor”, da maneira que Truffaut a cunhou, em 1956, é exatamente essa: um cineasta capaz de imprimir uma marca pessoal a projetos desenvolvidos por terceiros. O autor seria, então, um diretor cujas obras sempre exibem uma característica, uma temática, um estilo em comum. David Fincher tem tudo isso. E “Seven”, não obstante seja apenas o segundo longa que dirigiu (depois de “Alien 3”), parece ser o mais perfeito filme que ele fez até hoje.

Para começar, o roteiro do longa, escrito por Andrew Kevin Walker (que faz a vítima da “gula”), é brilhante. O enredo narra uma investigação conduzida por dois policiais de Nova York, William Sommerset (Morgan Freeman) e David Mills (Brad Pitt). Eles precisam caçar um assassino em série que mata de acordo com os sete pecados capitais. Cada crime, a rigor, é uma verdadeira obra de arte, planejado e executado minuciosamente para levar a polícia até o crime seguinte.

Embora a construção desses dois personagens seja arquetípica (duplas de detetives, por tradição, quase sempre vive às turras no cinema), favorece muito o impacto do filme sobre a platéia. O impaciente e intelectualmente limitado Mills é assim construído para criar uma identificação com o espectador; como ele, nós também analisamos as pistas e não conseguimos desvendar os significados. Já Sommerset sempre está um passo à frente e, com base em raciocínio e conhecimento (“a cultura purifica o homem”, parece dizer Fincher), vai descobrindo essas pistas e levando a investigação em frente. Ele compreende a mente do serial killer John Doe. Como o criminoso, Sommerset acredita que a sociedade contemporânea está à beira de um colapso.

O detetive e o assassino podem ser vistos, numa interpretação livre, como duas facetas de um mesmo personagem (algo que o diretor elaborou melhor em “Clube da Luta”). Os dois esclarecem a temática presente em toda a obra de Fincher: a decrepitude da civilização, a solidão do homem contemporâneo, a decadência do mundo urbano em que ele vive. Em “Seven”, o cineasta traduz esse tema, visualmente, de uma maneira inteligente. Em Nova York, que está quase viva no filme, sempre chove. A algazarra da cidade que nunca dorme jamais ganhou um retrato tão decadente, tão desolador. As ruas estão sempre superlotadas, o tráfego lento. Toda vez em que Sommerset vai às ruas, existe uma sirene (ambulâncias ou carros da polícia) apitando. O recado é claro: a civilização está doente.

Ocorre que Mills não percebe dessa maneira. Ele é ambicioso, embora honesto e sincero, e deseja resolver o caso, para dar o pontapé inicial numa carreira que parece promissora. Assim, o trabalho investigativo de Sommerset, o detetive mais velho, cuja argúcia se equipara à do assassino, tem a função de traduzir a capacidade imaginativa fora do comum do assassino, para o espectador. Já Mills, o típico sujeito que tem mais músculos do que massa cinzenta e não vê a hora de partir para a ação, personifica a platéia dentro do filme.

A tensão entre esses dois personagens domina todo o primeiro ato do longa. O abismo cultural que existe entre Mills e Sommerset não ocorre, contudo, entre este último e o assassino. Através de uma montagem eficiente de algumas cenas em seqüência, logo na abertura, Fincher alinha Sommerset ao criminoso. O diretor mostra à platéia a natureza metódica tanto do protagonista (o detetive organiza metodicamente o material de trabalho, antes de dormir) quanto do assassino (a preparação de um crime, durante a fantástica apresentação dos créditos).

Inconscientemente, criamos uma ligação entre o criminoso e o detetive experiente, um homem que vai se aposentar dentro de sete dias. O número sete, perceba, aparece na narrativa com insistência. Espectadores realmente atentos vão perceber inclusive que o metrônomo de Sommerset (o aparelho que ele usa para dormir) balança exatas sete vezes, sempre que é mostrado.

A soma da temática com a construção dos personagens apenas reforça a inteligência do roteiro, que elabora uma trama intrincada, mas fácil de seguir. A cada cena, uma descoberta dos detetives leva a outra pista, e assim por diante. A grande sacada, contudo, é que a platéia quase nunca consegue prever de onde virá a pista seguinte, e até onde ela levará. Em geral, filmes de suspense possuem uma linha narrativa muito semelhante entre si, e os espectadores mais atentos e com maior bagagem cinematográfica sempre percebem o que vai acontecer, com uma ou duas cenas de antecedência.

