Showtime

24/09/2003 | Categoria: Críticas

Robert De Niro encarna “Seu Lunga” mais uma vez, em filme insosso e previsível, ao lado de um Eddie Murphy que parece um autômato

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★☆☆☆

Uma vez é bom, duas é ótimo, três é demais, e não pára por aí. O astro Robert De Niro nunca deve ter ouvido o ditado popular. Ou melhor, pode até ter escutado, mas deixou para lá. Afinal, depois de trinta anos de carreira, só agora o dinheiro começa a entrar de verdade na conta do ator preferido de Maretin Scorsese. E o melhor é que, para faturar alto, De Niro só precisa repetir o mesmo papel, filme após filme. “Showtime” (Showtime, EUA, 2002) deveria se chamar “Seu Lunga 8”, e certamente não precisaria de mais para lotar as duas salas em que estréia hoje, no Recife. Mentira? Vai dizer que você não gosta de ouvir mais piadas protagonizadas por “Seu Lunga” (mesmo que ela seja apenas um novo arranjo para a anterior)?

Pois é, “Showtime” traz De Niro repetindo a mesma fórmula: satirizando os próprios tipos taciturnos e rabugentos que passou a vida interpretando em dramas e suspenses. A diferença é que, quando o ator escolhida projetos de qualidade, fazia sucesso entre críticos, mas as bilheterias eram pequenas. Ele mudou de tática e passou a emprestar os rosnados a comédias simpáticas. O estrategema funcionou perfeitamente em “Máfia no Divã” (2000) e arrancou boas risadas em “Entrando Numa Fria” (2001). Nos dois longas, De Niro arrumou um contraponto cômico para poder arrancar humor da falta dele. Primeiro foi Billy Crystal; depois, Ben Stiller. Agora é a vez de Eddie Murphy, um gênio da comédia, o que em teoria deveria transformar esse filme em clássico.

Só em teoria mesmo. A dupla representa, em “Showtime”, dois policiais completamente diferentes. De Niro faz Mitch Preston, um detetive que mora num muquifo desarrumado e dedica dias e noites a investigar o aparecimento de uma arma diferente nas mãos dos traficantes de Los Angeles: é uma verdadeira bazuca, capaz de destruir uma casa ou arrebentar um carro com apenas um tiro. Já Murphy é Trey Sellars, um simples patrulheiro desastrado que sonha com uma carreira de ator enquanto dá duro para não ser gozado pelos colegas.

O pretexto para juntar os dois acontece quando uma produtora de TV (Rene Russo) tem a idéia de fazer um reality show, estilo “Big Brother”, mostrando o cotidiano verdadeiro de uma dupla de policiais. De Niro vai a contragosto, como punição por uma batida mal-sucedida, enquanto Murphy entra na jogada porque foi o responsável pelo malogro da tal batida. Claro que, entre uma e outra prisão feita para mostrar serviço diante das câmeras, os dois investigam o caso da nova metralhadora bambástica.

Além de começar com vários pontos negativos por causa da repetição do “clichê De Niro” de interpretação, Showtime ainda se dedica a roubar inspiração de outras comédias que procuravam equilibrar risos com algumas cenas de ação. Basta lembrar que os dois “48 Horas” (com o mesmo Murphy interpretando o mesmíssimo papel) e os mais recentes “A Hora do Rush” também apostavam no mesmo filão – inclusive na dialética policial negro/policial branco – para ganhar o público.

A direção de Tom Dey é insípida, as interpretações param no burocrático e nem mesmo os já tradicionais erros de gravação exibidos no final, que sempre garantem risadas por causa da espontaneidade, parecem funcionar direito. Para espectadores pouco exigentes, “Showtime” pode ser um programa interessante, mas se você já anda meio cansado de ver o talentoso De Niro fazer cara de mau-humorado, melhor esperar pela próxima tentativa. É uma pena ver um ator tão bom desperdiçando o talento, mas a vida é assim mesmo.

– Showtime (Showtime, EUA, 2002)
Direção: Tom Dey
Elenco: Robert De Niro, Eddie Murphy, Rene Russo
Duração: 95 minutos

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