Sexto Sentido, O

02/09/2004 | Categoria: Críticas

Roteiro estrutura toda a trama em uma revelação-surpresa e produz ótimo suspense

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★½

Assustador, surpreendente, original. Um dos melhores filmes de suspense sobrenatural de todos os tempos. Muitos adjetivos e expressões elogiosas, como estas, foram e são utilizadas para descrever “O Sexto Sentido” (The Sixth Sense, EUA, 1999). Mas será que elas correspondem mesmo à realidade? O filme é mesmo tudo isso? Pessoas que lidam com cinema, ou qualquer forma de arte, sabem que não existem respostas simples a questões como essas. O trabalho de M. Night Shyamalan é, com certeza, uma armadilha bem urdida para cinéfilos desavisados. Talvez não seja tão genial assim, mas ainda é um dos filmes mais interessantes da safra de 1999.

Não há dúvida de que “O Sexto Sentido” injetou sangue novo em um gênero que, na época, parecia desgastado e previsível, incapaz de apresentar novidades. De fato, a temporada de 1999/2000 foi especialmente prolífica para os fãs de filmes de terror psicológico. “A Bruxa de Blair” e “Os Outros”, só para citar dois, apareceram na mesma época. Todos apostaram em receitas mais ou menos parecidas, e se esmeraram em criar uma atmosfera capaz de manter a platéia sob tensão constante. “O Sexto Sentido” não é melhor do que esses dois, mas fez muito mais sucesso, principalmente pela inteligência de Shyamalan em apoiar o filme em uma revelação, ocorrida nos últimos 10 minutos de projeção, que coloca todo o enredo sob nova perspectiva.

Embora o nome de Bruce Willis (ator predileto de Shyamalan) venha primeiro nos créditos, o personagem central do filme é interpretado por uma criança, como a maior parte dos leitores deve saber. Haley Joel Osment é o nome do prodígio; embora ele tenha dado seqüência ao trabalho nesse filme com pelo menos outro grande papel (o menino-robô de “A.I. – Inteligência Artificial”), ainda é em “O Sexto Sentido” que está a sua interpretação mais brilhante. Osment tem os olhos oblíquos de uma criança solitária e o senso de fragilidade daqueles garotos que viram saco de pancada dos coleguinhas maiores do colégio. Por isso, está perfeito no papel de Cole Sear.

“O Sexto Sentido” vai deixar, para a história do cinema, pelo menos uma frase antológica: “Eu vejo gente morta”. Quatro palavras, ditas por um pivete de oito anos, que têm o poder de arrepiar os pêlos do braço de qualquer espectador que esteja absorvido pelo enredo. O que, aliás, não é difícil de acontecer. Cole Sear (Osment) tem oito anos e vive sozinho, acuado, com medo. A mãe dele, Lynn (Toni Collette, perfeita no papel), acredita que ele está sendo espancado pelos amiguinhos da escola, mas o garoto nega e se fecha em copas. Por isso, o caso vai parar nas mãos do psiquiatra infantil Malcolm Crowe (Willis).

Crowe é, na verdade, o personagem que abre o filme. Rico, famoso, ele volta de uma homenagem organizada pelo prefeito da Filadélfia (EUA), em uma noite feliz, e descobre que sua casa foi invadida por um antigo paciente (Donnie Whalberg, assustador) que parece ter pirado de vez. O rapaz dá um tiro na própria cabeça, mas antes acerta uma bala na barriga de Crowe. O incidente provoca conseqüências pouco agradáveis. Crowe vê a carreira desabar e o casamento com Anna (Olivia Williams) entrar em crise. Meses depois, vê em Cole Sear uma chance perfeita para se reerguer. O garoto parece ser o caso perfeito para restaurar sua confiança.

O filme de M. Night Shyamalan funciona com perfeição porque se baseia em uma idéia engenhosa, mas sobretudo simples e econômica. O roteiro é firme e coeso, progredindo sem pressa mas sem rodeios. Os cenários soturnos – uma igreja deserta, um apartamento apertado, sótãos escuros – e a arquitetura gótica da Filadélfia dão um aspecto de decadência à fotografia de Tak Fujimoto. Isso casa muito bem com o enredo. E há a surpresa final, claro, que praticamente obriga o espectador a rever o filme para compreendê-lo.

Esse foi um jogo arriscado para Shyamalan. Um roteiro mal feito poderia ter tornado a surpresa facilmente previsível (pessoas muito atentas podem descobri-la, mas não é fácil), ou o contrário; poderia deixar a trama tão intrincada que o filme ficaria pesado e incompreensível. O talento de Shyamalan evita as duas coisas e, por isso, “O Sexto Sentido” é o melhor filme do realizador, além de ser o tipo de DVD que muita gente adora ter em casa para mostrar aos amigos.

Falando em DVD, o filme possui uma edição bem interessante, que inclui algumas cenas excluídas da edição final, entrevistas com o cineasta Shyamalan e os produtores Barry Mendel e Frank Marshall (preste atenção nas dicas interessantes que eles dão a respeito do uso da cor vermelha no filme, algo que nem mesmo o mais atento analista percebe numa primeira conferida) e até mesmo um curta-metragem caseiro, que o diretor de origem indiana fez enquanto era criança. Para quem gosta do filme, um produto obrigatório.

– O Sexto Sentido (The Sixth Sense, EUA, 1999)
Direção: M. Night Shyamalan
Elenco: Bruce Willis, Haley Joel Osment, Toni Colette, Donnie Whalberg
Duração: 107 minutos

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