Sob o Domínio do Mal

08/03/2005 | Categoria: Críticas

Jonathan Demme volta à ativa com thriller político sólido, mas pesado e conservador

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★☆☆

Artistas devem fazer de sua arte um braço de convicções políticas? Ou devem se concentrar em aprimorar, em ritmo constante e incessante, suas habilidades artísticas, deixando em segundo plano as preocupações sociais ou de qualquer outra ordem? Essa dúvida, que permanece em discussão dentro dos círculos intelectuais há muitos séculos, volta e meia reaparece. O lançamento de “Sob o Domínio do Mal” (The Manchurian Candidate, EUA, 2004) serve, mais uma vez, para revalidar a polêmica. O filme tem qualidade, mas é cinema indisfaçavelmente engajado, uma espécie de “Farenheit 11 de Setembro” em formato de ficção.

Desse modo, as questões acima rebatem também na crítica do filme: a obra do cineasta Jonathan Demme deve ser julgada como uma peça da indústria do entretenimento, como apenas mais um thriller de suspense de Hollywood? Ou precisa levar em conta as ambições políticas – prejudicar a campanha presidencial de George W. Bush nos EUA, uma campanha contra a qual 90% de Hollywood se engajou – também? É uma dúvida difícil. Pelo sim, pelo não, fico com a convicção de que é importante olhar para os filmes dentro do contexto em que eles são produzidos, para compreender inteiramente todas as suas sutilezas.

“Sob o Domínio do Mal” é a refilmagem de um longa-metragem de 1962, dirigido pelo esforçado diretor John Frankenheimer. Naquele filme, em plena Guerra Fria, espiões faziam lavagem cerebral em um grupo de soldados norte-americanos, capturados durante a Guerra da Coréia, para poder manobrar politicamente um deles, filho de uma poderosa senadora. A renomada crítica Pauline Kael foi uma ardorosa defensora do filme, que acabou se revelando, de uma maneira curiosa, profético. Tanto que foi o remake escolhido quando um grupo de produtores de Hollywood decidiu que a indústria cinematográfica deveria fazer algo para evitar a reeleição de Bush, em 2004.

Jonathan Demme foi o homem contratado para comandar a refilmagem. Essa escolha também não é aleatória. Sabe-se que Brian De Palma esteve interessado em filmar o longa-metragem, e até o inglês Neil Jordan chegou a ser cogitado. Mas a cadeira de diretor ficou mesmo com o homem que deu ao mundo o genial “O Silêncio dos Inocentes”, em 1991. Um homem que, desde a produção da obra-prima que nos brindou com Hannibal Lecter, nunca mais havia feito um filme bacana. Um homem cuja agenda política sempre foi ativa, engajada, progressista. Um cara político certo no comando de um filme político.

Demme foi inteligente o suficiente para saber que não deveria criar um panfleto, como é o filme de Michael Moore. Assim, caprichou na atmosfera claustrofóbica para montar um thriller sólido. A ação do filme original foi, evidentemente, atualizada. O sargento Raymond Shaw (Liev Schreiber) é, agora, um herói da Guerra do Golfo. Sozinho, ele salvou uma patrulha de soldados atacados em uma cilada, no Kwait. De herói de guerra, virou forte candidato a vice-presidente dos EUA, apoiado pela ambiciosa mãe senadora, Eleanor (Meryl Streep).

O empecilho de Raymond é o capitão Ben Marco (Denzel Washington). O oficial, que comandava a patrulha no dia fatídico, tem sonhos recorrentes que mostram uma realidade bem diferente daquela que se lembra. Aos poucos, ele acredita perceber uma conspiração que implantou chips nos soldados participantes da ação, a fim de manipular as memórias dos envolvidos e alterar a percepção que eles possuem da realidade. A investigação levada a cabo por Marco é a melhor coisa do filme: tensa, segura e narrada com firmeza, a trama cheia de detalhes é revelada aos poucos à platéia, o que demonstra a segurança e a qualidade de Jonathan Demme na cadeira da direção.

É verdade que ele conta com a contribuição de um elenco de categoria. Meryl Streep é o destaque, como uma mãe dominadora e manipuladora, mas Schreiber mostra competência, compondo um homem amargurado e sem forças para reagir contra algo que sente estar errado. