Sherlock Holmes

11/05/2010 | Categoria: Críticas

Guy Ritchie atualiza o lendário detetive inglês para o século XXI, fazendo-o lutar boxe e caratê e usar cabelo arrepiado

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★☆☆

O nome lendário do detetive Sherlock Holmes traz à mente a imagem inconfundível de um aristocrático senhor inglês que, sempre vestido com boné de tweed quadriculado e cachimbo, soluciona enigmas complicadíssimos usando apenas a força do intelecto e um talento inigualável para a dedução lógica. Como quase todos os grandes personagens literários de grande fama, Holmes tem sido ocasionalmente transportado para a dimensão cinematográfica. Esta é a vez de Guy Ritchie: “Sherlock Holmes” (Reino Unido, 2010) transporta o internacionalmente conhecido detetive para o século XXI, num filme meio sem senso de ridículo, mas até que divertido.

Claro, não é a primeira vez que o personagem chega às telas. Ao longo do século XX, sempre acompanhado do parceiro e ajudante Dr. Watson, Holmes teve várias encarnações cinematográficas, cada uma exalando o cheiro de sua própria época. A mais conhecida das traduções do detetive para o meio audiovisual ocorreu numa série de filmes dos anos 1940, com o ator Basil Rathbone no papel principal. Foram esses filmes que popularizaram a imagem de Sherlock Holmes como um gênio policial que circula na alta sociedade inglesa e adora chá com biscoitos. A versão de Guy Ritchie agrega ao personagem o deboche e o pendor pela ação física característicos dos filmes do século XXI. Aqui, Sherlock Holmes (Robert Downey Jr) luta boxe e caratê, circula com desenvoltura no submundo das docas londrinas e mantém uma relação sutilmente homoerótica com o igualmente inteligente e ágil Watson (Jude Law).

Guy Ritchie, que após uma estréia promissora em 1998 (“Jogos, Trapaças e Dois Canos Fumegantes”) andou derrapando na repetição (“Snatch”) e numa vida pessoal atribulada, já ensaiava um retorno à boa forma no energético e irregular “Rock’n’Rolla” (2008). “Sherlock Holmes” confirma a chama criativa acesa novamente. O filme é uma bobagem interessante, ambientada na Londres suja e esfumaçada do século XIX, mas filmada como uma aventura cômica do século XXI: diálogos mordazes cheios de duplo sentido e sugestões sexuais, trabalho de câmera hiper-ativo mas clássico (nada na linha pseudo-documental de Paul Greengrass) montagem que recorre freqüentemente à câmera lenta para expor as deduções do detetive.

A trama não importa muito. É estruturada, na verdade, como um videogame em estágios, que consistem numa série de esquetes em que Holmes precisa lutar contra o relógio e resolver enigmas (quase sempre tendo que empregar suas habilidades físicas no processo) para avançar no jogo. Há um vilão tipicamente londrino, Lorde Blackwood (Mark Strong), membro do parlamento que usa a magia negra para tentar dominar o mundo. Apesar das insinuações de uma paixão não-resolvida de Holmes por Watson – e não correspondida – cada um dos dois parceiros tem um interesse romântico; a de Holmes é uma ladra de alta classe (Rachel McAdams) que participa ativamente da história, a de Watson (Kelly Reilly) tem apenas uma cena importante (e ótima) mas é subaproveitada.

Se o enredo é um ponto fraco do trabalho, as boas atuações do elenco valorizam o filme. Downey Jr repete o desempenho vigoroso e carismático que o transformou em astro após “Homem de Ferro” (2009), dando um toque irreverente ao outrora sisudo detetive (seus cabelos arrepiados e as tiradas de humor negro trazem sua caracterização para o presente, o que é obviamente o objetivo do filme). Jude Law foge do desinteresse que tem marcado trabalhos recentes, põe energia na atuação, e o resto do elenco acompanha o ritmo de ambos. A fotografia escura e a direção de arte, nitidamente mais caprichada nas cenas que se passam dentro do submundo londrino do que nos ambientes mais aristocráticos, são outros pontos fortes.

No entanto, é bom que fique claro: “Sherlock Holmes” oferece uma leitura atualizada e até certo ponto desnecessária de um personagem literário extremamente popular. Os fãs da literatura de Sir Arthur Conan Doyle provavelmente não vão gostar do filme de Guy Ritchie; assim como James Bond (após a aparição da franquia Bourne), o detetive inglês foi submetido a uma releitura livre que se afasta bastante do material original oriundo dos livros. Não que isso seja exatamente uma novidade – nos anos 1970, Billy Wilder comandou uma aventura de Sherlock Holmes que o mostrava como um preguiçoso gênio dedutivo viciado em drogas. Mesmo assim, é bom que todos estejam avisados.

O DVD nacional sai com o selo da Warner. O filme aparece em boa qualidade de vídeo (widescreen anamórfico) e áudio (Dolby Digital 5.1). O extra mais valioso é um making of (14 minutos).

– Sherlock Holmes (Reino Unido, 2010)
Direção: Guy Ritchie
Elenco: Robert Downey Jr, Jude Law, Mark Strong, Rachel McAdams
Duração: 128 minutos

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