Silêncio do Lago, O

24/10/2007 | Categoria: Críticas

Thriller franco-holandês é sufocante, perturbador e narrado com extrema segurança, além de ter final inesquecível

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★½

Tramas sobre seqüestros constituem uma aposta fácil para cineastas que desejam filmar thrillers. Há , porém, um sério problema para os que fazem esta opção: é raro, muito raro que uma obra pertencente a este gênero consiga ser algo mais do que eficiente. Aparentemente, quase todas as histórias interessantes que havia para ser contadas já o foram. Conseguir ser original, trabalhando dentro de um gênero tão desgastado, é tarefa hercúlea. E não é que o veterano cineasta franco-holandês George Sluizer conseguiu? “O Silêncio do Lago” (Spoorloos, Holanda/França, 1988) não é apenas um thriller psicológico original. Vai além: é sufocante, assustador, magnético, perturbador de verdade.

Baseado em uma novela holandesa de mistério intitulada “O Ovo Dourado”, a produção de Sluizer oferece uma espiada angustiante dentro das mentes de dois homens diferentes entre si, mas ligados inexoravelmente por uma tragédia. É o típico caso de enredo que parece simples, mas é na verdade bastante sofisticado, e engana os desavisados. Pela sinopse, o espectador imagina que vai acompanhar a investigação empreendida por Rex, um escritor holandês (Gene Bervoets), na tentativa de desvendar o misterioso desaparecimento da namorada Saskia (Johanna ter Steege). A moça sumiu, como que por encanto, ao entrar numa loja de conveniência para comprar um refrigerante, durante uma viagem de carro entre Holanda e França.

Mas as aparências enganam. Aos poucos, e firmemente, o diretor Sluizer modifica o foco da história, buscando uma abordagem criativa e inusitada. Um thriller convencional adotaria uma narrativa no estilo “quem é o criminoso?”, opção que o cineasta descarta ainda no primeiro ato, ao apresentar ao público o seqüestrador, um pacato e sinistro professor de Química (Bernard-Pierre Donnadieu). Assim, ao invés de simplesmente acompanhar a investigação efetuada por Rex, Sluizer põe o espectador numa posição incômoda e incomum. De um lado, nós sabemos mais do que Rex, já que conhecemos a identidade do criminoso. De outro, sabemos menos do que Raymond, o raptor – não temos, como Rex, a menor idéia do que realmente ocorreu com Saskia.

O ângulo em que Sluizer põe a platéia é traiçoeiro. Ao mostrar ao público mais do que Rex sabe, o cineasta injeta angústia no espectador, e automaticamente cria empatia entre nós e o personagem. A vontade que temos é de avisar ao atormentado Rex sobre o criminoso. Os rumos que a história toma apenas amplificam, paulatinamente, esta angústia: Rex espalha cartazes pedindo informações sobre Saskia, e o seqüestrador entra em contato, mas sem mostrar a cara. Raymond passa a rondar Rex, colocando-o num jogo de gato e rato e deixando-o num estado de nervos de dar pena. O sofrimento de Rex é tão grande que ele passa a sofrer com pesadelos recorrentes e, cada vez mais obsessivo, vai abandonando tudo para se concentrar na procura pela ex-namorada.

Em paralelo, George Sluizer acrescenta informações sobre o sinistro professor de Química. O cineasta franco-holandês manipula habilmente a cronologia do caso, indo e voltando no tempo de forma inteligente e fluida, sem aviso prévio à platéia. Aos poucos, num misto de repulsa e fascínio, o espectador fica conhecendo o cotidiano pacato do seqüestrador: pai amoroso, marido fiel, homem simpático, e no entanto profundamente obsessivo com detalhes aparentemente insignificantes, que o desviam para um caminho de loucura e violência, mascaradas pelo comportamento pacífico. Aumentando pouco a pouco a voltagem emocional da trama, Sluizer constrói um thriller psicológico sólido, eletrizante, que é ao mesmo tempo um magnífico estudo de dois personagens fascinantes. E o final, quando o filme finalmente responde a grande pergunta (o que aconteceu com Saskia?), é simplesmente inesquecível. Obra-prima.

O filme foi lançado no Brasil pela Silver Screen Collection. A edição, simples e sem extras, é baseada no DVD norte-americano da Criterion Collection, com boa qualidade de imagem (widescreen 1.66:1 anamórfica, embora a capa informe ser tela cheia) e áudio (Dolby Digital 2.0).

– O Silêncio do Lago (Spoorloos, Holanda/França, 1988)
Direção: George Sluizer
Elenco: Bernard-Pierre Donnadieu, Gene Bervoets, Johanna ter Steege, Gwen Eckhaus
Duração: 107 minutos

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