Sin City – Cidade do Pecado

12/12/2005 | Categoria: Críticas

Experiência radical com uso de preto-e-branco cria pesadelo noir de visual impressionante

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★☆☆

Você pode achar “Sin City – Cidade do Pecado” (EUA, 2005) o melhor filme que já viu. Também pode achar que o longa-metragem de Robert Rodriguez e Frank Miller é péssimo. Bonito, fascinante, extravagante, horrível, escuro, confuso, nojento, desbocado. Qualquer que seja a sua opinião a respeito da produção, pelo menos em um ponto você vai ter que concordar: “Sin City” é único no seu gênero e aponta em uma direção inédita no cinema. Trata-se de um pesadelo noir ultra-estilizado e levado às últimas conseqüências visuais.

O mundo digital em preto-e-branco traz os mais radicais trabalho do expressionismo alemão (pense em “O Gabinete do Dr. Caligari”) para os Estados Unidos do século XXI. É o passado, o presente e o futuro, tudo misturado em uma dimensão alternativa que pertence só a ele. Trata-se de uma experiência cinematográfica inesquecível. Mesmo que você odeie cada um dos 124 minutos de projeção, precisa admitir que nada parecido foi produzido em celulóide, nos mais de 100 anos de cinema que vieram antes dele.

O projeto de “Sin City” nasceu da cabeça de um dos cineastas mais inventivos e independentes dos EUA. Robert Rodriguez é apaixonado por cultura pop, grande amigo de Quentin Tarantino e dono de um bunker particular, um mini-estúdio de cinema, que lhe permite fazer um filme praticamente sozinho, se assim o desejar. Por isso, ele foi capaz de transformar em filme três histórias de uma das séries de quadrinhos mais admiradas do planeta. Qualquer um que já tenha posto os olhos em uma página de “Sin City”, a série de Frank Miller, deve ter imaginado que seria impossível filmar aquilo com fidelidade. Pois “Sin City” é, sem pestanejar, o filme mais fiel já produzido com base em uma HQ. Se era impossível filmar o mundo em preto-e-branco de Frank Miller, esqueceram de avisar a Robert Rodriguez.

A sombria visão de mundo de Frank Miller está íntegra no celulóide. É uma visão de mundo desesperada, caótica, e também extravagante e curiosa, flertando muitas vezes com o kitsch e o ridículo. Irregular, sem dúvida. Há pelo menos uma dúzia de personagens importantes nas três histórias principais narradas no longa-metragem, mas via de regra o verdadeiro protagonista das histórias é a cidade do título. Um mundo apocalíptico, dividido em seres bons e maus, sem áreas de sombra – exatamente como os desenhos, radicalmente pintados em negros profundos e brancos virginais. Os carros e sobretudos usados pelos personagens sugerem que esse mundo se situa em algum lugar dos anos 1930, mas as mulheres usam piercings no umbigo e calcinhas fio-dental, são atrevidas e musculosas.

Os homens de Frank Miller são versões hiper-reais dos heróis de Raymond Chandler e Ross Macdonald, dois dos grandes escritores noir: violentos, debochados e viris. A linguagem repleta de ironia, no entanto, é também suja e desbocada. Eles têm estilo, mas são mundanos, como se tocassem jazz com guitarras de segunda categoria. Os vilões são pervertidos elevados à enésima potência, o que inclui canibalismo e pedofilia. Os heróis, do outro lado, são também assassinos brutais e impiedosos, mas servem a uma causa maior: a lealdade. Podem ser ainda mais violentos e sádicos do que os bandidos, mas jamais apelam para a força bruta por motivos inócuos. É a vingança que move o mundo de Sin City, a cidade depravada, onde sempre é noite. Sin City é a sombra e a escuridão.

