Smiley Face

13/02/2008 | Categoria: Críticas

Filme de Gregg Araki peca pela atmosfera quase pueril e pela irregularidade dos esquetes cômicos

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★½☆☆

Todo mundo sabe que as drogas, até mesmo as mais leves, alteram a percepção da realidade. Imagine como funcionaria a mente de uma pessoa siderada de maconha que decidisse comer uma dúzia de bolos de bacia, na tentativa de reduzir os efeitos da erva, sem saber que os doces estão recheados com quantidades descomunais de haxixe (espécie de versão mais potente da maconha)? “Smiley Face” (EUA, 2007) responde a esta questão acompanhando as divertidas aventuras de uma aspirante a atriz, obrigada a cruzar Los Angeles realizando uma série de tarefas que seriam simples de resolver, se a não estivesse completamente alucinada pela quantidade industrial de fumaça no cérebro.

O longa-metragem é o nono trabalho assinado pelo diretor Gregg Araki, um realizador independente cuja obra gira em torno da diversidade sexual e do submundo gay. A obra, a mais acessível e comercial do cineasta, dispensa por completo qualquer tipo de subtexto sexual. Curiosamente, foi muito mal-recebida pela crítica especializada, não tanto pela qualidade do produto em si, mas porque Araki tinha gerado expectativas altas após realizar o anterior “Mistérios da Carne”, um filme elogiadíssimo nos círculos alternativos. A jornada aloprada de Jane (Anna Faris) até que consegue transmitir a sensação de desorientação provocada pela maconha, mas a qualidade irregular das situações cômicas compromete o resultado final.

Para começo de conversa, é preciso observar que Jane embarca na “viagem” de forma acidental, em uma seqüência mostrada logo no começo do filme. Ela engole os quitutes preparados pelo colega com quem divide um apartamento, pouco depois de fumar o tradicional baseado matinal, para aplacar a lendária fome que surge depois de um cigarro de maconha. Só depois de ver os efeitos alucinógenos aumentarem vertiginosamente, Jane percebe que acabou de comer bolos recheados de haxixe. Sem querer, já está metida em duas enrascadas. Precisa se apresentar dali a duas horas em um teste de trabalho, e tem que refazer os bolos turbinados até o fim do dia, antes que o amigo chegue em casa e perceba a lambança.

Para se incumbir da segunda tarefa, ela encomenda maconha a um traficante conhecido, que exige pagamento no mesmo dia. Surge aí mais um problema, pois Jane terá que arrumar o dinheiro em pouco mais de cinco horas. Como uma enrascada leva a outra, em pouco tempo a garota está enterrada até o pescoço em complicações, ainda que não consiga se lembrar delas direito, pois está mais doida do que o Coringa em um filme do Batman. A narrativa, simples e ensolarada, não embarca na viagem alucinógena de Jane, mantendo coerência razoável e atmosfera quase pueril, de forma que “Smiley Face” jamais perde o caráter inofensivo de comédia bobinha para adolescentes.

Recorrendo a artifícios narrativos moderninhos e espertos (fotografias estáticas acompanhadas de legendas para introduzir novos personagens de forma rápida, sinais gráficos que invadem certas cenas para simular o efeito alucinógeno da droga), Araki cria algumas situações hilariantes, como na seqüência do teste de trabalho, em que Jane tenta desajeitadamente vender maconha desidratada para a executiva carrancuda com quem conversa. Outras cenas, contudo, desperdiçam boas idéias sem conseguir criar graça ou tensão, caso do trecho em que a menina pirada se apossa acidentalmente do manuscrito original do “Manifesto Comunista”. A boa atuação de Anna Faris no papel principal garante algumas risadas extras, mas elas nunca cumprem todo o potencial cômico que possuem. Uma pena.

Nos Estados Unidos, “Smiley Face” foi lançado em DVD numa edição simples, contendo apenas o filme, com boa qualidade de imagem (widescreen anamórfica) e áudio (Dolby Digital 5.1).

– Smiley Face (EUA, 2007)
Direção: Gregg Araki
Elenco: Anna Faris, John Krasinski, Adam Brody, John Cho
Duração: 88 minutos

| Mais
Tags:


Deixar comentário