Shakespeare Apaixonado

19/05/2005 | Categoria: Críticas

Comédia inteligente e despretensiosa enfrenta preconceito, mas é trabalho interessante

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★½☆

Alguns filmes muito celebrados por ocasião do lançamento nos cinemas acabam, com o tempo, ganhando conotações negativas para os apreciadores. Esse fenômeno curioso aconteceu de forma especialmente forte com a comédia anglo-americana “Shakespeare Apaixonado” (Shakespeare In Love, EUA/Inglaterra, 1998). Depois de aparecer no Oscar de 1998 como azarão e conquistar a estatueta principal, além de outros seis troféus, o longa-metragem entrou para uma espécie de lista negra de cinéfilos em todo o mundo, adquirindo uma fama que não merece.

Não é fácil explicar a situação. Parte da culpa pela derrocada de “Shakespeare Apaixonado” no imaginário popular está na tática agressiva de marketing da Miramax, estúdio que ganhou muitas críticas por presentear jurados do Oscar com mimos na segunda metade da década de 1990, algo que muitos acharam essencial para a vitória de “Shakespeare Apaixonado”. Outra parte é o fato de que um celebrado filme de Steven Spielberg, o drama de guerra “O Resgate do Soldado Ryan”, principal favorito do Oscar no mesmo ano, acabou sem uma estatueta que muitos davam como certa. Como se sabe, em Hollywood a regra diz que comédias leves e despretensiosas têm um pretenso valor artístico menor do que filmes sérios e pesados, o que na verdade é uma tremenda bobagem preconceituosa.

Um exercício cinematográfico valioso, portanto, é sentar para assistir a filmes como “Shakespeare Apaixonado” despindo-se desse tipo de confusão. Quando se fez isso, é possível apreciar as muitas qualidades do delicado filme de John Madden. “Shakespeare Apaixonado” é uma engenhosa brincadeira de ficção envolvendo personagens reais na Inglaterra do século XVI. O filme parte do pressuposto de que o dramaturgo William Shakespeare (Joseph Fiennes) retirou inspiração para o clássico “Romeu e Julieta” de acontecimentos vividos por ele mesmo, no ano de 1593.

Shakespeare teria, na realidade, se apaixonado de verdade por uma dama prometida a outro homem, Lady Viola (Gwyneth Paltrow). A garota se disfarçava de homem para participar de ensaios na companhia teatral do dramaturgo, e acabou protagonizando uma grande confusão quando se enamorou do rapaz, deixando-o com uma miserável dor-de-cotovelo que ele soube transformar em inspiração para a arte que produzia. Claro que essa trama é fictícia, assim como alguns detalhes do retrato que os roteiristas Tom Stoppard e Marc Norman fazem do dramaturgo.

No filme, Shakespeare sofre de bloqueio criativo. Tem um caso com uma mulher casada e deve dinheiro a empresários, entre outros problemas de uma vida atribulada. As poucas informações históricas disponíveis sobre o escritor indicam que ele deve mesmo ter passado por coisas parecidas, mas não existe nenhuma prova de que isso seja verdade. Não importa. O filme faz uma série de inteligentes ligações entre passagens da obra do dramaturgo e situações vividas por ele, aproveitando para, no percurso, insistir no clássico tema da redenção do indivíduo através do amor.

O roteiro é, sem dúvida, o maior trunfo do longa-metragem. Toda a parte visual da película, incluindo direção de arte e figurinos (ambos premiados com o Oscar), é correta, bem como a direção de John Madden. Um ponto fraco está nas atuações do casal principal, já que tanto Gwyneth quanto Fiennes parecem apagados demais, tímidos e sem energia. Em compensação, o farto e brilhante elenco de apoio, que inclui veteranos do calibre de Geoffrey Rush (em atuação propositalmente exagerada e hilariante) e Judi Dench, esta última também vencedora de uma estatueta dourada. Conhecedores da obra de Shakespeare vão aproveitar muito melhor os detalhes, mas a trama geral é engraçada, charmosa e de leveza incontestável. Enfim, o filme é bem legal.

Já o DVD não é tanto assim. Lançado no Brasil pela Columbia e, depois, relançado pela Universal com o mesmo conteúdo, “Shakespeare Apaixonado” está em disco simples que tem, como extras, dois comentários em áudio, um com John Madden sozinho e outro com o diretor acompanhado de Rush, Dench, Paltrow, mais os atores Ben Affleck e Colin Firth, os produtores Donna Gigliotti e David Parfitt, os roteiristas Norman e Stoppard, o desenhista de produção Martin Childs, a figurinista Sandy Powell e o fotógrafo Richard Greatrex.

Um documentário de bastidores trivial (21 minutos), quatro cenas cortadas, um trailer e spots de TV completam o disco. Não há legendas em nenhum extra, o que é uma pena. Em compensação, o formato da imagem (widescreen) e a trilha de áudio original (Dolby Digital 5.1) foram preservados.

– Shakespeare Apaixonado (Shakespeare In Love, EUA/Inglaterra, 1998)
Direção: John Madden
Elenco: Joseph Fiennes, Gwyneth Paltrow, Geoffrey Rush, Judi Dench
Duração: 123 minutos

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