São as mulheres, contudo, o elo mais significativo para entender o universo de Frank Miller. Elas são mais do que as mulheres fatais dos antigos filmes noir; a inspiração vem de lá, mas elas também vivem em uma hiper-realidade sombria, como valquírias do inferno, vivendo num Olimpo em negativo. Elas refletem a visão misógina que o mundo masculino do século XXI tem das mulheres; são deusas belíssimas, perfumadas, donas de corpos sensacionais. E prostitutas. Inatingíveis, mulheres que estão ali para serem vistas e amadas, mas permanecem inalcançáveis, um tesouro que nenhum homem ousa tocar.

Para pôr tudo isso em celulóide, Robert Rodriguez se lançou a uma tarefa aparentemente simples. Basicamente utilizou os quadrinhos de Frank Miller como storyboards, copiando quadro a quadro os desenhos do artista em enquadramentos bizarros. Rodriguez perseguiu, com fidelidade canina, o mundo de sombras criado por Miller. Para isso, filmou quase todas as seqüências com os atores atuando em uma sala verde. Depois, contratou empresas de efeitos digitais para recriar os cenários, pintando-os por trás dos atores. Dessa maneira, conseguiu cobrir tudo com grandes áreas negras. Simples assim.

O resultado final é assombroso. “Sin City” tem um visual único, maravilhoso, espetacular mesmo. O mundo monocromático de preto e branco ganha, aqui e acolá, uma cor que ilumina o ambiente: um vestido vermelho, um carro azul, um homem amarelo. Os olhos de um personagem são verdes; o cabelo de outro é louro. O sangue, às vezes, é vermelho. Para não dizer que a fidelidade de Rodriguez aos gibis é absoluta, o uso das cores é mais abundante e foge à regra dos quadrinhos, já que Frank Miller é mais econômico e só usa cores primárias. A rigor, Rodriguez usou a mesma técnica das primeiras experiências com cor, como que homenageando o lendário curta-metragem “O Grande Roubo do Trem”, de Edwin Porter, feito em 1904: os fotogramas são pintados à mão, um a um. O resultado é sensacional.

“Sin City” não é sobre policiais violentos, políticos corruptos e prostitutas de couro negro. Não é sobre sexo e morte, embora as duas pulsões guiem as ações de cada um dos personagens do filme e dos gibis. “Sin City” é sobre estilo. Sobre visual sombrio e sobre palavras duras. Por isso, Robert Rodriguez soube manter as três histórias escolhidas em narrativas razoavelmente lineares, contadas em três segmentos distintos de filme, com um prólogo (retirado de uma quarta história) e um epílogo (inédito).

O link que une as três histórias é um bordel em Basin City (apelido: Sin City). É lá, em uma noite qualquer, que os três protagonistas se encontram. Cada um está vivendo a sua própria aventura. Marv (Mickey Rourke) tenta investigar a misteriosa morte de Goldie (Jaime King), uma prostituta de luxo por quem estava apaixonado. Jackie Boy (Benicio Del Toro) também está lá, esperando para ir encontrar uma ex-namorada que trabalha como garçonete. Dwight (Clive Owen) se acoloveta em uma mesa, esperando a mesma garota. Hartigan (Bruce Willis) entra no bar procurando outra mulher. Eles não se conhecem, mas os destinos se cruzam em uma noite cheia de sangue. Cada um vive uma escalada particular de violência, algo que é corriqueiro naquela cidade.

Cada história tem cerca de 40 minutos. Depois do curto segmento de “A Dama Fatal”, que precede os créditos (observe que não há crédito para diretor de fotografia, algo inédito), há um prólogo de “O Assassino Amarelo”, mas essa história só será retomada na meia hora final. Por isso, a primeira história é mesmo “Cidade do Pecado”. O conto tem o melhor protagonista e a trama mais confusa. Mickey Rourke é, também, o maior destaque do elenco multipremiado. Com o rosto coberto de esparadrapo e cicatrizes, Marv é um brutamontes que sabe conviver com a dor, mas não com a solidão. Há um certo excesso de personagens, mas há também uma seqüência de ação insana, talvez a mais bacana de um filme em 2005: a fuga de Marv do local de um crime que ele não cometeu.

