Snatch

27/09/2003 | Categoria: Críticas

Segundo longa-metragem de Guy Ritchie repete estilo de Tarantino, mas cria diálogos engraçados e filme ágil

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★☆☆

Antes de ficar conhecido como marido da cantora Madonna, o cineasta inglês Guy Ritchie já foi um bom cineasta. Houve uma época em que tinha sido batizado pela crítica cinematográfica como um dos mais perfeitos seguidores (ou plagiadores, para os mais radicais) do diretor Quentin Tarantino. Com o retiro artístico desse último, Ritchie passou um bom tempo reinando sozinho no universo dos filmes policiais verborrágicos e carregados de bom humor e sotaque pop. “Snatch – Porcos e Diamantes” (Snatch, Inglaterra, 2000) confirma o talento do cineasta inglês.

“Snatch” poderia proporcionar perfeita diversão desencanada, não fosse a semelhança óbvia com o filme anterior do cineasta, o excelente “Jogos, Trapaças e Dois Canos Fumegantes”. Só que, como este teve distribuição limitada nos cinemas e publicidade quase nenhuma, a semelhança é um detalhe que vai incomodar pouca gente. Além disso, Ritchie conseguiu criar uma galeria de personagens ainda mais personalista. De resto, o visual decadente e a fotografia displicente dos subúrbios londrinos são os mesmos nos dois filmes, e muitos atores também estão repetidos.

Maior problema está nas semelhanças com o clássico “Pulp Fiction”. Elas são tantas que fica difícil acreditar em coincidência. Vejamos: como na obra de Tarantino, “Snatch” trabalha com um vai-e-vem na cronologia e evita protagonistas ao pulverizar o roteiro entre vários personagens, quase todos distribuidos nas mãos de bons atores – Benicio Del Toro e Brad Pitt entre eles. O foco central da ação, como nos filmes de Tarantino, também está em bandidos que povoam o submundo decadente de londres. Em uma das melhores seqüências do filme, Ritchie ainda utiliza o recurso de mostrar a mesma ação sob o ponto de vista de três personagens diferentes, como o mentor fez no subestimado “Jackie Brown”. Além de tudo isso, ainda há o humor cínico, os cortes rápidos e movimentos nervosos de câmera, a música pop, a violência estilizada, quase de cartoon. Tarantino puro.

A trama, ponto alto do filme, gira em torno do roubo de um diamante gigantesco (outra herança de “Pulp Fiction”, cujo enredo girava em torno de uma pasta de conteúdo misterioso). A pedra preciosa é roubada por um bandido disfarçado de rabino, Frankie Quatro Dedos (Del Toro). Viciado em jogo, ele não demora a abrir o bico, e assim mafiosos de várias gangues, de Londres a Nova Iorque, começam a correr atrás do tal diamante. São três tramas que correm paralelas e se cruzam numa seqüência impagável, uma hora após o início do filme. Entre os muitos personagens que estão na linha de frente, destaque para Mickey (Brad Pitt, numa repetição tresloucada do papel que interpretou no genial “Clube da Luta”), um cigano que fala com um sotaque incompreensível e gosta de lutar boxe sem luvas. Mas ele não é melhor personagem: o que dizer do cão que engole um apito e provoca as melhores gargalhadas de um roteiro engraçadíssimo?

Por tudo isso, é possível dizer que “Snatch” não pode ser chamado de policial. O filme não fica associado a um gênero específico e parece mais próximo da comédia político-social, algo muito popular na Inglaterra desde o sucesso de “Ou Tudo Ou Nada”, do que de um filme de gângsters. Até porque não há mocinhos: todo mundo quer levar vantagem de alguma forma, mais ou menos como acontece hoje em dia, em qualquer camada social.

Por fim, preste bastante atenção nas historinhas contadas pelos personagens nos melhores diálogos do filme. É o caso da história sobre um suposto erro de tradução que teria provocado o nascimento do Cristianismo, narrada pelo rabino Del Toro logo no início da obra. Para quem não se lembra, Tarantino usou e abusou desse recurso em “Pulp Fiction”. Plágio? Difícil dizer. De um modo ou de outro, “Snatch” é engraçado e vale uma conferida atenta.

Para os felizardos que possuem aparelho de DVD em casa, “Snatch” traz alguns extras bacanas. Há um documentário de bastidores com 25 minutos, dois trailers, três spots de TV e uma galeria animada de fotos com cinco minutos, tudo com legendas em português. As seis cenas deletadas, com nove minutos ao todo, podem ser vistas em separado (com legendas) ou de forma original, através de um extra chamado “Roubando Pedras”: durante a exibição do filme, preste atenção quando um pequeno diamante aparecer no alto da tela. Clicando em cada um deles com o controle remoto, podemos ver a cena cortada que remete àquele ponto do filme. Nesse caso, as cenas ficam sem as legendas.

– Snatch – Porcos e Diamantes (Snatch, Inglaterra, 2001)
Direção: Guy Ritchie
Elenco: Com Jason Statham, Brad Pitt, Vinnie Jones, Benicio Del Toro
Duração: 102 minutos

| Mais


Deixar comentário