Sid e Nancy

30/07/2005 | Categoria: Críticas

Retrato da relação tumultuada de astro do rock é reconstituição visual perfeita, mas incompleta, do período

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★☆☆

O trágico fim da relação amorosa entre o baixista Sid Vicious, integrante da banda punk inglesa Sex Pistols, e a namorada Nancy Spungen é um episódio de destaque na história do rock’n’roll. O astro pop e a fã que conseguiu atrair a atenção do ídolo viveram uma curta e incandescente paixão, que terminou com a morte dela, esfaqueada em um hotel de Nova York. Sid morreria dias depois, vitimado por uma overdose de heroína. Mas como um caso de amor tão vigoroso terminou dessa maneira? Quais as circunstâncias da misteriosa morte dela? O cineasta inglês dá a sua versão da história em “Sid e Nancy” (Sid and Nancy, EUA/Inglaterra, 1986), filme cultuado entre jovens do mundo inteiro.

Não é difícil compreender o culto ao longa-metragem. A verdade é que Alex Cox filmou a lenda Sid, mas não conseguiu – na verdade, nem tentou – se aproximar do indivíduo Sid. Durante anos, especulações em revistas pop esquadrinharam o passado do músico inglês e o namoro com Nancy, gerando um grande número de especulações. Falou-se, por exemplo, que os dois tinham um pacto de suicídio. Também foi dito que Nancy era uma junkie veterana que iniciou Sid nos prazeres da heroína e o incentivou a deixar os Pistols – ou seja, uma espécie de Yoko Ono do punk. Todas essas histórias estão no filme.

O Sid Vicious mostrado em “Sid e Nancy” é o mesmo que reza a lenda a respeito dele: um jovem ignorante, superficial, carismático, cheio de energia e absolutamente descontrolado. Quanto a Nancy, as boas qualidades estão quase ausentes, e ela é mostrada como uma oportunista que gostava não de Sid, mas de estar com algum – qualquer um – rock star. O retrato da relação é unidimensional e incompleto. Em resumo, coisa de fã para fã.

Alex Cox se cercou de cuidados técnicos para fazer a película. Contratou, por exemplo, o fotógrafo Roger Deakins, um mestre, responsável por duas das imagens mais belas e poéticas do longa-metragem. Na primeira, Sid e Nancy trocam um beijo apaixonado em um beco sujo, com lixo caindo dos apartamentos acima, como uma chuva de dejetos. A outra mostra o baixista caminhando, solitário, pelo porto de Nova York, com os prédios da metrópole em segundo plano e um céu azul opressor engolindo tudo. São momentos de beleza plástica inegável, mas que soam deslocados dentro do filme, como pequenos parênteses de poesia dentro de uma narrativa em prosa.

Um detalhe interessante sobre a fotografia do filme é a opção por uma narrativa contida, com enquadramentos caretas e montagem limpa, tradicional, que não casa com a anarquia punk dos dois personagens. Talvez o uso de câmeras na mão, com imagens tremidas e fora de foco, capturasse melhor o espírito rebelde da época punk. Apesar disso, o filme tem uma reconstituição de época muito detalhada, provavelmente fruto de uma pesquisa fotográfica intensa. O resultado é positivo, já que os personagens – o casal protagonista, os outros integrantes da banda, o empresário Malcolm McLaren – estão fisicamente idênticos aos verdadeiros.

O maior destaque de “Sid e Nancy”, contudo, é a composição dos dois personagens. Gary Oldman não é apenas a cara de Sid Vicious, mas sorri como ele, fala como ele e age como ele – o andar trôpego, o olhar alucinado, está tudo ali. Ainda mais impressionante é Chloe Webb, que vai além do visual idêntico ao de Nancy; a maneira mastigada e lenta de falar e o olhar fora de foco também batem com as imagens sobreviventes da verdadeira Nancy. Todo o elenco coadjuvante está bem.

“Sid e Nancy” é um filme biográfico que quase chega a ser um musical. Há inúmeras seqüências do Sex Pistols no palco, quando a banda é dublada com muita propriedade. Mas nem só de Pistols vive a trilha sonora; a banda escocesa The Pogues tem canções na trilha sonora, bem como o Black Sabbath. A música é outro destaque do filme de Alex Cox, que exala o carinho insuspeito do diretor para com aqueles personagens, que significaram muito para a geração dele.

No Brasil, “Sid e Nancy” ganhou uma edição fraca em DVD, com imagem original (widescreen) e som Dolby Digital 2.0, em inglês. Não há extras.

– Sid e Nancy (Sid and Nancy, EUA/Inglaterra, 1986)
Direção: Alex Cox
Elenco: Gary Oldman, Chloe Webb, David Hayman, Debbie Bishop
Duração: 112 minutos

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