“A Grande Matança”, que vem a seguir, apresenta a seqüência de diálogos mais brilhante do filme. Ela foi dirigida por Quentin Tarantino e se passa dentro de um carro, enquanto um verdadeiro arco-íris de cores cruza os rostos dos dois homens que conversam. É uma cena repleta de humor negro, assustadora e engraçada ao mesmo tempo. Também é a melhor história para conhecer o verdadeiro poder das mulheres de Basin City. Miho (Devon Aoki) tem potencial para virar um verdadeiro ícone de luxúria para garotos vidrados em mulheres violentas.

Já “O Assassino Amarelo” encerra o filme com absoluta firmeza. O conto mais bizarro ambientado em “Sin City” possui uma aura de irrealidade que encaixa à perfeição no universo de Frank Miller. O triângulo amoroso insano que se estabelece na última meia hora reúne senso de absurdo e solidão em doses exatas. É uma história com menos humor. O misterioso homem fétido do título representa o melhor uso de cor em todo o longa-metragem. E o policial Hartigan é o personagem mais torturado e mais simpático de todos. Pena que Bruce Willis não convence no papel de um sujeito de mais de 60 anos que sofre de angina. Se Clint Eastwood tivesse sido escalado aqui, seria o toque perfeito em um dos filmes mais vibrantes que o cinema já ousou fazer.

Como toque final, é preciso dizer que, no campo da linguagem verbal, os personagens de Frank Miller se comportam como os antigos detetives noir: falam pouco e pensam muito. Por isso, se os diálogos são econômicos e as frases curtas, as narrações em off (cada protagonista másculo narra a sua história, segundo o seu próprio ponto de vista) se encarregam de transformar o filme em uma verdadeira metralhadora verbal. Por isso, se você domina o inglês razoavelmente, procure dispensar as legendas – que são muitas – e se concentrar na experiência visual estonteante. Se você não domina a língua inglesa, a dica é assistir ao filme uma segunda vez, apenas para prestar atenção às imagens impressionantes. Sem o virtuosismo visual, “Sin City” seria apenas um bom filme. Com ele, se transforma em clássico instantâneo.

Para não dizer que o filme de Robert Rodriguez é perfeito, há duas falhas que poderiam ser evitadas. A primeira é a confusa interligação entre as três histórias, que deveria ter sido elaborada com mais cuidado; nesse ponto, “Short Cuts”, de Robert Altman, continua a ser a grande referência. Do modo como foi editado, “Sin City” não tem uma cronologia facilmente perceptível. É difícil saber o que é presente, passado e futuro no tempo do filme, e como as três histórias se inteligam nessa cronologia. A edição não funciona bem, embora esse seja um problema que pode ser creditado aos produtores, uma vez que o público-alvo do longa (os adolescentes) não prestaria mesmo muita atenção a algo tão subjetivo.

O segundo defeito é o excesso de narração em off, um problema certamente gerado pelo rigoroso apego aos originais em quadrinhos. Rodriguez esqueceu que a falta de movimento, nas HQs, exige que o narrador explique, com palavras, certos quadros desenhados. Essas palavras ficam repetitivas quando são acompanham imagens de significado óbvio. Um exemplo: a frase “eu posso usar um pedaço de vidro para cortar a corda”, enunciada por certo personagem numa cena de filme, é acompanhada por imagens do sujeito agarrando um caco de vidro e serrando as cordas que amarram-lhe os pulsos; ou seja, esse trecho narrado poderia ser eliminado sem prejuído para o entendimento da ação. Essa atitude daria mais tempo para o espectador se concentrar nas imagens impressionantes que o filme exibe, e que são decerto seu maior trunfo.

Em DVD, o filme perde um bocado do seu impacto, que é eminentemente visual.A Buena Vista lançou, para locação, uma versão simples, contendo apenas o longa-metragem (imagem em wide anamórfico, som em Dolby Digital 5.1) e um curto segmento de bastidores.

– Sin City (EUA, 2005)
Direção: Robert Rodriguez e Frank Miller
Elenco: Mickey Rourke, Bruce Willis, Clive Owen, Benicio Del Toro, Brittany Murphy
Duração: 124 minutos

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