Sexo, Amor e Traição

16/05/2004 | Categoria: Críticas

Merchandising obsceno é a cereja de um bolo que inclui roteiro fraco, atuações sem sal e direção inexistente

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ½☆☆☆☆

Alguns produtores de cinema brasileiros parecem ter descoberto uma maneira mais fácil de conquistar altas bilheterias do que produzindo bons filmes. É essa a impressão que fica após uma sessão em DVD de “Sexo, Amor e Traição” (Brasil, 2003), a estréia do diretor de novelas Jorge Fernando no mundo da sétima arte. O longa-metragem tinha tudo para dar certo: orçamento generoso, elenco competente e até um roteiro-base já previamente testado e aprovado (pois se trata de uma refilmagem da comédia mexicana “Sexo, Pudor e Lágrimas”, que teve grande repercussão no país de origem).

O processo de encaixar o “clima carioca” no filme, contudo, acabou gerando um fracasso em todos os sentidos. “Sexo, Amor e Traição” é uma comédia simplesmente mal feita. É pouco inspirada, tem personagens profundos como um pires, interpretações equivocadas e, a maior aberração de todas, uma maneira simplesmente medonha, pornográfica mesmo, de fazer merchandising. Prepare-se: você vai ver closes pavorosos de telefones celulares, latas de cerveja e catálogos de um grande magazine. Tudo com uma sutileza de elefante em loja de cristal.

Apenas esse detalhe seria suficiente para qualquer ser humano com um pouco de senso crítico ficar irritado com o filme, mas ele é meramente uma cereja (às avessas) no bolo. A rigor, “Sexo, Amor e Traição” não passa de uma novela da Globo exibida na telona, o que é profundamente lamentável. Guel Arraes e José Alvarenga Jr. (diretores de “Lisbela e o Prisioneiro” e “Os Normais – O Filme”) devem estar dando gargalhadas, depois de terem sido acusados de filmar cinema como se fosse televisão (ou vice-versa). Os dois fizeram filmes, no mínimo, engraçados. Já o histérico Jorge Fernando dá uma aula de como jamais se deve dirigir uma película.

O melhor exemplo está no próprio merchandising. Na telinha da TV, fazer um plano de um telefone celular incomoda, mas a dimensão obscena daquele objeto preenchendo uma tela de cinema é constrangedora – e esse tipo de sutileza aparece a cada 15 minutos. Em outra cena, três personagens decidem tomar cerveja e pousam as latinhas em cima da mesa exatamente na mesma posição: com o rótulo virado de frente para a câmera. O espectador, bombardeado com esse tipo de indecência, vai ficando mais e mais chateado.

No meio desse comercial gigante, há um esboço de trama. São dois casais em crise que se vêem mergulhados em triângulos amorosos involuntários. Entre Ana (Malu Mader) e Carlos (Murilo Benício) aparece Tomás (Fábio Assunção). Já Cláudia (Heloísa Perrissé) se põe entre Miguel (Caco Ciocler) e Andréa (Alessandra Negrini). No meio da confusão, os homens se vêem dividindo um apartamento e as mulheres, outro. Detalhe: as duas varandas ficam de frente uma para a outra. Você já viu isso antes em “O Normal – O Filme”.

Da turma global, safam-se Malu Mader, em interpretação apenas regular, e Fábio Assunção, a melhor coisa do filme disparado, com uma atuação que tem a mistura exata de energia e carisma. O resto é o resto – e isso inclui momentos constrangedores, como uma participação especial afetada e sem graça de Marcelo Antonny, como o cirurgião plástico gay Nestor. Betty Faria, por sua vez, aparece sem conseguir fazer uma expressão facial sequer, por causa das plásticas. Ou seja, não consegue atuar.

A culpa de tanta ruindade, em parte, é do desenvolvimento equivocado dos personagens. Miguel, por exemplo, é um idiota ciumento e machista, o que faz o público torcer para que Andréa lhe dê um pé na bunda definitivo. Já Carlos é tão insosso que não inspira pena, simpatia ou qualquer sentimento, positivo ou negativo. O ambiente inverossímil onde os seis se encontram ajuda a realçar a artificialidade do filme. A direção de arte montou dois apartamentos, onde se passam 80% do filme, enormes e chiques demais para uma área de classe média do Rio de Janeiro.

Outra demonstração de incompetência está nas elipses, os momentos em que o cineasta deve dar à platéia a ilusão de tempo transcorrido. Sem o menor pudor, Jorge Fernando utiliza imagens estilo “cartão postal” do Rio de Janeiro, como um pôr-do-sol atrás do Cristo Redentor que comunica a chegada da noite. Bonito, vazio e clichê, como o filme inteiro. Essa sim, é uma demonstração inequívoca de como a estética de novela de Globo, quando transposta diretamente para o cinema, pode virar um desastre monumental.

O pior de tudo é que, pelo visto, há público no Brasil para essa pornografia de butique. “Sexo, Amor e Traição” alinha-se a vários outros filmes nacionais que, nos últimos anos, tiveram desempenhos pelo menos medianos nas bilheterias, como “Amores Possíveis”, “Deus É Brasileiro”, “Bossa Nova” e “A Taça do Mundo É Nossa”: uma celebração de um Brasil de plástico para turista ver, com roteiro vagabundo, atuações empostadas e direção inexistente, tudo emoldurado pelos filtros hipercoloridos que deixam paisagens e cenários com ar artificial.

– Sexo, Amor e Traição (Brasil, 2003)
Direção: Jorge Fernando
Elenco: Malu Mader, Murilo Benício, Fábio Assunção, Alessandra Negrini
Duração: 98 minutos

| Mais


Assine os feeds dos comentários deste texto


3 comentários
Comente! »