Simplesmente Feliz

09/07/2009 | Categoria: Críticas

Mike Leigh nos dá uma visão colorida e surpreendentemente otimista do que significa (ou pode significar) a felicidade longe dos estereótipos que fazemos dela

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★☆

“Tristeza não tem fim/Felicidade, sim”. O conhecidíssimo verso da canção de Vinícius de Moraes faz total sentido para a esmagadora maioria da humanidade. Em resumo, vivemos nossas vidas em ciclos perpétuos de insatisfação/melancolia, pontuados aqui e acolá por momentos contagiantes de alegria. Direcionamos todos os nossos esforços para fazer esses momentos especiais durarem o máximo possível. Alguns têm mais sucesso do que outros nessa tarefa, mas na maior parte das vezes fracassamos (“Nem sempre dá pra ter o que você quer/Mas se tentar, às vezes/Você pode até, quem sabe/Conseguir o que precisa”, seria a resposta irônica de Mick Jagger ao macambúzio Vinicius).

O naturalmente sombrio cineasta inglês Mike Leigh (“O Segredo de Vera Drake”) se debruça sobre esse tema universal em “Simplesmente Feliz” (Happy-Go-Lucky, Inglaterra, 2008), e o faz da maneira mais inesperada possível, alcançando um resultado de enorme expressividade e surpreendente verdade humana, em um dos filmes otimistas (aquilo que os americanos chamam de “feel-good movies”) mais reais e palpáveis de que se tem notícia. Aliás, numa notável exceção a uma regra histórica, o título nacional é de curiosa felicidade (sem trocadilhos), porque define com precisão e economia uma protagonista absolutamente incomum, e cuja construção meticulosa pode, à primeira vista, passar a impressão errônea de superficial, ingênua, avoada/sonhadora ou até mesmo infantil, o que não poderia estar mais longe da verdade.

Poppy (Sally Hawkins, em atuação iluminada que recebeu o Urso de Ouro de melhor atriz em Berlim 2008) é uma professora primária, na casa dos 30 anos, que vive no subúrbio de Londres. É solteira, tem um grupo de amigas que se diverte tomando drinques coloridos no pub local, e gosta realmente do que faz. O filme se debruça com saudável curiosidade sobre o colorido cotidiano dessa moça incomum, dando-nos um panorama original sobre a idéia de felicidade, e observando sem traços de sentimentalismo às reações de diferentes grupos sociais ao tomarem contato com essa pessoa incomum. Embora seja leve e divertido, e por causa disso rotulado como “comédia”, o filme carrega o gene tipicamente inglês do olhar social, da preocupação com o entorno, com o contexto social em que se inserem os habitantes do roteiro.

Em um melodrama clássico, haveria duas trajetórias para onde diretor e roteirista poderiam encaminhar uma personagem como Poppy (belo nome, aliás), que não se enquadra em estereótipos normais de comportamento. Ela poderia nos ser apresentada como uma louca inofensiva, uma doidinha do bem, aquele tipo de pessoa para quem os seres humanos “normais” dirigem um sorriso de lado e seguem em frente, esquecendo-a dois segundo mais tarde. Ou poderia virar uma versão inglesa do arquétipo Amelie Poulain, uma estilização infantilizada de Madre Tereza do Calcutá, que olha o mundo com filtro cor-de-rosa de dentro de um parque de diversões da mente.

Sabiamente, Mike Leigh evita trilhar qualquer dos caminhos convencionais. Através da bela atuação de Sally Hawkins, ele nos dá uma figura naturalmente alto astral, mas essencialmente humana. Uma pessoa 100% ligada do que acontece ao seu redor, e muito consciente do efeito desnorteador que causa nos outros, mas perfeitamente firme em opiniões e atitudes, de modo a não se deixar mudar pelas expectativas que os outros fazem – como Vinicius – da felicidade enquanto afeto alcançável apenas em momentos de epifania. Poppy tem o gene da felicidade, e Leigh nos mostra isso (sem enfatizar demais o tema) numa abertura certeira, em que ela tem a bicicleta roubada durante visita a uma livraria.

A seqüência funciona como uma espécie de microcosmo do filme inteiro. A reação da professora à perda da bicicleta (filmada com a câmera à distância, sem dramaticidade excessiva) encapsula o significado da felicidade para Poppy. Atente, também, para o modo com Leigh dá destaque à reação do atendente da livraria às tentativas de aproximação de Poppy, em uma espécie de antecipação daquele que será o eixo da narrativa – a relação entre a moça e um professor de auto-escola (Eddie Marsan), sujeito rabugento e emocionalmente frágil, contratado para ensiná-la a dirigir após ela se certificar que não vai mesmo recuperar a bicicleta.

“Simplesmente Feliz” não é um estudo de personagem. Mike Leigh não está interessado em desvendar a alma de Poppy. Ele segue a tradição do free cinema inglês (em que a representações sociais têm grande destaque), mas filtrada através de um estilo luminoso e colorido, que reflete a visão de mundo – alegre, vistosa – da protagonista, mas sem deixar de manter um pé na realidade (afinal, como professora de crianças, Poppy vive naturalmente em um universo repleto de cores e motivos lúdicos). O longa-metragem funcionaria como perfeita sessão dupla com outro filme da mesma safra, o francês “Entre os Muros da Escola” (2008), vencedor do Festival de Cannes no mesmo ano. Dois filmes não poderiam ser mais diferentes, e juntos projetarem uma imagem tão conexa da vida social e cultural na Europa deste início do século XXI.

O DVD da Swen Filmes não tem extras, possui áudio em seis canais (Dolby Digital 5.1) e imagens (widescreen 1.85:1 anamórficas) estranhamente cortadas nas laterais, já que a proporção correta do filme, exibido nos cinemas, seria 2.35:1.

– Simplesmente Feliz (Happy-Go-Lucky, Inglaterra, 2008)
Direção: Mike Leigh
Elenco: Sally Hawkins, Eddie Marsan, Alexis Zegerman, Andrea Riseborough
Duração: 118 minutos

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