Silêncio da Morte, O

31/08/2005 | Categoria: Críticas

Faroeste no gelo de Sergio Corbucci dá novo sentido à figura do ‘estranho sem nome’ dos western spaghetti

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★☆

Duas mulheres conversam em um cemitério clandestino escavado no meio da neve, na pequena cidade de Snow Hill, em Utah (EUA). Uma delas acaba de enterrar o marido, morto por um cruel caçador de recompensas. Enfurecida, a mulher revela a intenção de contratar um vingador especializado em vingar viúvas, um excêntrico homem chamado Silenzio. “Eles o chamam de Silenzio porque não importa aonde ele vá, o silêncio da morte sempre o acompanha”, afirma. Com essa frase, Pauline (Vonetta McGee), a viúva enraivecida, explica o estranho título nacional do faroeste “O Silêncio da Morte” (Il Grande Silenzio, Itália/França, 1968).

O filme de Sergio Corbucci ganhou fama entre os fãs de western por ter sido considerado pelo especialista Christopher Frayling, biógrafo de Sergio Leone, como o melhor longa-metragem do abundante ciclo de produções italianas de faroeste entre 1960 e 1975 que não tinha a mão de Leone. O título não-oficial é merecido. “O Silêncio da Morte” transpõe os arquétipos característicos do subgênero para uma paisagem gelada, dando-lhes um tratamento original, que confere ao filme um caráter melancólico e evocativo, um clima que vai além da simples soma de elementos técnicos (som, cenários, atores) que compõem um filme.

A produção trata, como convém a um faroeste italiano, de uma saga de vingança encabeçada por um “estranho sem nome”, um pistoleiro de poucas palavras com passado misterioso e ágil no gatilho. Silenzio (Jean-Louis Trintignant), no entanto, possui uma condição que o coloca em uma dimensão diferente daquela ocupada pelo personagem imortalizado opor Clint Eastwood. Ele é mudo. Quando criança, teve a garganta cortada por um caçador de recompensas. Por isso decidiu toda a sua vida a matar quem vive desse ofício.

Silenzio chega a Snow Hill em um momento curioso. A cidade, castigada por um inverno rigoroso, encontra-se cercada por ladrões e assassinos. Vivendo nos bosques além dos limites da vila, os bandidos atraem a atenção de outro bando, formado pelos caçadores de recompensas, que montam acampamento da cidade para matá-los. Esses são liderados por Loco (Klaus Kinski), um assassino frio, traiçoeiro e sanguinário. Loco é o homem que a viúva Pauline quer ver morto. Ele e Silenzio chegam a Snow Hill na mesma carruagem, abarrotada de cadáveres de malfeitores postos por Loco para congelar em bancos de neve, à espera de transporte.

Um detalhe a mais: no mesmo veículo, chega a Snow Hill o xerife Burnett (Franco Wolff). Militar condecorado, ele acaba de ser designado para controlar a terrível situação da cidade, acalmando os ânimos entre bandidos e caçadores de recompensa. Como se vê, Corbucci prepara a ação de modo a pôr três indivíduos em rota de colisão. Mais ou menos como Leone havia feito na sua famosa “trilogia dos dólares”, e como ele próprio havia realizado no violento “Django”, dois anos antes.

A receita é parecida, mas “O Silêncio da Morte” conta com um trunfo inigualável: as maravilhosas paisagens de inverno dos montes Pirineus, que serviram de locação principal. O filme quebra a tradição do gênero, pródigo em ambientar os filmes em cidades cheias de poeira, lama e calor. Assim, Corbucci e o fotógrafo Silvano Ippoliti conseguem filmar panoramas gelados de tirar o fôlego, com imensas porções de neve branca como papel e um céu azul claro. Além disso, o contrate violento entre o branco da neve e o vermelho do sangue, nos tiroteios, serve de mote para uma série de grandes imagens. O visual de “O Silêncio da Morte” é belíssimo.

O trabalho de fotografia é realmente impressionante, pois abusa de técnicas distintas (tomadas de ângulos quase verticais, de cima para baixo ou de baixo para cima, câmera na mão em pelo menos uma seqüência) para dar ao longa-metragem um ritmo particular, lento mas jamais tedioso. Para completar, o maestro Ennio Morricone compõe um tema dramático, utilizando os corais masculinos tradicionais do western spaghetti de uma maneira bem diferente do normal. A música dá o toque fúnebre definitivo que complementa a desolação das imagens com precisão.

“O Silêncio da Morte” é um filme claramente mais ambicioso do que o normal no estilo. Isso seria de se esperar, já que Corbucci ganhou notoriedade por seguir os passos de Leone, então já consagrado como um cineasta maior. Isso fica evidente, por exemplo, nas tomadas que focalizam os rostos dos atores em close, uma característica de Sergio Leone que o xará incorporou aqui com brilhantismo (ajudado, é claro, pelos traços expressivos de Klaus Kinski, à vontade no papel do louco homicida que interpretaria tantas vezes ainda).

Mesmo assim, o diretor italiano jamais abandona suas marcas registradas, como as mãos machucadas dos pistoleiros durante os tiroteios, as cenas passadas em cemitérios toscos (como o citado acima) e as doses expressivas de violência, aqui mais espaçadas mas ainda impactantes. Além disso, demonstra um carinho maior para com seus personagens, em especial para com Pauline e Silenzio, chegando mesmo a criar uma relação sem palavras entre os dois, em cenas que denotam muita intimidade, o que é muito bom.

Para completar, Corbucci demonstra um domínio ainda maior da narrativa, inserindo na trama dois flashbacks bem colocados que conferem ao filme um novo sentido. “O Silêncio da Morte” também chama a atenção dos aficionados pelo final surpreendente, amargo e violento. Este é um daqueles finais que deixam o espectador em silêncio, ruminando os acontecimentos, impotente devido à impossibilidade de mudá-los – exatamente como na vida real. Não há dúvida de que Sir Christopher Frayling tinha razão ao analisar este filme.

O selo Classic Line lançou o DVD no Brasil sem alarde. A edição é baseada na edição norte-americana da Image Entertainment. O disco contém o filme com boa qualidade de imagem (formato widescreen 1.66:1 original) e som em inglês (Dolby Digital 2.0). Faz falta a dublagem original em italiano. Não há extras. O DVD da Região 1 traz um final alternativo (6 minutos) e mais um vídeo de apresentação com o cineasta inglês Alex Cox (de “Sid & Nancy”, com 5 minutos). O filme também pode ser encontrado, sob o título “O Vingador Silencioso”, em edição idêntica (acrescida de áudio em português) do selo Ocean Pictures.

– O Silêncio da Morte (Il Grande Silenzio, Itália/França, 1968)
Direção: Sergio Corbucci
Elenco: Klaus Kinski, Jean-Louis Trintignant, Vonetta McGee, Frank Wolff
Duração: 105 minutos

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