Shrek 2

16/11/2004 | Categoria: Críticas

Longa continua misturando irreverência e encantamento, mas não tem mais sabor de novidade

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★☆☆

Algumas das produções mais interessantes e bem sucedidas comercialmente da década de 1990 foram animações infantis. De gênero costumeiramente desprezado por críticos e pelo publico adulto em geral, o desenho animado transformou-se na rara unanimidade que todos amam. Apontar os motivos dessa mutação não é fácil, mas pode ser feito: estou falando de filmes que, embora sigam fielmente uma fórmula narrativa clássica, possuem várias camadas de significados, utilizam grande quantidade de referências cinematográficas (um charme para o publico mais velho) e têm estilo visual sofisticado. “Shrek 2” (EUA, 2004) se encaixa, como o antecessor, nessa categoria.

A palavra mágica parece ser “fórmula” mesmo. A verdade é que as animações de estúdios como a Pacific Digital Images (PDI), empresa que fez o grande sucesso de 2001 e repetiu a dose agora, seguem um padrão muito semelhante. A PDI repetiu, passo a passo, a lição da Pixar, criador da linha “Toy Story”: encaixou os personagens consagrados dentro de uma trama divertida com toques românticos e apimentou o enredo com muitas gags visuais que remetem a filmes (e, nesse caso, também fabulas) de sucesso, que permanecem vivos no imaginário cinematográfico.

A receita para os candidatos a roteiristas de animações parece ser esta: misture, em dose iguais, a estrutura narrativa de uma fábula infantil clássica com gags visuais inspiradas em ícones da cultura pop. “Shrek 2” ainda tem um encanto a mais, que é um novo coadjuvante cômico de destaque. O Gato de Botas acerta o alvo em cheio por causa do caráter dúbio, e se torna assim um personagem ao mesmo tempo complexo e divertido, o que comprova o cuidado dos criadores da franquia com a qualidade geral do produto que têm em mãos.

Quando o filme começa, o ogro Shrek e a princesa Fiona estão em perfeita harmonia, retornando da lua-de-mel. Eles são convidados pelos pais da noiva para uma festa no reio de Tão Tão Distante. Esse acontecimento representa o abalo na harmonia do filme, o conflito que todo roteirista precisa estabelecer para criar um filme. Mas algo diferencia “Shrek 2” das centenas de produções que usam essa fórmula: as fartas doses de irreverência corrosiva, que transformam o reino da princesa Fiona em um simulacro perfeito de Berverly Hills.

Os pais de Fiona são típicos moradores daquele subúrbio novo-rico, pedantes e alienados, e ficam horrorizados em ver no que a filha se transformou para casar com Shrek. O rei, em particular, não suporta a situação, e arma um plano, junto com a Fada Madrinha, para provocar o rompimento do casal, deixando Fiona livre para o assédio do Príncipe Encantado, um arrogante almofadinha que vem a ser filho da fada. O Gato de Botas nada mais é do que um assassino de aluguel contratado para executar o ogro, que continua acompanhado pelo burro mais tagarela dos desenhos animados.

“Shrek 2” só não é tão bom quanto o primeiro porque não consegue repetir o sabor de novidade que o longa-metragem de 2001 trouxe ao mundo do cinema. Isso seria algo complicado de conseguir. Mesmo assim, administra muito bem a trama, dosando-a com dezenas de referências a filmes conhecidos. Uma das melhores parodia uma cena de “Flashdance”. Já a mais engraçada seqüência do filme consegue unir os dois “Missão Impossível” a uma piada impagável envolvendo as peculiares habilidades de Pinóquio e roupa íntima feminina.

Os criadores do filme foram muito felizes ao pontuar a trama com o número exato de gags. Não há referências visuais em excesso, o que poderia impedir o desenvolvimento do ritmo correto ao enredo, mas elas também não são raras a ponto de deixar saudades. Ainda por cima, abrem espaço para brincadeiras envolvendo as características de cada personagem, que são desenvolvidos justamente através dessas pequenas seqüências de ação. O Gato de Botas, por exemplo, tem uma maneira bem felina de armar o bote para seus inimigos – e o filme transforma isso em gargalhadas por duas vezes ( o que é uma grande virtude!).

Do ponto de vista técnico, “Shrek 2” é outro acerto. Ao invés de ceder à tentação de melhorar a animação do filme, em relação ao anterior, e correr o risco de quebrar a unidade visual da série, a PDI preferiu utilizar o mesmo padrão de cores e imagens. Em relação à película de 2001, “Shrek 2 “ recebeu apenas um pequeno upgrade (o momento em que isso fica mais visível é na seqüência que se passa sob tempestade), mas jamais perseguiu o realismo. O mundo de Shrek continua sendo um mundo de conto de fadas: supercolorido, luminoso e irreal. Talvez por isso, continue encantador.

O DVD com o filme é um pacote ótimo para crianças, e talvez um pouco decepcionante para adultos em geral. Apesar da transferência de imagem e som (Dolby Digital 5.1 e DTS) bacanas, há apenas um documentário curto de bastidores, basicamente promocional e muito superficial, e galerias multi-ângulos com seqüências apresentadas em camadas. Um comentário em áudio dos diretores completa o material para adultos. De resto, trailers e jogos infantis para os pequenos.

– Shrek 2 (EUA, 2004)
Direção: Andrew Adamson, Kelly Asbury, Conrad Vernon
Animação
Duração: 93 minutos

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