Simpsons – O Filme, Os

09/01/2008 | Categoria: Críticas

Estilo anárquico da série de TV é mantido intacto, num longa muito melhor do que a média das comédias americanas contemporâneas

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★☆

“Não acredito que estamos pagando por algo que podemos ter de graça na TV”. Essas palavras refletem com exatidão o pensamento dos executivos dos estúdios Fox, diante da possibilidade de fracasso durante o lançamento de “Os Simpsons – O Filme” (Simpsons – The Movie, EUA, 2007) nos cinemas. Sem medo de passar ridículo, porém, os criadores da série criaram um divertido prólogo metalingüístico para a primeira aventura em longa-metragem da família mais amada da cultura pop, e exorcizaram o medo dos engravatados homens de negócio colocando esta frase demolidora na boca de ninguém menos do que Homer Simpson, o patriarca do clã amarelo.

Na cena, que não tem nenhuma relação com a trama aloprada do longa-metragem, o quinteto está no cinema e assiste, em tela larga, às maluquices de Comichão & Coçadinha (para quem não vê o programa, trata-se de um seriado dentro do seriado, o favorito de Bart Simpson). Mas Homer, sempre bonachão e cabeça-dura, não entende a situação. Sem papas na língua, ele se vira para a platéia e comete a maior das heresias, no dicionário dos estúdios de Hollywood. Aponta o dedo direto na cara do espectador e esbraveja: “As pessoas nesse cinema são um bando de idiotas”. Uma estratégia arriscada, que poderia ter dado errado, mas não deu. “Os Simpsons – O Filme” foi um sucesso desde o primeiro fim de semana em cartaz, arrecadando US$ 74 milhões em três dias e superando, em só 72 horas, o que havia sido gasto (US$ 65 milhões) na produção.

A mesma produção, aliás, que rendia notícias desanimadoras aos fãs da série desde 1999, ano em que a Fox registrou oficialmente o domínio online simpsonsthemovie.com. Desde ali, já se sabia que haveria um longa-metragem com os personagens animados mais queridos da TV nos EUA. Mas quando? O tempo ia passando, as idéias que surgiam iam sendo descartadas. Foram necessários onze roteiristas, quatro consultores de roteiro, oito anos de trabalho e nada menos do que 158 rascunhos para que a produção finalmente tomasse forma. Com tanta gente trabalhando na parte criativa, havia o medo de que o filme se tornasse uma colcha de retalhos e não fizesse jus à qualidade da série, sempre firma e certeira na intenção de alfinetar os aspectos mais exóticos, bizarros ou ridículos do american way of life (a censura, a crença de que o aquecimento global é um mito).

Para alegria dos fãs, os temores não se confirmaram. “Os Simpsons – O Filme” pode não ser uma obra-prima do humor satírico, e tem lá sua cota de piadas desgastadas, mas se situa num patamar muito acima da dieta de clichês grotescos da comédia jovem que se pratica nos EUA neste século XXI, sempre repleta de peidos, arrotos, palavrões e fluidos corporais. Além disso, os ótimos momentos cômicos – politicamente incorretíssimos, sem jamais serem apelativos – quase sempre funcionam como crítica social de bom nível. Quer um exemplo? O filme expõe o problema da poluição ambiental sem o ranço de didatismo de obras como “Uma Verdade Inconveniente”, fazendo graça também da habitual carolice dos que defendem modos ecologicamente corretos (a aula-filme de Al Gore é parodiada, muito apropriadamente, como “Uma Verdade Irritante”).

A história, à moda das melhores sátiras sociais (entre as influências estão os filmes do grupo humorístico inglês Monty Python), não se preocupa em estabelecer um arco dramático muito sólido. A trama gira em torno de Homer Simpson, que provoca um acidente ambiental ao atirar dejetos de porco no lago de Springfield. Tornado “a cidade mais poluída da história da humanidade”, o povoado atrai a atenção de uma agência governamental, que decide resolver o problema isolando-a, como um domo de vidro inquebrável gigante, do resto do país. Não há muita lógica no roteiro, com o diretor David Silverman preferindo espalhar piadas e gags em profusão, criando um ritmo alucinado em que é praticamente impossível ficar sem rir por mais do que 30 segundos.

Um dos maiores acertos dos roteiristas é a decisão de não poupar nada ou ninguém das críticas. A própria Fox, que sempre cai na tentação de exibir anúncios durante a exibição dos desenhos na TV (com texto aparecendo numa barra negra na parte inferior do vídeo), foi sacaneada duplamente – na vinheta de abertura e com um falso anúncio que ridiculariza a prática comercialmente reprovável da empresa. A ironia também é dirigida à política – no filme, o presidente dos EUA é Arnold Schwarzenegger (“fui eleito para liderar, não para ler”) – e, claro, ao alvo preferido do desenho: o americano médio, quase sempre alheio aos problemas que ocorrem fora das fronteiras do país e chegado a práticas religiosas no mínimo questionáveis.

Fica claro, aqui, que a maior referência dos produtores foi mesmo o bem-sucedido longa-metragem da série concorrente “South Park”, lançado em 1999. A receita é semelhante, e consiste em acelerar o ritmo da trama como um todo, prestando especial atenção na qualidade das piadas. Com apenas 87 minutos e a participação de algumas celebridades verdadeiras – a banda punk Green Day e o ator Tom Hanks dão as caras, retomando uma tradição do desenho na TV – o filme passa um pouco a sensação de ser um episódio ampliado, mas tudo acontece com uma velocidade estonteante e a boa qualidade das piadas só cai um pouco no segundo ato, quando a família está no Alasca.

Um aspecto que pode desagradar a uma parte dos fãs é a participação relativamente pequena do personagem mais amado do seriado, o pivete Bart Simpson. Mesmo assim, ele protagoniza alguns dos momentos mais engraçados, como uma bebedeira com garrafinhas de uísque de hotel (“eu tenho problemas!”) e uma pescaria pouco ortodoxa com o vizinho pentelho Ned Flanders, com quem ele estabelece uma relação, digamos, paternal, na mais fraca subtrama do longa. Há também certo excesso de paródias, quando o título repete um erro comum nas animações adultas e exagera na quantidade de citações a filmes famosos (“Titanic” e “Independence Day” e o velho “Frankenstein” de 1931 estão entre eles). Fora isso, “Os Simpsons” é comédia direta e simples – e das boas.

O DVD da Fox contém apenas o filme, sem extras. A qualidade de áudio (Dolby Digital 5.1) e vídeo (widescreen anamórfico) é boa.

– Os Simpsons – O Filme (The Simpsons Movie, EUA, 2007)
Direção: David Silverman
Animação
Duração: 87 minutos

| Mais


Deixar comentário