Silêncio nas Trevas

29/03/2006 | Categoria: Críticas

Produção de 1946 segue os passos de Agatha Christie em thriller com visual expressionista

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★½☆

O fantasmagórico thriller “Silêncio nas Trevas” (The Spiral Staircase, EUA, 1946) une dois formatos distintos do filme policial – a caçada a um serial killer e a clássica investigação no estilo “quem é o assassino?”, que esconde a identidade do criminoso até o último instante – sob um visual vitoriano requintado e estilizado. O maior destaque da produção, contudo, é a presença de uma deficiente física no papel central. Helen, interpretada pela atriz Dorothy McGuire, é uma mulher muda, algo raríssimo nos longas-metragens produzidos nos EUA. E esse detalhe, ao contrário do que pode parecer, é fundamental para o enredo, já que o assassino em questão mata apenas mulheres com defeitos físicos.

O roteiro, escrito por Mel Dinelli com base em uma novela de Ethel Lina White, parece xerocado de um livro de Agatha Christie. Como nas tramas tecidas pela grande dama inglesa do mistério, a história se passa em uma elegante mansão vitoriana, nos primeiros anos do século XX. Helen (McGuire) é a enfermeira que cuida de uma senhora idosa (Ethel Barrymore), no casarão habitado pelos dois filhos da mulher e por alguns criados. Quase todo o filme, com a exceção da seqüência de abertura, se passa dentro desse mundo fechado, com cenas abundantes de interiores.

“Silêncio nas Trevas” abre com um assassinato e, ao mesmo tempo, com uma homenagem aos primeiros tempos do cinema. A primeira moça estrangulada pelo criminoso, em uma cena cuidadosamente coreografada por Siodmak, é morta dentro de uma casa especializada em sessões cinematográficas, uma espécie de pensão que abriga um cinema pré-histórico improvisado montado no andar térreo. Helen está vendo um filme mudo – uma ironia feroz, considerando a condição da garota – quando o crime acontece. Ato contínuo, ela volta para a casa onde mora, sob uma pesada tempestade que irá continuar por toda a noite.

Logo, a polícia descobre que os rastros do assassino após o crime vão até a mansão onde Helen morre. Não que isso surpreenda o espectador, já que antes, em uma seqüência particularmente tensa, podemos ver o vulto ameaçador de um homem acompanhando o trajeto da moça pelos jardins enlameados da mansão. Já sabendo que o suspeito ataca apenas mulheres com defeitos físicos, os policiais passam a acreditar que Helen é a potencial próxima vítima. Só não conseguem prever que o assassino tem intenção de agir naquela mesma noite.

A construção da atmosfera sombria de “Silêncio nas Trevas” é perfeita. Utilizando com muita propriedade os cenários góticos da mansão vitoriana, Robert Siodmak aproveita os amplos espaços escuros para criar seqüências estilizadas, especialmente quando a ação dramática desce até o escuro e úmido porão, iluminado apenas pelas chamas de uma vela. A fotografia esplêndida de Nicholas Musuraca enfatiza os contrastes claro/escuro com muita competência, criando alguns momentos de pavor genuíno quando a perspectiva narrativa muda e a câmera mostra o assassino, dando sempre um jeito de escondê-lo nas sombras. Muito bom.

Porém, ao contrário do que muitos podem pensar, este não é um filme noir. “Silêncio nas Trevas” bebe diretamente da fonte expressionista – não devemos esquecer que o visual noir foi calcado nas experiências alemãs feitas pela mesma geração de Robert Siodmak, nas décadas de 1920 e 1930. Em temática, o longa-metragem difere radicalmente das tramas vulgares e ríspidas que sempre caracterizaram o estilo noir. “Silêncio nas Trevas” é mais Agatha Christie e menos Raymond Chandler. Enfatiza a elegância fleumática dos europeus em detrimento dos detetives chumbados de uísque dos norte-americanos. É mais um filme expressionista e menos um filme noir.

Esse detalhe fica evidente quando percebemos que a câmera de Siodmak esquece a ação do assassino, volta e meia, para observar com interesse as diferenças no estilos de vida dos proprietários da mansão e de seus empregados. Nesse sentido, há uma influência nítida de Jean Renoir, que fora considerado revolucionário, alguns anos antes, ao abordar o mesmo tema na obra-prima “A Regra do Jogo”. O assunto é habilmente inserido pelo diretor alemão dentro da trama, de forma que seqüências sutis, como aquela em que a empregada da mansão furta uma garrafa de conhaque da adega do patrão, se adequam perfeitamente à atmosfera fantasmagórica que o filme transpira.

Há apenas um defeito narrativo evidente em “Silêncio nas Trevas”. Trata-se de um buraco no roteiro que o cineasta não foi capaz de contornar, e que fica rapidamente claro para o espectador atento, pois ocorre no princípio do filme. Observe: quando o inspetor local chega à mansão dos Warren, para alertá-los da presença do assassino, descobre que o criminoso usou uma janela para entrar na casa. No entanto, pouco depois, a narrativa se encarrega de sugerir que o responsável pelos crimes é um dos moradores da mansão, o que é confirmado no final. Neste caso, como possui as chaves da casa, o criminoso não precisaria deixar as marcas de sua presença usando uma janela para invadir o local, certo? Não importa: esqueça o furo menor e curta um filme original e inventivo.

O lançamento em DVD é da Aurora. O disco não possui extras de destaque, resumindo-se a apresentar trechos de críticas e cartazes, mas possui boa qualidade de imagem (restaurada e mantendo o enquadramento original, 1.33:1) e som decente (Dolby Digital 2.0). A cópia é baseada na edição norte-americana, lançada pela Anchor Bay.

– Silêncio nas Trevas (The Spiral Staircase, EUA, 1946)
Direção: Robert Siodmak
Elenco: Dorothy McGuire, George Brent, Ethel Barrymore, Rhonda Fleming
Duração: 83 minutos

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