Silêncio dos Inocentes, O

01/01/2008 | Categoria: Críticas

Jonathan Demme larga comédias, surpreende todo mundo e filma o suspense perfeito

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★★

Por que diabos um sujeito bem-humorado como Jonathan Demme, que já tinha dirigido um musical para a banda novaiorquina Talking Heads e feito a comédia “De Caso com a Máfia”, iria se interessar por um projeto mórbido como “O Silêncio dos Inocentes” (Silence of The Lambs, EUA, 1991)? Acertou quem disse que ele não havia se interessado. É isso mesmo. Ao contrário do que muita gente pensa, o filme é um projeto de estúdio. Demme foi apenas contratado pela produtora Orion Pictures para o trabalho. O roteiro, escrito por Ted Tally com base no livro homônimo de Thomas Harris, foi entregue primeiro ao ator Gene Hackman, que iria estrear na direção e protagonizar o filme. Mas Hackman achou o texto muito violento e pulou fora. Demme foi então recrutado, recusou e depois voltou atrás, sob muita insistência.

Sorte nossa. A abordagem de Jonathan Demme acabou gerando um suspense redondo, de narrativa contida, sem falhas. “O Silêncio dos Inocentes” é, com efeito, um thriller psicológico de altíssima voltagem, inteligente e acessível, de ritmo imbatível. E, melhor ainda, trata-se de um filme de personagens. Os dois principais atores em cena, Jodie Foster e Anthony Hopkins, conseguem estabelecer uma empatia quase paranormal. Ambos podem se orgulhar de terem criado personagens que merecem ir diretamente para a galeria dos melhores já criados em filmes de Hollywood. Os dois (mais Demme, Tally e os produtores) ganharam Oscar.

Foster, que já havia ganhado uma estatueta, três anos antes, representa uma estagiária do FBI, Clarice Starling. Ela tem o treinamento interrompido e recebe a dura missão de interrogar o psicopata Hannibal Lecter (Hopkins). A idéia ousada do chefe de Clarice, Jack Crawford (Scott Glenn, excelente), é estimular Lecter para que ele utilize o cérebro privilegiado e examine o caso de um outro serial killer, intitulado Buffalo Bill, que tem raptado e esfolado mulheres gordinhas na região da Filadélfia. Solitária e disciplinada, Clarice mergulha fundo no caso. Lecter, por sua vez, simpatiza com a garota, e aceita colaborar, em troca de sessões psiquiátricas em que ele analisa fatos da infância de Clarice.

“O Silêncio dos Inocentes” rompe com a tradição do filme clássico de perseguição policial a um criminoso desconhecido. Até mais ou menos a metade da trama, o espectador pode pensar assim, e fica exercitando o tradicional raciocínio: quem será o assassino, entre os personagens que conhecemos? Espertamente, Demme nos deixa pensar assim durante metade do filme, mas subitamente a câmera exibe o rosto do criminoso – e assim ficamos sabendo mais sobre ele do que a protagonista, Clarice. O foco, aqui, não está na descoberta do assassino, mas na estranha empatia que se estabelece entre um assassino requintado e uma agente tenaz. De resto, há várias pequenas reviravoltas no enredo, que costura com brilhantismo o enredo, saltando entre as investigações de Clarice e as sessões de “terapia” conduzidas por Lecter.

Os diálogos afiados, especialmente do psicopata, estão entre os trunfos do filme. Cada pequena descoberta da estagiária é valorizada pela dificuldade que ela tem em obter informações, já que os interrogatórios são invariavelmente conduzidos por Lecter – um homem sedutor, que lembra, não por acaso, a personalidade magnética de Drácula. A composição altiva e desafiadora de Hopkins apenas ajuda a tornar a trama mais musculosa. Falando sempre em código e lançando charadas a todo momento, o psicopata tornou-se quase instantaneamente um dos maiores vilões do cinema contemporâneo. Para fechar a conta, a edição eficiente cria transições originais e criativas, muitas vezes responde perguntas formuladas no final de uma cena com a primeira imagem da seguinte.

O melhor de tudo é que “O Silêncio dos Inocentes” fica melhor a cada nova sessão, o que o transforma num dos filmes obrigatórios para colecionadores de DVDs. Isso acontece porque cada frase do psicopata, mesmo quando parece inofensiva, sempre tem duplo sentido. Os espectadores mais atentos (e que compreenderem inglês) vão perceber, por exemplo, que já no primeiro encontro com Clarice, Lecter revela o lugar onde Buffalo Bill mora – embora nem Clarice e nem o espectador se dê conta do que ele está fazendo. Por causa desses detalhes deliciosos, pode-se afirmar com certeza que “O Silêncio dos Inocentes” é, ao lado de “Seven”, o melhor filme policial dos anos 90.

O DVD simples tem conteúdo bastante generoso. A âncora do material extra é um excelente documentário, “Dentro do Labirinto” (62 minutos), que lança mão de imagens de arquivo e entrevistas recentes com muitos dos atores e técnicos envolvidos no projeto para recriar a saga da produção desse suspense antológico. Há informações excelentes, apesar de dois dos maiores responsáveis pelo sucesso da obra – o próprio Demme e a atriz Jodie Foster – não terem dado depoimentos recentes.

Além do documentário, estão no DVD um making of original de 1991 (15 minutos), e nada menos do que 22 cenas cortadas, totalizando 20 minutos. Para quem curte erros de gravação, há uma sessão com três minutos de brincadeiras. Um trailer de cinema e dez chamadas televisivas também marcam presença, além do obrigatório trailer da continuação, o lamentável “Hannibal”. A existência do segundo filme, aliás, é a razão de Demme e Foster terem se recusado a participar do novo documentário, já que a nova edição em DVD do clássico de 1991 só chegou às lojas para aproveitar o lançamento de “Hannibal” (do qual a dupla pulou fora ainda na pré-produção) no formato digital.

De qualquer forma, a nova edição de “O Silêncio dos Inocentes” tem uma série de méritos. O principal deles é a remasterização do som para cinco canais: o filme agora tem o áudio em sistema Dolby Digital 5.1, que realça a brilhante e sinistra trilha sonora de Howard Shore. A restauração da parte visual também é nítida e a imagem apresenta uma melhora considerável em relação à versão anterior. Mas há uma bronca imperdoável com um vacilo da MGM: não há legendas de nenhum tipo no material extra de “O Silêncio dos Inocentes”. Que fora!

– O Silêncio dos Inocentes (Silence of The Lambs, EUA, 1991)
Direção: Jonathan Demme
Elenco: Anthony Hopkins, Jodie Foster, Scott Glenn, Ted Levine
Duração: 114 minutos

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