Sexto Dia, O

07/09/2003 | Categoria: Críticas

Conseqüências éticas da clonagem humana rendem thriller insípido, dirigido e interpretado burocraticamente

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★½☆☆

Arnold Schwarzenegger dispensa apresentações. Já foi dono de um dos maiores salários do cinema, a bagatela de US$ 20 milhões por filme, até o meio da década passada. Mas desde o fiasco de “Batman e Robin” sua carreira vem caminhando ralo abaixo. Ele tentou uma reviravolta com o fraco “Fim dos Dias” e depois voltou à carga com “O Sexto Dia” (The Sixth Day, EUA, 2000). Não adiantou. Para completar, o austríaco se viu envolvido numa denúncia de assédio sexual. Nada como uma eleião para virar o jogo, mas, em termos de cinema, o futuro de Schwarzenegger não dá mostrar de ser brilhante.

O problema é que o tempo dos homens invencíveis no cinema já passou. Não é à toa que o outro herói dos músculos de aço, Sylvester Stallone, está com o prestígio mais abalado do que a credibilidade de Antônio Carlos Magalhães. Hoje em dia, os queridinhos do público cinematográfico não são gigantes hipermusculosos, mas atores com rostos bonitos e corpo em forma – vide Tom Cruise e Brad Pitt. Schwarzenegger até que resistiu bastante, graças ao carisma tão largo quanto os bíceps, mas a idade da razão chegou. O austríaco anda perto dos 60 anos, o que não é nada bom para um astro de filme de ação.

Como aventura, “O Sexto Dia” até que emplaca uma visita à Sessão da Tarde. Tem um bando de clichês do gênero, incluindo uma perseguição de carro legal, outra de helicóptero ainda mais bacana e duas cenas de tiroteio. Tecnicamente, o filme do diretor Roger Spottiswoode (de “007 – O Amanhã Nunca Morre”) é perfeito. Mas e daí?

A verdade é que o cineasta não tem – e provavelmente nunca vai ter – uma assinatura. É um diretor de aluguel capaz de terminar filmes-chiclete sem estourar prazos ou orçamentos, o que em Hollywood parece ser uma qualidade e tanto. O maior mérito dele é saber evitar com habilidade as cenas agitadas, que exigiriam agilidade do astro. Se quando era jovem Schwarzenegger caminhava feito um robô enferrujado (fãs de “O Exterminador do Futuro”, desculpem pela heresia), agora ele sequer tem fôlego para nadar por um minuto debaixo da água – lembrem-se que ele quase morreu porque insistiu em rodar a tal seqüência sem dublê.

O melhor do filme é o bom humor, apesar das piadas previsíveis. No roteiro, Schwarzenegger é Adam Gibson, piloto de helicópteros que tem uma firma minúscula, uma esposa bonita, uma filha e um casamento feliz. No dia do aniversário, volta para casa do trabalho e descobre que há outro Adam Gibson soprando as velinhas. Como o filme se passa num futuro “não muito distante”, segundo os créditos de abertura, a conclusão é que ele foi clonado.

Há um detalhe: nesse futuro, a clonagem de seres humanos é proibida por lei e somente uma empresa pode realizar o procedimento, mas apenas em animais e com autorização governamental. Nos bastidores, porém, os donos da firma fazem lobby para legalizar a clonagem humana. O personagem de Schwarzenegger desconfia que os cientistas já estão ilegalmente clonando homens e decide investigar o caso, sob pena de ver a mulher dormindo com outro (embora esse outro seja ele mesmo) para sempre.

A primeira hora do filme se dedica a apresentar personagens, estereotipá-los – o cientista ingênuo e arrependido, o magnata inescrupuloso, o herói bonzinho e altruísta, o nerd fantático por computadores que tem uma namorada virtual – e incrementar a investigação com algumas cenas de ação. O tema da clonagem, que poderia render uma discussão interessante, é mal explorado e permanece superficial durante todo o enredo. O filme engrena na meia hora final, mas termina daquele mesmo jeitinho que você imaginou nos primeiros quinze minutos. Sem surpresas. A vida – pelo menos em Hollywood – é uma rotina de lascar, não?

– O Sexto Dia (The Sixth Day, EUA, 2000).
Direção: Roger Spottiswoode
Elenco: Arnold Schwarzenegger, Robert Duvall
Duração: 91 minutos

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