Show de Truman, O

16/02/2006 | Categoria: Críticas

Peter Weir cria fábula contemporânea, muito bem dirigida, sobre a falta de privacidade

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★½

Todo mundo sabe que o primeiro “Matrix” teve sua idéia básica inspirada pelas teorias do filósofo francês Jean Baudrillard. Para o pensador, estamos numa época de simulacro, em que as pessoas vivem uma ilusão acreditando que ela é real. O que pouca gente sabe é que o próprio Baudrillard rejeitou “Matrix”, achando que o filme compreendeu mal a lógica de suas idéias. Quando perguntado sobre isso, o francês considerou “O Show de Truman” (The Truman Show, EUA, 1998), do diretor australiano Peter Weir, como um filme muito mais próximo da noção de simulacro, ou simulação do real.

Vistos sob o manto desse conceito de Baudrillard, os dois filmes têm realmente uma semelhança. Nos dois casos, temos personagens que vivem uma ilusão, 24 horas por dias, sem saber disso, enquanto nos bastidores dois grupos lutam por objetivos incompatíveis. Um deseja “libertar” os alienados dessa condição de simulacro, enquanto o outro busca mantê-lo alienado, vivendo uma mentira. Claro que as duas produções abordam essa idéia de pontos de vista bem diferentes. Em “Matrix”, a humanidade inteira vive em simulacro, enquanto um pequeno grupo de rebeldes procuram libertá-la da tirania de supercomputadores. Já em “O Show de Truman”, somente um indivíduo vive uma ilusão, e o resto do planeta se delicia em vê-lo ignorar essa condição, enquanto algumas poucas pessoas tentam alertá-lo do problema.

Se delicia? Sim, a expressão se aplica. O título original da produção, “The Truman Show”, é o nome de um programa de televisão a cabo, fictício, que se dedica a acompanhar, 24 horas por dia, o cotidiano de Truman Burbank (Jim Carrey), um pacato e bem-humorado corretor de seguros, que vive em uma pequena e tranqüila cidade chamada Seaheaven. Filmado por câmeras escondidas, Truman não sabe que faz parte do elenco de uma série de TV. Ele não sabe que a pequena cidade é na verdade um gigantesco estúdio (onde até o sol e a lua são artificiais), que sua família e amigos são atores contratados e que teve a própria vida filmada desde o nascimento, pela equipe do produtor Christof (Ed Harris). Truman jamais teve um único segundo de privacidade.

Até os 30 anos, o expediente deu resultado. Ingênuo, o rapaz jamais desconfiou de nada. Até o dia em que um defeito elétrico fez uma “estrela” cair do céu bem no meio da rua, na frente de Truman. A estrela era, na verdade, um holofote, e o rádio do carro do sujeito captura uma estranha conversa entre eletricistas do programa reportando o problema técnico. Mesmo sem compreender nada, Truman percebe que ali há algo estranho. O acontecimento é o primeiro de uma série – que inclui até mesmo o bizarro reaparecimento do pai dele, “morto” por afogamento muitos anos antes – de eventos que vai progressivamente fazendo o corretor perceber partes da verdadeira natureza da realidade que o cerca.

Peter Weir faz um trabalho extraordinário com o material escrito pelo bom roteirista Andrew Niccol. O diretor australiano criou uma obra em tom de fábula, tecnicamente simples e despojada, mas na verdade minuciosamente planejada em cada tomada, de forma que o espectador perceba claramente toda a movimentação em dois níveis de realidade: a de Truman, que nada sabe sobre a verdadeira natureza do programa de TV; e a da equipe técnica, que se esforça para esconder da cobaia toda a parafernália do programa. Em determinadas cenas, Peter Weir até mesmo se preocupou em dirigir alguns “maus” atores, para que ficasse bem evidente ao público que aqueles amigos e colegas de trabalho de Truman não passam, de fato, de figurantes trabalhando em um show de TV.

Toda a seqüência que envolve a queda da “estrela”, por exemplo, é um primor de direção e montagem. A continuação da cena mostra o corretor de seguros fazendo todo o trajeto para o trabalho, e é tão perfeita que podemos distinguir quase instantaneamente os figurantes encarregados de fazer merchandising no programa. Além disso, no clímax do filme, há um emocionante confronto verbal entre criador e criatura; é um trecho melodramático e emocionante, que Peter Weir revestiu com uma certa aura religiosa que é perfeitamente adequada ao momento. “O Show de Truman” é, na verdade, um show de direção.

Embora muita gente tenha feito elogios unânimes a Jim Carrey, quando o filme foi lançado nos cinemas, o desenvolvimento do lado dramático da carreira do ator deixa evidente que ele ainda tinha um caminho pela frente antes de poder se incumbir de um papel de alta voltagem dramática. Carrey se sai magnificamente nos momentos de humor (a brilhante cena em que ele tenta comprar uma passagem de avião em uma agência de turismo é uma das melhores do filme), mas não é tão seguro nos momentos dramáticos. Ed Harris é, na verdade, o maior destaque do elenco, compondo um Christof excêntrico e autoritário, uma mistura intrigante de diretor de cinema e líder religioso.

Pode até ser que “O Show de Truman” não seja o melhor momento da carreira de Peter Weir, mas é certamente um dos melhores. De fato, o diretor australiano ficou conhecido pela versatilidade, tendo filmado desde pequenas gemas de terror psicológico (“Piquenique na Montanha Misteriosa”) até filmes de aventura marítima (“Mestre dos Mares”), de dramas educacionais (“Sociedade dos Poetas Mortos”) a curiosos embates entre civilização e natureza (“A Costa do Mosquito”). O que ele fez de melhor é algo que depende do gosto de cada, mas há um parâmetro alto de qualidade que permeia todos esses trabalhos.

“O Show de Truman” tem tudo o que um grande filme precisa ter: bom potencial de entretenimento, senso de humor refinado, momentos emocionantes e oportunidades abundantes para refletir a respeito da falta de privacidade da vida contemporânea. Realizado alguns anos antes da febre de “Big Brothers” e programas de TV que se apoiam em idéias smelhantes, “O Show de Truman” se mostra um filme visionário e à frente do seu tempo. Se a gente pensar bem, até que Jean Baudrillard tem razão.

As duas versões em DVD do filme são lançamentos da Paramount. A primeira é uma edição quase ascética, com apenas o filme (em formato original widescreen e com trilha de áudio Dolby Digital 5.1). A segunda versão, de 2006, contém um segundo disco com um documentário (40 minutos), um featurette sobre efeitos especiais (13 minutos), cenas cortadas (quatro, totalizando 13 minutos), dois spots de TV e galeria de fotos. Tudo com legendas em português.

– O Show de Truman (The Truman Show, EUA, 1998)
Direção: Peter Weir
Elenco: Jim Carrey , Laura Linney, Ed Harris, Noah Emmerich
Duração: 102 minutos

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