Shrek

07/01/2004 | Categoria: Críticas

Gordo, feio e sujo: quem diria que o protagonista de um filme infantil poderia ser assim – e ainda casar com uma princesa?

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★☆

Ainda existe esperança para Hollywood. Essa é a sensação que se tem ao assistir ao desenho animado “Shrek” (idem, EUA, 2001). Irreverente e empolgante, o filme vira os contos de fadas pelo avesso e é capaz de agradar igualmente a adultos e crianças. Pode parecer exagero, mas as credenciais não mentem: é o maior sucesso da história bem sucedida dos estúdios DreamWorks e ganhou o primeiro Oscar da categoria Melhor Longa de Animação, em 2002. Há quem considere o conto do ogro verde e mau-humorado que precisa salvar uma princesa um dos melhores longas-metragem de animação de todos os tempos.

Os elogios têm fundamento. A fábula do ogro verde que tem o nome do filme é engraçadíssima. E a maior de todas as ironias está nas entrelinhas: risada de verdade quem deve estar dando é o executivo Jeffrey Katzemberg, produtor do filme e dono da DreamWorks SKG, junto com Steven Spielberg e David Geffen. “Shrek” pode ser considerado uma espécie de vingança pessoal de Katzemberg contra a Disney, que o demitiu em 1994, depois de uma série de sucessos (“O Rei Leão” e “A Bela e A Fera”, por exemplo). O filme da DreamWorks satiriza personagens e contos de fada da firma que monopoliza o setor de animação no cinema mundial.

Quem não tem idéia do que seja “Shrek” pode, à primeira vista, ficar intrigado: diante dos enormes avanços da computação gráfica, nos últimos anos, o que poderia justificar tantos elogios a um simples desenho animado? Resposta: o roteiro. A bela animação de “Shrek” também impressiona, mas o grande trunfo é mesmo o texto divertido e deliciosamente irreverente, algo que o cinema de animação, por ser voltado ao público infantil, costuma evitar. As produções da Disney são conhecidas pelo conservadorismo das tramas e mesmo os desenhos mais bacanas (os dois “Toy Story” e “A Fuga das Galinhas”) costumam tropeçar nos clichês por causa desse quesito.

Para começar, a dupla de diretores da firma norte-americana PDI (responsável por “FormiguinhaZ” e produtora direta do filme), Victoria Jenson e Andrew Adamson, subverte com habilidade os clichês dos contos de fada a partir do perfil dos personagem e evita o tradicional maniqueísmo. O herói da história é um ogro verde, feio, gordo e mau-humorado. O príncipe encantado não passa de um ditador brigão que quer casar com uma princesa – qualquer uma – para poder ganhar o título de nobreza, é um anão covarde e vive com a barba por fazer. A princesa, que luta caratê e não tem pudor de roubar ovos de passarinho para fazer omeletes, mente para esconder um segredo. E o fiel escudeiro do ogro, um burro, fala pelos cotovelos e tem medo da própria sombra.

Shrek adora tomar banho de lama, comer ratos assados no espeto e fazer velas com a cera que tira do ouvido. É um sujeito solitário que vive num pântano e não gosta de fazer amigos. Mas sua vida vira de cabeça para baixo quando o Lorde Farquaad invade a terra do faz-de-conta. Todos os personagens de contos de fadas fogem e vão buscar refúgio no pântano do ogro. Para se ver livre da bagunça, ele faz um pacto com o aspirante a príncipe: se salvar a princesa Fiona (escolhida para o casamento na base do olhômetro) das garras de um terrível dragão, já que o tirano não tem coragem para tanto, terá o pântano todo para si novamente.

Um aviso: não desgrude da tela para não correr o risco de perder alguma das muitas aparições-surpresa de personagens dos contos de fada tradicionais. Pinóquio, Branca de Neve, os sete anões, a Bela Adormecida, o espelho mágico, os três porquinhos, o lobo mau, Cinderela, todos estão lá. Robin Hood e sua gangue protagonizam um dos raríssimos números musicais da película (outro acerto da DreamWorks, já que nenhum adulto consegue suportar o excesso de canções adocicadas dos filmes da Disney).

Existe também uma penca de citações para premiar os mais atentos. O efeito bullet time de “Matrix” é reproduzido à risca numa luta da princesa no bosque, enquanto a cena em que Shrek e o burro chegam ao castelo de Farquaad pela primeira vez tira sarro da crise econômica que os parques temáticos da Disney atravessam. Sobra até para Tom Jobim, que tem uma canção classificada como “música de elevador”. E preste atenção na surreal seqüência em que o príncipe tortura… um biscoito de aveia.

– Shrek (idem, EUA, 2001)
Direção: Victoria Jenson e Andrew Adamson
Duração: 100 minutos

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