Sinais

01/01/2008 | Categoria: Críticas

Filme de M.Night Shyamalan assusta (apesar de falhar no ato final) ao abordar temática da vida alienígena

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★☆

O imponderável é presença constante nos filmes do diretor M. Night Shyamalan. Depois de lidar com fantasmas em “O Sexto Sentido” e com super-heróis em “Corpo Fechado”, o cineasta escolheu os extraterrestres como tema do esperadíssimo “Sinais” (Signs, EUA, 2002). Ou melhor, como subtema. Porque a verdadeira temática da película, segundo o próprio diretor, reside na questão da fé. Esse detalhe, porém, não dá ao espectador uma idéia muito precisa do que o aguarda. Então anote aí: pessoas que não gostam de sentir medo devem ficar longe de “Sinais”.

O filme, elogiado por crítica e público nos EUA, realiza um trabalho admirável de reciclagem do surrado assunto dos ETs. Para dar um toque pessoal ao trabalho, Shyamalan vai na contramão dos clichês recentes da ficção científica. Ele segue a cartilha estabelecida por Alfred Hitchcock – criar suspense através não daquilo que é mostrado pelas câmeras, mas justamente através do que está escondido – com absoluto senso de controle. A estratégia ajuda a plantar a dúvida na cabeça do espectador: os estranhos fenômenos vistos no filme são mesmo provocados por extraterrestres? Seria algo ainda mais misterioso, sobrenatural? Ou apenas um truque elaborado?

Essa dúvida permanece durante metade da projeção. Para acompanhar o enredo sem perder o gosto de surpresa, o espectador precisa se contentar com um fiapo de trama. O ex-pastor Graham Hess (Mel Gibson, fraco nos trechos mais dramáticos e ótimo nos momentos de humor) acorda, certa manhã, e se depara com círculos perfeitos e gigantescos que rasgam a plantação de milho da fazenda onde vive, numa pequena cidade da Filadélfia. Ele conhece truques semelhantes, muito populares na década de 70. De início, desconfia de vizinhos. Só que, associados a isso, surgem outros indícios de que há algo estranho no ar. Os animais domésticos andam agitados. A filha pequena de Hess, Bo (Cherry Jones), sente um gosto estranho na água. E, pior, os círculos não aparecem somente na fazenda, mas em centenas de outras cidades do mundo (inclusive na gaúcha Passo Fundo, cenário de um acontecimento-chave da trama). Isso tudo praticamente ao mesmo tempo.

Partindo dessa premissa simples, Shyamalan realiza um filme extremamente tenso, de atmosfera opressora. “Sinais” mostra-se angustiante já a partir da fotografia granulada, pesada, que remete ao filme anterior do cineasta, “Corpo Fechado”, possuidor da mesma característica. A sensação de desorientação que persegue o espectador é a mesma experimentada pelo protagonista. Para compreender essa situação, contudo, é preciso conhecer mais um detalhe: Hess é um ex-pastor evangélico que entrou em crise após a morte da esposa, num acidente de carro aparentemente banal. O fato o fez perder a fé em Deus, abandonar a igreja e dar o pontapé inicial num processo de desagregação familiar que o deixa profundamente afastado de Bo, do primogênito Morgan (Rory Culkin) e do irmão mais novo, Merrill (Joaquin Phoenix, muito bom).

Isolados do mundo, os Hess acompanham os acontecimentos ao redor do planeta através de uma televisão velha. Eles buscam respostas onde seria possível encontrá-las, dentro do mundo fechado em que vivem: um livro sobre ETs, rádios de pilha e uma antiga babá eletrônica. Nesse ponto reside o grande trunfo do filme: o rigor formal. Shyamalan mostra toda a ação da perspectiva da família, sem jamais abrir o escopo. O espectador compartilha da desorientação da família e entra inteiramente no clima claustrofóbico da película. A raiva inicial dos Hess dá lugar à incredulidade, e logo depois ao medo. Nesse instante, entra em cena a questão da fé. E é nesse momento, também, que o filme mostra seu calcanhar de Aquiles.

Na maior parte do enredo, enquanto se concentra nos supostos extraterrestres, “Sinais” assusta de verdade. As visitas noturnas à plantação e a ampliação do esquadro do acontecimento, dada a partir de fragmentos de noticiário de TV, são suficientes para fazer coração de cardíaco falhar, enquanto a seqüência-clímax, com a família fechada dentro do porão com um par de lanternas de pilha, deixa a platéia à beira de um ataque de nervos. O diretor anglo-indiano ainda mostra um fino senso de humor, caprichando nos diálogos e aliviando a tensão nos momentos em que ela parece insuportável. Equilibrando o filme nessa linha fina, entre o humor e o suspense, Shyamalan mantém a dúvida na cabeça de todos até perto do final.

Infelizmente, ao contrário do que ocorre em “O Sexto Sentido” e “Corpo Fechado”, o cineasta escorrega no fim, tentando criar uma lição de moral espiritualista que, embora coerente com a obra pregressa de Shyamalan, soa primária e panfletária. Para fazer justiça, é preciso dizer que o encerramento da película parece coerente com a questão levantada por Graham Hesse na cena-chave do filme, em que ele divide a humanidade em dois grupos distintos. Em “Sinais”, Hess – nítido alter-ego do diretor – faz uma flagrante opção por um desses grupos. Pelo menos Shyamalan deixa ao espectador a opção de discordar dele e filiar-se à outra turma.

Se você curte material extra em DVD, vai gostar de dar uma olhada no disco, que possui uma galeria de cenas excluídas, uma compração entre os detalhados storyboards e duas cenas importantes, e ainda um pequeno curta-metragem sobre alienígenas que Shyamalan criou em casa, na adolescência. Um documentário (58 minutos) completa o pacote, tudo com legendas em português. O filme em si tem imagens em widescreen anamórfico e som Dolby Digital 5.1.

– Sinais (Signs, EUA, 2002)
Direção: M. Night Shyamalan
Elenco: Mel Gibson, Joaquin Phoenix, Rory Culkin
Duração: 108 minutos

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