Sleepless

26/01/2006 | Categoria: Críticas

Dario Argento investe nas obsessões que marcaram sua carreira em giallo acima da média

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★☆☆

Após viver uma fase criativa durante aproximadamente 15 anos, entre meados dos anos 1970 e a metade da década seguinte, o diretor italiano Dario Argento caiu de vez no gueto dos cineastas de horror B, repetindo-se em excesso e demonstrando falta de inspiração. É fato que o cineasta, filho de mãe brasileiro, sempre mostrou obsessão por certos elementos que se repetem nos seus filmes, mas a partir de “Phenomena” (1985) o nível cinematográfico dos trabalhos dele caiu bastante, padecendo de novas idéias. “Sleepless” (Non Ho Sonno, Itália, 2001) não é um grande filme, e volta a investir nas obsessões de sempre do diretor, mas tem qualidade acima da média.

Para começar, na época do lançamento “Sleepless” ganhou muitos elogios dos aficionados de Argento, pelo simples fato de marcar o retorno do cineasta ao giallo, subgênero do suspense típico do cinema da Itália, que marcou os primeiros filmes da carreira do diretor. Em linhas gerais, todo giallo possui um assassino de identidade desconhecida, que usa luvas de couro negro e mata usando métodos pouco convencionais. Em “Sleepless”, uma das vítimas do criminoso é morta com cacetadas desferidas com um instrumento musical. A violência gráfica e as cenas de nudez são detalhes típicos dessas produções, e não fazem falta aqui.

Para fazer o filme, Argento reexaminou sua obra anterior e trouxe os elementos mais característicos dela. A banda progressiva Goblin foi reunida exclusivamente para compor a trilha, criando linhas instrumentais aterrorizantes a partir de melodias infantis (uma marca registrada do italiano, que já aparecia em “Suspiria”, de 1976, por exemplo). Outro aspecto que retorna é o uso abundante de câmera subjetiva, com longas seqüências que simulam o ponto de vista do assassino, especialmente durante os crimes. Aliás, a seqüência inicial, que mostra o criminoso matando uma prostituta após uma perseguição de trem, abre o filme de maneira contagiante.

O elemento recorrente mais importante de “Sleepless” é o uso da memória como elemento-chave para a resolução do mistério. Nesse ponto, “Sleepless” aproxima-se bastante da estréia de Argento, “O Pássaro das Plumas de Cristal” (1970). Naquele filme, o protagonista era a testemunha de um dos crimes e tinha certeza de que havia visto algo que passara despercebido, uma visão que se revelava fundamental na revelação da identidade do assassino; em “Sleepless”, o protagonista é Giacomo (Stefano Dionisi), filho da vítima do criminoso e testemunha da morte da mãe. No momento do crime, Giacomo ouviu um som esquisito, e forçando a memória esse detalhe virará peça importante na investigação.

Como a maior parte dos filmes de Argento, a trama é simples, quase simplória, narrando a busca por um assassino que matou 17 anos e que se acreditava estar morto. No presente, ele parece ter voltado a atuar. Na verdade, o enredo serve apenas de pretexto para que o cineasta exercite seu virtuosismo visual, com uso de cores fortes e algumas tomadas refinadas – o melhor momento do filme é uma cena de assassinato dentro de um teatro, em que a câmera percorre um longo corredor focalizando apenas um tapete e os pés dos passantes, e finaliza dando um susto no espectador. Trata-se de um dos momentos mais criativos do cinema de Argento.

Por outro lado, “Sleepless” deixa evidente o desleixo do cineasta para com as interpretações dos atores. Todo o elenco jovem é fraco, e até o tarimbado ator sueco Max Von Sydow, que interpreta um policial aposentado, parece desconfortável diante das câmeras. Além disso, Argento retorma um hábito pouco recomendável do cinema italiano (ver os filmes de Sergio Leone), que é deixar que cada ator fale nos sets sua língua original, para depois dublar todo o filme em estúdio. Mesmo que já o espectador esteja acostumado com a técnica, vai achar estranho ver que os jornais mostrados no filme são italianos, enquanto as cartas do assassino estão escritas em inglês.

Todos esses detalhes enfraquecem o filme, mas não são muito importantes no todo. Afinal, o cinema de Dario Argento é bastante personalista e não costuma agradar a todo mundo. Em geral, os fãs do italiano são fanáticos e costumam venerar cada um dos seus filmes, enquanto aqueles que não gostam dele certamente vão passar longe. A verdade é que, se fosse feita uma escala de qualidade com a obra do diretor, “Sleepless” estaria situado bem no meio dela – não é um dos piores e nem um dos melhores longas-metragens dele.

O lançamento brasileiro em DVD foi feito pela Califórnia Filmes. O disco é apenas regular. Contém o filme em formato letterbox 4×3, que preserva o enquadramento original 1.78:1 (porém com menos qualidade do que o wide anamórfico) e som Dolby Digital 5.1. Não há extras dignos de nota. Há uma edição nos EUA com documentário, comentário em áudio e imagens restauradas.

– Sleepless (Non Ho Sonno, Itália, 2001)
Direção: Dario Argento
Elenco: Max Von Sydow, Stefano Dionisi, Chiara Caselli, Roberto Zibetti
Duração: 110 minutos

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