Shrek Terceiro

03/10/2007 | Categoria: Críticas

Sem o sabor de novidade e repetindo o mesmo elenco do filme anterior, terceiro título é o mais fraco da franquia

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★½☆☆

Uma vez é pouco, duas é bom, três é demais. O velho e conhecidíssimo ditado popular cai como uma luva para descrever a sensação de história requentada que emana de “Shrek Terceiro” (Shrek The Third, EUA, 2007). Sem disposição para correr muitos riscos, os produtores do longa-metragem recusam ousadias e apenas repetem a fórmula dos dois filmes anteriores da franquia: satirizam os contos de fada clássicos com bom-humor, inserindo gags inspiradas em filmes de sucesso e canções famosas, algumas delas acompanhadas de pequenos números musicais engraçados. O resultado, sem o sabor de novidade do primeiro e com o mesmo elenco básico, é apenas morno.

Obviamente, este sabor de mofo não significa muito para o público, como prova o sucesso avassalador que a estréia do filme nos cinemas alcançou nos Estados Unidos. Por lá, o filme arrecadou U$ 287 milhões em quatro semanas de exibição, cifra respeitável que o coloca diretamente na galeria dos títulos mais rentáveis de 2007. Aliás, “Shrek Terceiro” comprova claramente a tese de que continuações de filmes de sucesso devem dar mais atenção aos personagens do que à trama. Desta vez, ao contrário do que ocorreu na segunda parte, os diretores nem mesmo se deram ao trabalho de acrescentar novos protagonistas, se limitando à inclusão de personagens de segundo escalão.

Um dos poucos acertos da produção é a definição clara de um tema único – a chegada da maturidade. Este tema se manifesta em duas veias narrativas que correm em paralelo. Numa delas, o ogro Shrek precisa lidar com a notícia de que será pai dentro de poucos meses. Na outra, o magrelo adolescente Arthur (referência à lenda britânica) deve deixar de ser saco de pancadas em uma escola para príncipes, pois só assim pode assumir a coroa do reino de Tão, Tão Distante. A história, na verdade, parte exatamente do ponto onde o segundo filme havia parado, e tem o mesmo vilão, o loiríssimo Príncipe Encantado. O plano do malvado bonitão consiste em reunir todos os vilões de contos de fadas (Capitão Gancho incluído) e dar um golpe de estado no reino. A ausência de Shrek, que está numa viagem em busca de Arthur, vem bem a calhar ao grupo.

A direção de arte, como acontece sempre em animações, é um ponto forte. Com o generoso orçamento de US$ 121 milhões, os 150 animadores puderam criar uma biblioteca de 4.378 personagens para animar em cenas de multidão. O número inclui 23 personagens de contos de fadas que aparecem em pontas de luxo, inclusive as princesas Bela Adormecida, Rapunzel e Branca de Neve. Foram criados 60 cenários virtuais em 360 graus, e 4.500 figurinos. Os números superlativos apenas comprovam o nível espetacular da animação gráfica alcançado pelos grandes estúdios, já que o visual do filme mantém o padrão de estilização utilizado nos dois filmes anteriores, superando-as apenas em quantidade e qualidade de detalhes.

Por outro lado, a trilha sonora repleta de gemas do rock dos anos 1970 (Led Zeppelin, Heart, Paul McCartney, Ramones) apenas confirma uma tendência crescente neste tipo de filme: cada vez mais, as animações computadorizadas miram em um público de adultos acima dos 30 anos – é difícil imaginar que pirralhos de 10 ou 15 anos consigam reconhecer canções como “Immigrant Song” ou “Live and Let Die” na versão original. Os melhores momentos de humor, aliás, também buscam referências que a gurizada do século XXI vai ter muita dificuldade em interpretar, incluindo diversas citações ao grupo Monty Python (John Cleese e Erci Idle dublam personagens importantes, na versão legendada), ao seriado “O Homem de Seis Milhões de Dólares” e ao musical “A Noviça Rebelde” (1965). De resto, abundam as cansadas piadas com pums e arrotos.

O DVD da Paramount tem ótima qualidade de imagem (widescreen 1.78:1 anamórfico) e áudio (Dolby Digital 5.1). Os extras são variados, com predomínio para featurettes para a garotada (clipes, jogos interativos), mais cenas cortadas e um pequeno documentário técnico.

– Shrek Terceiro (Shrek The Third, EUA, 2007)
Direção: Chris Miller e Raman Hui
Animação (vozes originais de Mike Myers, Cameron Diaz, Eddie Murphy)
Duração: 92 minutos

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