Show Não Pode Parar, O

01/04/2004 | Categoria: Críticas

Documentário bem pessoal focaliza trajetória hiperbólica do produtor Robert Evans, um mito de Hollywood

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★☆

“Há três lados da mesma história: o meu lado, o seu lado e a verdade. Ninguém está mentindo. As lembranças servem a cada um de forma diferente”. A frase de abertura do documentário “O Show Não Pode Parar” (The Kid Stays In The Picture, EUA, 2003) adianta e, de certa forma, justifica a subjetividade do longa-metragem, construído apenas do ponto de vista do personagem que enfoca. E essa é uma decisão acertadíssima, que se afasta do estilo documental jornalístico e constrói uma película com força dramática equivalente a um longa de proporções épicas.

“O Show Não Pode Parar” é um documentário singular. O filme enfoca, em 93 minutos, a carreira do lendário produtor Robert Evans, o último dos grandes nomes a conservar a mistura de arrogância, ego e talento que fizeram o folclore de uma Hollywood mítica. Essa Hollywood já ficou para trás há pelo menos uns 25 anos. Evans é o dono do filme, e essa não é a única característica que “O Show Não Pode Parar” compartilha com as obras que ele produziu.

O projeto do filme é muito curioso. A película foi construída, pela dupla de diretores Nanette Burstein e Brett Morgen, a partir da autobiografia de Bob Evans, que tem o mesmo nome original (literalmente, “O Garoto Fica no Filme”). O produtor havia gravado uma versão do livro em formato de áudio (o controverso audio-book), e foi essa narração que os diretores aproveitaram no filme. Ou seja, em princípio, “O Show Não Pode Parar” nem é um filme, mas um depoimento colorido com imagens. Mas que depoimento!

A história de Robert Evans é fantástica. Ele era empresário de moda em Nova York quando foi descoberto, numa piscina de Los Angeles, pela atriz Norma Shearer. Garotão bonito, virou ator e fascinou-se pela figura do produtor Darryl Zanuck, autor da célebre frase que dá nome à autobiografia. Decidiu ser produtor, e não descansou enquanto não conseguiu uma oferta de um estúdio. A Paramount era o nono colocado no ranking de Hollywood, em 1967, quando contratou Evans para dirigir a casa. Tornou-se número 1 apenas três anos depois.

Nos anos 1970, Robert Evans levou uma vida tipicamente hollywoodiana, no bom e no mau sentidos. Produziu jóias como “O Poderoso Chefão” e “O Bebê de Rosemary”, e sucessos absolutos, como “Love Story – Uma História de Amor”. Salvou a Paramount da falência com esse último. Em 1974, no auge, começou uma carreira de produtor independente, fazendo “Chinatown” e “Maratona da Morte”, entre outros. Casou com a atriz mais bela da época, Ali McGraw, só para ser corneado pelo galã do momento, Steve McQueen. E estou falando aqui apenas no momento ascendente da trajetória de Evans. Nos anos 1980, viriam uma prisão por tráfico de drogas e até uma acusação de envolvimento em assassinato.

Robert Evans narra tudo isso com um senso de oportunidade que jamais resvala para autocomiseração ou júbilo. Aliás, faz mais do que narrar: promove uma sessão aguda de auto-análise, cínica em alguns momentos, comovente em outros (as cenas em que relembra a traição de McGraw, culpando-se pela ausência devido às filmagens de “O Poderoso Chefão”, são emocionalmente poderosas). Trata-se de um ególatra, sem dúvida, mas um sujeito capaz de fazer um filme em que examina, sem meias palavras, a própria falência moral (e financeira) merece bem mais do que palmas.

O filme ainda tem o mérito de realizar uma pesquisa rigorosa, amparada no farto material que o próprio Evans disponibilizou. Há inúmeras cenas do produtor – no cinema, na TV, nos sets. Aliás, os diretores driblam bem a falta de imagens recentes do protagonista (Evans não quis gravar entrevistas porque sofreu um derrame há três anos). Burstein e Morgen recorrem a montagens fotográficas criativas e longas seqüências panorâmicas da mansão em que Evans vive, em Beverly Hills. Essa solução enfatiza a aura mitológica do produtor, e a montagem ágil reforça a trajetória hiperbólica que transforma, finalmente, o produtor em personagem cinematográfico clássico.

Há, aqui, todos os ingredientes de um filme hollywoodiano de sucesso: sexo, drogas, assassinato, sucesso, dinheiro, belas mulheres e talento. Há, ainda, a ascensão e a queda de um homem que é, mais do que um ser humano fascinante, um símbolo de um passado glorioso que não volta mais. A nostalgia de Robert Evans é, em grande medida, a nostalgia de Hollywood, e dos próprios EUA, por um passado que já virou lenda. Curioso é perceber a metáfora, talvez não intencional, entre as trajetórias de uma pessoa, uma indústria e uma nação. E essa é a alma desse filme.

– O Show Não Pode Parar (The Kid Stays In The Picture, EUA, 2002)
Direção: Brett Morgen e Nanette Burstein. Documentário
Duração: 93 minutos

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