Sex and the City – O Filme

22/03/2009 | Categoria: Críticas

Público-alvo exclusivamente feminino não é problema, mas direção hesitante e roteiro desequilibrado são

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★½☆☆

Explicar o sucesso do seriado “Sex and the City” (1998-2004) é tarefa relativamente fácil. O programa ocupou um nicho que jamais foi bem preenchido em qualquer meio audiovisual, em qualquer época. Ao proporcionar uma radiografia mais ou menos fiel do comportamento feminino na virada do milênio – um comportamento caracterizado por equilíbrio delicado entre o hedonismo e o romantismo clássico, entre o sexo casual e a eterna busca pelo príncipe encantado – a série atingiu em cheio as expectativas de um grupo poderoso na hierarquia de espectadores de cinema: as mulheres cultas de classe alta. O vazio deixado pelo final do programa abriu espaço para “Sex and the City – O Filme” (EUA, 2008).

A recepção oferecida por público e crítica a “Sex and the City” expõe o estado de coisas contemporâneo com rara franqueza. Nos Estados Unidos, a película liderou as bilheterias e faturou, apenas nos primeiros três dias de exibição, uma soma (US$ 56 milhões) próxima do total que o estúdio HBO, responsável pela produção, estimava amealhar durante todo o período em cartaz. Foi a estréia mais lucrativa de uma comédia romântica em todos os tempos. Enquanto isso, a crítica permaneceu fria, quase sempre montada em dois argumentos equivocados: 1) o filme é incompreensível para os não-iniciados no programa, e 2) não possui qualquer interesse para o público masculino, sendo direcionado quase que exclusivamente para mulheres.

O primeiro argumento não procede. Quem nunca assistiu às aventuras televisivas de Carrie (Sarah Jessica Parker), Samantha (Kim Cattrall), Charlotte (Kristin Davis) e Miranda (Cynthia Nixon) recebe as informações essenciais sobre o quarteto num longo prólogo que situa a ação dramática um ano após o final da série, e dá informações básicas a respeito da vida de cada personagem. Não há qualquer dificuldade para entender as motivações e a personalidade de cada garota, muito embora os fãs de carteirinha certamente poderão se deliciar com piadas internas que passam despercebidas para o restante dos mortais (eu incluído). Já o segundo argumento é 100% correto, mas não há nada de errado com um filme cujo público-alvo é formado por mulheres. Nenhum longa-metragem torna-se bom ou ruim por causa disso.

O que temos aqui, portanto, é mais um exemplo claro do descompasso de opinião entre público e crítica. Um descompasso que também é fácil de compreender, já que público e crítica buscam elementos diferentes no mesmo filme. A vitoriosa bilheteria obtida por “Sex and the City” comprova, mais uma vez, que o mercado audiovisual não soube preencher o vazio aberto pela descontinuidade do seriado, e que as mulheres adultas de classe alta permanecem sem se reconhecer na produção dos grandes estúdios (TV e cinema). Enquanto isso, para avaliar com propriedade os méritos cinematográficos da produção, os críticos deveriam deixar de lado os preconceitos e ater-se exclusivamente aos aspectos técnicos, narrativos e dramatúrgicos da obra. Olhando desta perspectiva, aí sim, “Sex and the City” revela graves defeitos de concepção e realização.

Para começo de conversa, é importante observar a falta de experiência em cinema da equipe criativa, especialmente do roteirista e diretor Michael Patrick King. Ele tem vasto currículo televisivo, mas nenhuma atividade na tela grande, e isto fica evidente desde os primeiros segundos de projeção, já na direção de arte asséptica, com pinta de telenovela. “Sex and the City” tem, também, sérios problemas de montagem – diversas cenas são esticadas em excesso, com os longuíssimos trechos musicais, elevando a duração para inacreditáveis 148 minutos, uma metragem proibitiva para uma comédia leve de situação. Para piorar, o roteiro ignora regras básicas de escrita para cinema, como a divisão desequilibrada em três atos (o primeiro, longo demais, corresponde à metade do filme, enquanto o último cruza a tela como Michael Schumacher nos bons tempos) e uma linha narrativa que mantenha a ação dramática em permanente evolução.

Consciente de que boa parte do público, cheio de saudade, seria atraída pela simples oportunidade de reencontrar personagens queridos após alguns anos de ausência, Patrick King não se esforçou para injetar algo novo na receita do seriado. Sem nenhum traço de criatividade, “Sex and the City” usa estrutura narrativa convencional (trama principal centrada em Carrie, uma subtrama sem importância para cada amiga, personagem nova interpretada por Jennifer Hudson) e conta uma história aos trancos e barrancos. O eixo principal acompanha os preparativos para o casamento de Carrie com Mr. Big (Chris Noth), mas os acontecimentos vão se alongando mais e mais, pontuado por piadas de valor duvidoso (o cachorro ninfomaníaco de Samantha) que apelam até para a escatologia barata (a diarréia de Charlotte no México).

De qualquer modo, os órfãos da série adoram cada minuto, e há ocasionais bons momentos em que as mulheres moderninhas se reconhecem em cada centímetro de tela, como os três dias que Carrie leva para limpar o armário de roupas (experimentando cada vestido, enquanto as amigas inseparáveis dão notas para eles) e a paixão da assistente da colunista por bolsas Louis Vutton. O tradicional desfile interminável de figurinos chiques bate ponto com vigor, como era de se esperar (a joalheria H. Stern emprestou 320 jóias usadas pelas meninas nos 148 minutos do filme), e ameaça transformar tudo numa mega-propaganda de roupas de grife, o que pode soar quase como ofensa para espectadores menos hedonistas, mas tudo bem. Os românticos de plantão sempre podem sonhar com as paisagens calorosas do Central Park.

O DVD da Playarte traz o filme com razão de aspecto original (widescreen anamórfica) e áudio em seis canais (Dolby Digital 5.1).

– Sex and the City – O Filme (EUA, 2008)
Direção: Michael Patrick King
Elenco: Sarah Jessica Parker, Kim Cattrall, Kristin Davis, Cynthia Nixon
Duração: 148 minutos

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