Sinal, O

01/09/2009 | Categoria: Críticas

Trio de diretores novatos cria premissa sci-fi instigante, mas a divide em três partes desequilibradas

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★☆☆

Uma premissa original e instigante nem sempre garante um filme de qualidade. A afirmação ganha mais uma comprovação na produção independente “O Sinal” (The Signal, EUA, 2007), um curioso híbrido de horror, ficção científica e comédia de humor negro, dividido em três partes distintas. Dirigido e produzido por quatro amigos cineastas de Atlanta (EUA), o longa-metragem chama mais a atenção pela forma idiossincrática como foi produzida do que pela qualidade cinematográfica. Apesar de oferecer uma experiência diferente, a característica mais importante acaba sendo mesmo o desequilíbrio (tanto na qualidade quanto na temática) entre as três partes que compõem o todo.

Produzido sem o apoio de estúdios, “ O Sinal” foi concebido como uma experiência coletiva por quatro amigos de faculdade. Um deles, Alexander Motlagh, cuidou da produção, enquanto os três restantes (David Bruckner, Dan Bush e Jacob Gentry) escreveram, dirigiram e editaram o longa-metragem, a partir de uma verba inicial de apenas US$ 50 mil. Todas as gravações foram feitas em apenas 13 dias, em apartamentos de amigos e nas vizinhanças, com um grupo de atores amadores. O mais curioso é que os três diretores não fizeram o trabalho juntos, como sempre acontece nesses casos. Eles dividiram o argumento original em três partes. Cada um ficou com a incumbência de escrever, dirigir e editar uma parte, de forma independente das outras. O resultado, como se poderia esperar, é bem irregular, apesar de interessante.

A premissa geral, que funciona como fio condutor da narrativa, é a melhor coisa do filme. Na cidade fictícia de Terminus, uma misteriosa transmissão invade todos os aparelhos eletrônicos, incluindo telefones, televisões e rádios. O sinal eletromagnético, de origem desconhecida, causa confusão mental e desperta instintos violentos em quem trava contato com ele. As pessoas começam a se matar sem qualquer razão aparente. Logo a cidade vira um caos, com brigas homéricas, tiroteios, incêndios e acidentes automobilísticos tomando conta das ruas, em um cenário apocalíptico incontrolável. A premissa, aliás, é bastante semelhante à do thriller “Fim dos Tempos” (2008), de M. Night Shyamalan.

Na primeira parte, somos apresentados a um triângulo amoroso: Mya (Anessa Ramsey), Lewis (A.J. Bowen) e Ben (Justin Welborn). Os dois primeiros mantêm um casamento fracassado. A moça está imersa em um caso extraconjugal com o último. É noite de Ano Novo, e a misteriosa transmissão começa a ser percebida justamente quando ela sai do apartamento do amante e vai para casa. Quando chega lá, encontra um cenário sangrento. Desorientada, ela inicia uma fuga sem rumo, e é perseguida por um Lewis mais violento do que o normal. Esta primeira parte, mais séria e tensa, é a mais eficiente de “ O Sinal”, pois investe em uma atmosfera de desorientação frenética que casa muito bem com a estética suja de câmera na mão e cortes rápidos.

O segundo trecho flagra o casal num dentro de um apartamento onde uma festa de Ano Novo estava sendo montada, até que a mulher acabasse esfaqueando o marido num acesso de fúria. Aqui, notamos ainda que a transmissão provoca um efeito colateral secundário – ele afeta seriamente a percepção das pessoas, de modo que os personagens começam a confundir um com outro. A idéia é bem bolada, mas o episódio acaba se mostrando o mais fraco do filme, graças à estratégia equivocada de acrescentar humor negro em doses excessivas, levando o filme quase ao limite do pastelão. A diferença brutal de tom entre os dois trechos mostra que a estratégia narrativa decidida durante a pré-produção pode ser interessante no papel, mas prejudica a consistência do produto final.

A terceira e última parte retoma a fuga do casal de amantes e reúne os três personagens do triângulo amoroso, em um epílogo brutal e sangrento. Embora a tensão e o senso de desorientação reaproximem o filme ao tom do primeiro segmento, há também uma nítida predileção pelo elemento gore, com profusão de cenas de violência explícita e muita maquiagem falsa. Apesar do desequilíbrio entre os três atos, a boa premissa e o trabalho de câmera que privilegia cores estouradas e movimentos rápidos, agregados à sensibilidade pop dos diretores (atenção para a trilha sonora estridente) e à influência de filmes antigos de David Lynch (“Videodrome” e “Existenz”) fazem de “ O Sinal” um filme B de algum interesse.

Por ser uma produção independente lançada sem o apoio de uma campanha de marketing, “O Sinal” foi lançado no Brasil direto em DVD. Disco simples, da Alpha Video, com qualidade fraca de imagem (1.33:1) e áudio (Dolby Digital 2.0). Não há extras disponíveis no pacote.

– O Sinal (The Signal, EUA, 2007)
Direção: David Bruckner, Dan Bush e Jacob Gentry
Elenco: A.J. Bowen, Justin Welborn, Anessa Ramsey, Scott Poythress
Duração: 99 minutos

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