Quem Quer Ser um Milionário?

13/11/2009 | Categoria: Críticas

Bollywood encontra o cinema estridente de Danny Boyle, com resultado esteticamente controverso e claro potencial de engajamento dramático

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★½☆

O cinema hiperativo do diretor britânico Danny Boyle parece ter sido talhado à perfeição para platéias jovens, movidas basicamente por uma vontade inabalável de quebrar regras à velocidade da luz. Na ficção futurista “Sunshise” (2007), Boyle até pareceu perto de abraçar um estilo um pouco mais tranqüilo, interessado menos na forma e mais no conteúdo. “Quem Quer Ser um Milionário?” ( Slumdog Millionaire, Reino Unido/EUA, 2008) deixa de lado esse semblante maduro para injetar volúpia e energia cinética numa clássica história de amor em três tempos, localizada nas favelas populosas da Índia. O filme agrega ao universo estridente de Boyle – um caleidoscópio de cores, sons e movimentos cuidadosamente planejados para atingir a platéia com o máximo de impacto – um pouco do estilo naturalmente exótico de Bollywood. O resultado é um Frankenstein cinematográfico que, controvérsias estéticas à parte, parece ter potencial de engajamento dramático bem acima da média.

O projeto original surgiu, na verdade, com o roteirista Simon Beaufoy (“Ou Tudo ou Nada”). O dramaturgo buscou inspiração numa romance popular na Índia, sobre um jovem favelado que ganha 20 milhões de euros num programa de perguntas e respostas na TV, similar ao nosso “O Show do Milhão”. Beaufoy fez três visitas às metrópoles indianas, passeou pelas favelas e tentou capturar um pouco da cultura de vida de quem habita esses lixões subumanos. Através de duas produtoras que estavam por trás do projeto, o roteiro chegou às mãos de Boyle, que o transformou em filme. O britânico teve a ajuda do dramaturgo indiano Loveleen Tandan, contratado inicialmente para ajudar na preparação do elenco semi-amador, mas cujo envolvimento com as filmagens cresceu a ponto de ele receber crédito de co-diretor no projeto.

Leitores atentos certamente já terão, nesse ponto, feito um paralelo entre“Quem Quer Ser um Milionário?” e o muito brasileiro “Cidade de Deus” (2002), já que o trabalho exercido por Kátia Lund no filme nacional foi exatamente o mesmo, bem como o crédito recebido por ela. De fato, as semelhanças entre os dois trabalhos vão muito além dessas coincidências no método de trabalho em pré-produção. O rebuscamento estético, a energia do trabalho de câmera (há uma cena de perseguição dentro de uma favela quase idêntica à famosa abertura com a galinha do longa de Fernando Meirelles), a música pop, a narrativa fragmentada e a mistura de denúncia social (menos) com senso de entretenimento (mais) são elementos que fazem de “Quem Quer Ser um Milionário?” um digno sucessor espiritual do maior sucesso internacional originário do Brasil desde o Cinema Novo.

Uma análise cuidadosa perceberá que, soterrado sob muitas camadas de malabarismo técnico, estético e narrativo, está uma clássica história de amor, mais velha do que o mar, o que não é nenhum demérito. A estrutura narrativa do roteiro camufla o tema universal dividindo a ação dramática em três tempos distintos, todos girando em torno de Jamal (Dev Patel), jovem indiano que está a uma pergunta de faturar a bolada milionária no mais popular show de TV da Índia. Só que ele, pouco letrado, obtém sucesso onde nem mesmo professores universitários conseguiram, o que deixa o apresentador do programa (Anil Kapoor) desconfiado. A abertura do filme, portanto, trata de organizar a estrutura temporal do enredo de forma que ela seja facilmente compreendida pela platéia.

Temos o presente (o interrogatório de Jamal na delegacia de polícia), o passado imediato (o espetáculo de TV, ocorrido poucas horas antes) e o passado remoto (longos flashbacks que, a pretexto de mostrar como Jamal sabia as respostas de cada pergunta feita no programa, relembram toda a trajetória dele, de órfão criado na favela à base de malandragem a office-boy de uma empresa de telemarketing). O roteiro de Beaufoy entrelaça os três tempos da narrativa com habilidade, fazendo-os convergir para um final emocionalmente imbatível, que engaja a platéia diretamente dentro do drama de Jamal. “Quem Quer Ser um Milionário?” é, provavelmente, o filme mais empático da safra 2008.