Em “Seven”, isso não acontece. Quando o filme se aproxima do final, por exemplo, Fincher constrói uma seqüência brilhante, um diálogo entre três personagens, de quase dez minutos, em que a platéia compartilha com dois deles a ignorância sobre o que virá a seguir. Fincher segue a lição de Hitchcock e estica a tensão ao máximo. É a ponte perfeita para um dos finais mais originais já realizados em Hollywood.

Depois do lançamento do disco duplo abarrotado de material de bastidores sobre “Clube da Luta”, os fãs de Fincher não esconderam a impaciência. Todo mundo esperava por um DVD que fizesse jus ao trabalho primoroso que era “Seven”. O disco, duplo, capricha no visual de rascunho, inspirado no trabalho estupendo que a equipe do filme criou para a biblioteca de John Doe. O filme, por exemplo, vem embalado numa caixinha de papelão que imita o trabalho gráfico das anotações alucinadas espalhadas pelo apartamento do serial killer. A embalagem brasileira do disco é um pouco mais modesta, mas de bom nível.

O conteúdo do DVD nacional tem quase tudo que está no importado, a começar pelos comentários. Ansioso por explicar ao público o monumental trabalho de recriação do ambiente gótico e decadente do filme, Fincher caprichou na elaboração das trilhas de áudio. São quatro, divididas por tema. No primeiro comentário, “As Estrelas”, ele mesmo comparece, com os atores Brad Pitt e Morgan Freeman, explicando o processo de composição dos personagens e relembrando detalhes das filmagens. O segundo, “A História”, tem Fincher, o roteirista Andrew Kevin Walker e Richard Francis-Bruce, o professor de Estética Richard Dyer (um dos pesquisadores de cinema mais respeitados do mundo) e o produtor Michael DeLucca. Todos falam sobre o enredo e os temas que o trabalho deseja abordar.

Em seguida, há dois comentários mais técnicos. “O Visual” mostra Fincher, Dyer e Francis-Bruce (editor do filme) unindo-se ao diretor de fotografia Darius Khondji e ao designer de produção Arthur Max. Eles debatem sobre a escolha das imagens e cenários e refletem sobre a opção deliberada de um visual mais rústico, que lembrasse a estética dos filmes noir em preto-e-branco. Por fim, “O Som” mostra Fincher e Dyer discutindo com o designer de som, Ren Klyce, e com o compositor de trilha sonora, Howard Shore, sobre o minucioso trabalho de recriação dos sons caóticos e urbanos que se ouve ao fundo.

O segundo disco vai longe nas minúcias. A abertura do filme é dissecada em sistema multiângulo, em que o espectador pode alternar entre três imagens (os storyboards, a versão primitiva e a versão final) e seis tipos de som diferentes, incluindo dois comentários técnicos. Há seis cenas excluídas, além de galerias de fotos e desenhos de produção. O mais interessante, porém, é assistir aos dois finais alternativos. O primeiro apresenta uma montagem diferente do original; o segundo, que não chegou a ser filmado e é mostrado através de storyboards animados, mostra como o estúdio queria que o filme terminasse de fato (a diferença é radical, acredite!).

Há, ainda, vários pequenos documentários (quase 40 minutos) que explicam o trabalho minucioso de criação do apartamento de John Doe, a locação mais interessante do filme. Dois outros documentários falam sobre a transposição da película para o formato digital, o que exigiu um tratamento das cores de cada cena, uma por uma, no computador. Por fim, um documentário de bastidores curto (8 minutos) com entrevistas dos atores. Infelizmente, poucos desses extras possuem legendas em português. Mas tudo isso é fundamental para compreender todas as minúcias desses que é um dos filmes mais perfeitos e apaixonantes que Hollywood ousou produzir nos últimos anos.

– Seven (Seven, EUA, 1995)
Direção: David Fincher
Elenco: Morgan Freeman, Brad Pitt, Gwyneth Paltrow, Kevin Spacey
Duração: 140 minutos

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