Sob a Névoa da Guerra

04/04/2008 | Categoria: Críticas

Lição completa de História, articulada e sombria reflexão sobre a guerra, aula de Cinema: você escolhe

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★½

Em 1992, ao encontrar pela primeira vez Fidel Castro, o secretário de Defesa dos Estados Unidos durante o momento mais tenso da Guerra Fria tomou coragem. Desde a crise dos mísseis de Cuba, em outubro de 1962, ele tinha uma dúvida que lhe tirava o sono. Robert McNamara queria saber se o país caribenho já guardava, durante as duas semanas em que EUA e União Soviética trocaram ameaças de guerra nuclear, ogivas atômicas. Como contam os livros de História, aquele foi o instante em que o futuro do planeta mais esteve ameaçado. McNamara queria saber quão real tinha sido esta ameaça. Para choque genuíno do estadista norte-americano, Castro respondeu que na ocasião Cuba já recebera 167 ogivas nucleares. Mais do que isso: pessoalmente, o ditador afirmou ter sugerido ao líder do Moscou, Nikita Krushev, que bombardeasse os EUA com elas.

O impressionante depoimento de Robert McNamara deixa claro que a humanidade esteve muito mais perto da extinção do que jamais se imaginou. A declaração faz parte do fabuloso documentário “Sob a Névoa da Guerra” (The Fog of War, EUA, 2003), de Errol Morris. O filme passa em retrospectiva a vida e a carreira (ambas extraordinárias) de McNamara, um dos mais importantes e bem informados norte-americanos do século XX, a partir de uma longa entrevista concedida por ele ao cineasta, o mais conhecido documentarista dos EUA. Trata-se não apenas de uma lição completa de História contemporânea, mas também uma articulada e sombria reflexão sobre a guerra como um aspecto genuíno da natureza humana. De quebra, é também uma pequena aula de Cinema.

Um descrição sucinta do projeto passa, certamente, uma impressão equivocada do resultado final. “Sob a Névoa da Guerra” traz Robert McNamara falando durante 107 minutos. A experiência pode parecer chata ou enfadonha para a maioria das pessoas, mas qualquer um que conheça minimamente a história do século XX terá material para se esbaldar. Extremamente articulado, dono de lembranças privilegiadas e recheadas de detalhes saborosos sobre alguns dos acontecimentos históricos fundamentais de sua geração, McNamara impressiona pela franqueza da autocrítica que faz ao papel exercício em alguns desses momentos, e ainda mais pela enorme capacidade de compreender e contextualizar toda a complexidade das análises que leva a cabo durante o documentário. Em suma, uma pessoa fascinante.

McNamara nasceu em 1916, e sua primeira lembrança é das pessoas comemorando, nas ruas, o final da I Guerra Mundial. Ele não sabia, mas toda a sua vida seria marcada pela guerra. McNamara serviu durante três anos durante a II Guerra, analisando dados sobre vôos militares e escrevendo relatórios que ajudaram os pilotos dos Estados Unidos a aumentar a eficiência dos ataques. Foi o primeiro presidente da Ford cuja origem não estava dentro da família do fundador da empresa, e inventou o cinto de segurança. Depois, durante sete anos, exerceu o cargo de secretário de Defesa dos EUA. Cumpriu papel fundamental (e moderado) na condução da Guerra Fria e na participação do país na guerra do Vietnã. Por quase duas décadas, presidiu o Banco Mundial. Apesar das credenciais impecáveis, nunca deixou de ser odiado. Nos EUA e fora deles.

Graças a uma montagem impecável, Errol Morris transforma o depoimento dele em um espetáculo cinematográfico de primeira grandeza. A estratégia de intercalar as falas de McNamara com imagens de arquivo (fotos e trechos de filmes antigos) e reconstituições metafóricas feitas em estúdio (fileiras de dominós sendo derrubadas sobre um mapa mundi), resulta em um filme cheio de tensão. A trilha sonora de Philip Glass, repleta de acordes dissonantes, sugere uma atmosfera ainda mais carregada. Morris conseguiu a proeza de editar o documentário respeitando a cronologia da vida de McNamara (excetuando-se apenas o prólogo, sobre a já citada crise dos mísseis de Cuba) e também dividindo o depoimento em onze blocos narrativos que se mostram coerentes. Se o objetivo da arte é iluminar aspectos escuros da natureza humana, “Sob a Névoa da Guerra” é arte de primeira grandeza.

O DVD nacional do filme, premiado com o Oscar de melhor documentário em 2004, é um lançamento da Sony Pictures. A qualidade da imagem (widescreen anamórfica) e do áudio (Dolby Digital 5.1) é boa. O único extra digno de notas é uma galeria de cenas excluídas, mas elas não têm legendas em português.

– Sob a Névoa da Guerra (The Fog of War, EUA, 2003)
Direção: Errol Morris
Documentário
Duração: 107 minutos

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