Shortbus

08/11/2010 | Categoria: Críticas

Cineasta independente John Cameron Mitchell faz comédia romântica com bastante sexo explícito, naturalidade e humor

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★½☆

É impossível escrever algo sobre “Shortbus” (EUA, 2006) sem lembrar a famosa declaração de Martin Scorsese sobre o sexo no cinema. Para o realizador nova-iorquino, depois que sua própria geração encontrou modos de explorar a violência na tela sem chocar as platéias, o ato sexual se tornou a última fronteira a ser conquistada pelos filmes. Pois bem. O filme de John Cameron Mitchell – uma comédia simpática, alto astral, e algo rasa – talvez seja, dentro da série de longas-metragens que vêm abordando o problema de frente desde a virada do século, aquele que se esforça mais arduamente para dotar o sexo de espírito positivo. Não foi feito para provocar tesão, e encara o sexo com tanta naturalidade e humor que acaba sendo, talvez, mais desconcertante do que o esperado.

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Projeto independente e 100% autoral, conduzido longe das garras dos estúdios de Hollywood, “Shortbus” foi acalentado como um bebê durante três anos. Nele, a história e os personagens é o que menos importa. Desde que decidiu fazer o filme, Mitchell tinha em mente um objetivo fixo, quase obsessivo: conceber um trabalho que trabalhasse a sexualidade sem traumas, sem atmosfera negativa, sem os clichês que normalmente são associados ao sexo nos filmes. Para o jovem diretor do cultuado musical “Hedwig” (2001), o sexo no cinema é sempre fonte de problemas, traumas e sentimentos negativos, como ciúmes e luta por poder. Ele queria fazer um filme em que o sexo fosse gostoso, bem-humorado, divertido, como é na vida. Conseguiu.

Para começo de conversar, não existe em “Shortbus” nenhuma tentativa de chocar através do uso de imagens explícitas. Sim, elas existem, e não são poucas: há homens transando com mulheres, homens transando com homens, sexo oral, duas grandes surubas com pênis eretos a dar com o pau (sem trocadilho), penetrações mostradas em planos-detalhe e até uma curiosa cena de auto-felação (logo na abertura, por sinal). Apesar de haver mulheres, o clima é indisfarçavelmente gay. Mas não é isso que importa. O que o diretor queria resgatar, e tem sucesso na missão, é a idéia de que sexo pode e deve ser feito sem culpas, sem medos, sem traumas. Apenas por prazer.

Neste sentido, “Shortbus” parece funcionar como um grito de protesto contra os tempos turbulentos da Aids, em que o sexo vem sempre acompanhado por um sinal de “cuidado”. Evidentemente, o longa-metragem não é uma ode à promiscuidade sexual, muito embora o comportamento dos personagens seja um bocado hedonista. É preciso interpretar esse comportamento, porém, como uma estratégia política – e não foi à toa, portanto, que o cineasta não se cansou de mencionar paralelos de fundo político nas dezenas de entrevistas de divulgação que deu para promover o lançamento. Se a hilariante seqüência em que três garotões transam cantando o hino dos EUA não é um momento político carregado de furioso simbolismo, não sei mais o que é cinema político.

Se como projeto “Shortbus” atinge perfeitamente o objetivo de tratar o sexo de modo espontâneo e bem-humorado, como cinema não é nada ambicioso. A estrutura de comédia romântica explora os dramas individuais de sete diferentes personagens, e não se aprofunda em nenhum. Há um casal gay em crise, um terceiro rapaz em busca de namorado, uma terapeuta sexual que não atinge o orgasmo com o marido individualista, um voyeur misterioso e uma garota sado-masô. Rótulos de homo, hetero e bissexual não se aplicam – o filme faz uma clara elegia ao pansexualismo a la Gilberto Freyre, em que qualquer um pode transar com qualquer um que esteja no estado de espírito adequado.

O campo de batalha das angústias desses sete jovens bonitos é o bar que empresta o nome ao filme. Em meio a instalações artísticas que parecem roubadas do ateliê de Andy Warhol, inspiradas em festas neo-hippie que acontecem de verdade em Nova York, Shortbus nada mais é do que uma gigantesca boate em que todos os freqüentadores estão liberados para fazerem o que quiserem. Pode-se fumar um baseado, beber, fazer sexo com o parceiro ou com a pessoa da mesa ao lado, tirar a roupa e se masturbar no balcão, ou simplesmente observar tudo sem mover um dedo. Vale tudo, inclusive não fazer nada.

Enquanto explora sem pressa as conexões (quase sempre sexuais) que surgem e desaparecem com a velocidade de um trem-bala descontrolado, John Cameron Mitchell traça um perfeito retrato da geração a que pertence (definida de modo certeiro, por um personagem, como “os anos 1960, só que sem esperança”): hedonista, pansexual, melancólica, com laços de afeto que se fazem e desfazem rapidamente. O filme não tenta avaliar este tipo de comportamento como positivo ou negativo; apenas mostra como as coisas são, para a juventude contemporânea. Embora não seja grande cinema, “Shortbus” é um filme importante para entender a geração daqueles que entraram no século XXI na faixa dos 30 anos.

O DVD nacional, sem extras e com imagem (wide letterbox) e som (Dolby Digital 2.0) de boa qualidade, é um lançamento em parceria entre a Livraria Cultura e a Mostra Internacional de São Paulo.

– Shortbus (EUA, 2006)
Direção: John Cameron Mitchell
Elenco: Sook-Yin Lee, PJ DeBoy, Paul Dawson, Jay Brannon
Duração: 102 minutos

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