Sintonia de Amor

14/09/2005 | Categoria: Críticas

Comédia romântica simpática de Nora Ephron só é grande programa para namorados

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★☆☆

Qualquer comédia romântica que tenha os créditos iniciais apresentados ao som de “As Time Goes By” oferece, logo de cara, uma má impressão a um espectador minimamente versado no gênero. Todo mundo sabe que a música foi imortalizada no mega-clássico “Casablanca”, por ser a música da vida do par formado por Ingrid Bergman e Humphrey Bogart. Pois é dessa forma, previsível apesar de agradável, que começa “Sintonia de Amor”, a comédia limpinha, certinha e bobinha com que Nora Ephron conquistou seu lugar entre os cineastas de ponta do estilo nos anos 1990.

Nora Ephron, diga-se de passagem, não é uma diretora que tem uma vida social muito ativa em Hollywood. Não tenho idéia de como ela se parece. Mas posso dizer que, baseado nos filmes que assisti e que ela dirigiu (ponha na conta “Mens@agem para Você” e “A Feiticeira”, e desconte o ótimo “Harry e Sally”, que ela só escreveu), formei uma imagem mental da mulher. A Nora Ephron da minha cabeça é aquela tia solteirona, de meia idade, que não namora desde a juventude, usa roupas compradas 20 anos antes, gosta de tomar chá gelado enquanto ouve um bolero e tem horror a tudo que ameace tirá-la da existência medíocre e atemporal que leva.

Por que os filmes dela passam essa impressão? Simples: porque são filmes à moda antiga, filmes que parecem se passar numa dimensão idealizada que só existe na TV e no cinema. Mesmo as comédias românticas clássicas de Hollywood, feitas nos anos 1930/40 por gente como Howard Hawks, eram três vezes mais ousadas, viscerais e energéticas do que os filmes de Nora Ephron. É até inconcebível que um filme feito nos anos 1990 transpire tanta carolice quanto “Sintonia de Amor”. Aliás, para ser preciso, a ingenuidade fake de Nora Ephron foi até piorando, pois “A Feiticeira” foi feito 12 anos depois e é ainda pior nesse sentido.

“Sintonia de Amor” fez bastante sucesso quando foi lançado nos cinemas, mas não durou muito tempo na memória afetiva da audiência. Posso apostar que o fenômeno se deve exatamente ao excessivo pudor do filme, um elemento que pode até parecer simpático e encantador no começo, mas logo se torna chato e conservador demais para ser levado muito a sério. De qualquer modo, este é um filme que pode ser o filme perfeito para você, dependendo do contexto em que você o assiste. Um casal apaixonado ou um par de namorados pode garantir um par de horas muito agradáveis na companhia de Meg Ryan e Tom Hanks, um casal com inegável química quando estão juntos.

Pena que eles quase não contracenem em “Sintonia de Amor”. Hanks faz Sam, um arquiteto viúvo que sofre por não conseguir esquecer a esposa que se foi. Ele mora em Seattle (EUA), com o filho pequeno, Jonah (Ross Malinger), numa pequena casa situada num cais à beira-mar. O cenário é perfeito para noites românticas, mas o insone Sam não o aproveita. Uma noite dessas, deprimido com o bode do pai, Jonah liga para um programa radiofônico de auto-ajuda e expõe a solidão do pai em rede nacional, inclusive com entrevista ao vivo.

Do outro lado do País, em Oklahoma, a jornalista Anne Reed (Ryan) ouve a constrangedora fala de Sam e se apaixona quase instantaneamente. A partir daí, o filme se esmera em mostrar os esforços de Anne para esquecê-lo (e, depois, para encontrá-lo), enquanto se concentra em ilustrar como o arquiteto faz força para agradar o pirralho e encontrar uma namorada. O filme capricha em enfatizar conceitos como o da alma gêmea, ou o da coincidência, para que um amor dê certo.

O ponto de vista de “Sintonia de Amor” é inteiramente feminino. Embora o personagem principal seja um homem e ele tenha mais tempo em cena, toda a narrativa acontece de acordo com a maneira como Anne Reed ver a situação. Essa característica, obviamente, reflete os valores femininos do roteiro, que ganhou forma final pelas mãos da própria diretora. Os protagonistas são simpáticos, e o texto se esforça bastante para mostrar como compartilham, sem que o saibam, do mesmo senso de humor, o que faz deles um casal perfeito. Em outras palavras: o cenário é preparado de forma que a platéia saiba que eles se dariam bem, e portanto para que torça alucinadamente para que tudo dê certo e eles acabem juntos.

A parte técnica tem um grande acerto, que é a fotografia discreta e elegante do sueco Sven Nykvist, colaborador do grande Ingmar Bergman por muitas décadas. Por outro lado, “Sintonia de Amor” padece do mal de ter canções em demasia. A intenção é até boa: utilizar standards do jazz norte-americano para pontuar os sentimentos e situações vividos pelos dois protagonistas. Ocorre que Nora Ephron utiliza tantas músicas que os “momentos musicais” se acumular em prejudicam a fluidez da narrativa.

O lançamento do filme foi efetuado no Brasil pelas mãos da Columbia. É uma edição simples, básica, contendo unicamente o filme. O formato de imagem é o original (widescreen 1.85:1), e o som apenas Dolby Digital 2.0. Nos EUA, a edição tem comentário em áudio da diretora e documentário.

– Sintonia de Amor (Sleppless in Seattle, EUA, 1993)
Direção: Nora Ephron
Elenco: Tom Hanks, Meg Ryan, Bill Pullman, Ross Malinger
Duração: 100 minutos

| Mais


Deixar comentário