Simplesmente Amor

02/05/2004 | Categoria: Críticas

Ensolarado longa-metragem inglês narra oito histórias interligadas pelo tema das relações humanas

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★☆☆

Não há como negar que a maior parte das pessoas que pretendem assistir a “Simplesmente Amor” (Love Actually, EUA, 2003) têm uma curiosidade tão boba quanto, até certo ponto, mórbida: saber se Rodrigo Santoro fala. É uma referência à participação muda dele em “As Panteras Detonando”, primeiro filme internacional de que participou, em 2003. Pura crueldade nossa para com Santoro, talvez o primeiro brasileiro homem a ter uma possibilidade concreta de construir uma carreira em Hollywood. Crueldade, também, para com um filme curioso, que consegue ser, ao mesmo tempo, agradável e ambicioso demais.

“Simplesmente Amor” possui uma constelação de astros britânicos (mais alguns norte-americanos, uma portuguesa e, claro, nosso astro brazuca) que devem ajudar a performance do longa-metragem nas bilheterias. O filme precisa desse marketing, porque é a estréia na direção de um roteirista veterano, porém muito mais conhecido no teatro do que no cinema. Richard Curtis escreveu “Quatro Casamentos e Um Funeral” e “Um Lugar Chamado Notting Hill”, o que lhe deu estofo e credibilidade para tentar um vôo mais alto. “Simplesmente Amor” tem parentesco óbvio com os outros dois, mas tenta ir mais longe.

A tese do cineasta, apresentada na ótima abertura do filme, é honesta e sincera: apesar das guerras, da violência e das intrigas, o amor está em toda parte. A tese conclui que em nenhum lugar do mundo é mais fácil perceber isso do que nos saguões dos aeroportos. A partir daí, a trama se subdivide em oito diferentes tramas, que possuem seus próprios protagonistas e, às vezes, se cruzam. Nesse sentido, “Simplesmente Amor” parece funcionar como um negativo de “Magnólia”, que aborda o problema da incomunicabilidade humana sob uma perspectiva pesada. “Simplesmente Amor” vira as coisas ao avesso, transformando o mundo num lugar ensolarado e engraçado, ao contrário da rua cheia de lágrimas elaborada por Paul Thomas Anderson.

Sendo assim, se fossem ditas ao acaso, as oito histórias poderiam dar uma impressão errada ao espectador. Uma delas aborda, por exemplo, as tentativas desesperadas de um homem (Liam Neeson), que ainda sofre a perda da mulher, para conseguir estabelecer laços de empatia com o enteado de 12 anos. Outra enfoca o cotidiano de um escritor (Colin Firth) que vai se refugir no campo, depois de descobrir que a mulher o estava traindo com o próprio irmão.

O enfoque do cineasta, porém, está encharcado do otimismo (bem como o típico charme espirituoso) já presente nos dois filmes anteriores que escreveu. Esse é o típico filme perfeito para casais apaixonados e para uma platéia cansada de temas pesados ou visões cínicas a respeito dos relacionamentos entre as pessoas. Nesse sentido, o roteiro funciona muito bem, ilustrando perfeitamente o ponto de vista sempre ensolarado do cineasta. Mesmo quando acabam mal, as oito histórias de “Simplesmente Amor” parecem ensinar que o amor logo, logo vai voltar a aparecer. Bacana.

Apesar disso, nem tudo são flores. As oito linhas narrativas são desiguais, e para cada trama surpreendente surgem duas outras que doem de tão óbvias. Para ficar nos exemplos descritos acima, a relação do escritor com o enteado segue um rumo surpreendente no início, apenas para tornar-se evidente demais perto do final. Já o enredo que focaliza o escritor pode ser imaginado rapidamente em apenas meio minuto de imagens. Basta um pouco de experiência cinematográfica para transformar “Simplesmente Amor” num exercício de adivinhação que não oferece muitos riscos de erro.

Outro problema pode ser percebido pelas pessoas com um pouco mais de intimidade com a produção cinematográfica. A direção de atores do diretor estreante é fraca. Richard Curtis escreve diálogos muito bem, mas tem um timing característico de teatro. Isso faz com que os personagens estejam sempre dando pausas longas demais entre os diálogos (uma característica que quase sempre estraga as boas piadas) ou movimentando-se, em cena, com uma naturalidade forçada. Em resumo, a platéia jamais esquece que está assistindo a uma encenação, algo que os bons diretores costumam driblar com certa facilidade.

Outro clichê do gênero está na ambientação do filme, com histórias situadas na época do Natal. Isso certamente vai favorecer o longa-metragem nos cinemas (onde estréia justamente em dezembro), mas denota uma certa falta de ousadia para romper com o convencional, algo que nunca é muito bom em comédias. Mas não poderia ser diferente, já que um elenco tão estrelar deve ter custado muito caro, e o filme precisa atrair muitos espectadores para se pagar. E por falar em elenco, se você chegou até aqui, não vai se incomodar em saber que Rodrigo Santoro, dessa vez, fala quatro ou cinco frases curtas – e até aparece de cuecas. Boa notícia para as meninas.

– Simplesmente Amor (Love Actually, EUA, 2003)
Direção: Richard Curtis
Elenco: Hugh Grant, Liam Neeson, Emma Thompson, Colin Firth, Rodrigo Santoro
Duração: 135 minutos

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