Do ponto de vista estético, a característica mais interessante – e também controversa – é a fotografia multicolorida e elegante de Anthony Dod Mantle. Usando câmeras digitais em alta definição para poder filmar dentro das verdadeiras favelas indianas, Mantle e Boyle conjugam esforços para mostrar a periferia de Bombaim, um lugar incrivelmente sujo e pobre, como um cenário de beleza estonteante. O belo e o grotesco convivem dentro de cada tomada, e quase nunca em harmonia – desse conflito visual emerge grande parte da força do filme. Não são muitos os diretores capazes de mostrar um mergulho literal em uma fossa cheia de merda de maneira plasticamente bonita, mas Danny Boyle consegue o feito. Os planos gerais das favelas criam contrastes visuais exóticos e quase inacreditáveis, com a tomada das mulheres lavando roupas multicoloridas ao lado de um rio podre de tão poluído. Alguns planos, mostrando casebres e palafitas construídos ao lado de enormes pilhas de lixo, parecem ter sido retiradas da Terra futurista de “Wall-e”. Incrível.

Boyle evita mostrar toda essa realidade miserável de maneira documental, como reza a cartilha do cinema independente feito neste início do século XX (“Gomorra”, “O Banheiro do Papa”). A estética é intencionalmente estilizada, de cores vibrantes, como um caleidoscópio incandescente. A música pop, como nos demais filmes de Danny Boyle, exerce importante papel narrativo: batidas eletrônicas executadas em volume altíssimo servem de trilha sonora para uma montagem hiper-acelerada, que nunca hesita em manipular a edição de som e imagem a fim de realçar as sensações do protagonista (não são poucos os momentos em que o som ambiente é diminuído, ou mesmo completamente retirado, para que a música possa comunicar emoções). Há, ainda, o uso festeiro e inventivo de legendas coloridas que ocupam toda a tela do cinema, como sinais gráficos, nos 30% de diálogos que são travados em hindu, a língua original da Índia. O efeito é curioso.

Por fim, é preciso chamar a atenção para a utilização correta do elenco semi-desconhecido. Sabendo que só com rostos desconhecidos a história teria a credibilidade necessária para engajar o público emocionalmente, Boyle testou centenas de jovens (atores ou não) indianos, e acertou na mosca em cada caso. Dev Patel (Jamal), ator de terceira categoria na Inglaterra, exibe um olhar autoconfiante sem ser desafiador, completamente adequado ao personagem. Freida Pinto (Latika) tem o rosto belo e sofrido de uma moça abençoada e ao mesmo tempo amaldiçoada pela beleza, num lugar em que o grotesco sempre esteve no comando. E Anil Kapoor, astro de filmes de Bollywood, está em seu território – uma celebridade local interpretando outra celebridade local. Quando “Quem Quer Ser um Milionário?” termina, e os atores iniciam a coreografia de um número de dança meio desajeitado, à moda do cinema indiano popular, sobram muitas dúvidas e uma certeza. Podem-se questionar as razões sócio-culturais cada uma das escolhas estéticas e narrativas feitas pela equipe criativa, mas não dá para deixar de admitir que o filme envolve e emociona.

O DVD de locação da Europa Filmes é simples, faz a maior bagunça no enquadramento original (está no formato 1.77:1 letterbox, quando o correto seria 2.35:1 anamórfico), mas pelo menos traz áudio em seis canais (Dolby Digital 5.1) no idioma original. Nada de extras. A versão para colecionador, dupla, mantém o erro de enquadramento e acrescenta um segundo disco, contendo cenas cortadas e um documentário da produção.

– Quem Quer Ser um Milionário? (Slumdog Millionaire, Reino Unido/EUA, 2008)
Direção: Danny Boyle e Loveleen Tandan
Elenco: Dev Patel, Freida Pinto, Anil Kapoor, Irrfan Khan
Duração: 120 minutos

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