Sinal, O

16/01/2008 | Categoria: Críticas

Belo noir argentino limita-se a reciclar, com enorme competência, todas as características do gênero

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★½☆

Pouquíssimos atores encarnam tão fortemente a filmografia de um país como Ricardo Darín. Pense no cinema argentino contemporâneo e a primeira imagem que virá à mente, sem dúvida, é o rosto anguloso do ator. “O Sinal” (La Señal, Argentina/Espanha, 2007) marca a estréia dele como diretor. Não é uma estréia comum. Trata-se de um filme de gênero, e um gênero que não tem qualquer tradição no cinema da América Latina: o film noir. Curiosamente, a produção consegue ser extremamente fiel aos elementos estéticos e narrativos característicos do noir, e ao mesmo tempo garantir uma identificação forte com a cultura argentina, ao usar como pano de fundo um momento histórico imprescindível para entender o século XX no país sul-americano.

A trama se passa no ano de 1952, na fase em que Evita Perón, a mitológica primeira-dama, definhava de câncer rumo a uma morte dolorosa. Durante alguns meses, a população portenha acompanhou pelas rádios, sob tensão violenta, o tratamento médico sem esperanças de Evita. Discursos inflamados da “mãe dos descamisados” eram repetidos diariamente pelas emissoras radiofônicas. Multidões com velas acesas faziam vigílias silenciosas nas ruas. Nesta atmosfera fúnebre de velório, “O Sinal” conta a história de um detetive particular que se envolve num caso intricando envolvendo brigas de gangues, assassinos de aluguel, mulheres misteriosas, chantagem e mentiras. Como se vê, um típico enredo noir.

Na verdade, Darín acabou na direção do longa-metragem por acidade. Ele acompanhou a gênese do projeto, acalentado durante anos pelo amigo romancista e cineasta Eduardo Mignone. A um mês das filmagens, Mignone morreu. Como era a pessoa mais próxima dele, Darín foi instado a assumir a cadeira de diretor. Ele chamou um amigo curta-metragista, Martín Hodara (que assina como co-autor), e foi em frente. O resultado é muito bem feito, embora não traga virtualmente nenhuma novidade ao gênero noir, limitando-se a reciclar, embora com enorme competência, todas as características do gênero.

A parte visual, em particular, alcança um resultado próximo ao sublime. A direção de arte e o figurino garantem uma reconstituição de época sensacional – e Darín ainda abusa dos planos gerais em ambientes abertos, de modo a ressaltar ainda mais a verossimilhança. A fotografia de Marcelo Camorino é expressionista, cheia de sombras e iluminação coalhada de sombras. Camorino usa e abusa de ângulos baixos e utiliza uma palheta de cores discreta, sóbria, conseguindo um resultado bem estilizado, quase preto-e-branco, como convém a um legítimo noir. A música, repleta de melodias de cordas, também cita o noir clássico com competência.

Embora tudo esteja no lugar, é através das atuações espontâneas do elenco que o cinema argentino tem se destacado, e “O Sinal” honra a tradição. Julieta Díaz compõe uma femme fatale sólida, com um permanente ponto de interrogação no rosto, e Diego Peretti (como o sócio de Darín, que tenta lhe aconselhar a se manter emocionalmente neutro enquanto este se apaixona pela mulher errada) também está excelente. A rigor, toda a primeira metade da história é muito boa. Os personagens são desenvolvidos a contento, com detalhes minuciosos (o pendor de Corvalán, o protagonista, pela música) e a dose exata de intriga e mistério, sem que seja possível antecipar para onde a trama vai rumar.

A partir do momento em que a identidade da mulher misteriosa é finalmente revelada, o filme enfraquece. É quando o roteiro se limita a repetir pontualmente as situações-chave das narrativas noir, em meio a citações (“Pacto Sinistro”, de Hitchcock, nas cenas no parque de diversões, e até o noir contemporâneo “Los Angeles – Cidade Proibida”, nos figurinos femininos), de forma que o espectador consegue antecipar a resolução com muita antecedência. De qualquer forma, “O Sinal” é um exercício de estilo competente, que foi muito bem recebido na Argentina – sucesso de público e crítica – e tem potencial para fazer a festa dos nostálgicos do estilo.

– O Sinal (La Señal, Argentina/Espanha, 2007)
Direção: Ricardo Darín e Martín Hodara
Elenco: Ricardo Darín, Diego Peretti, Julieta Díaz, Andréa Pietra
Duração: 98 minutos

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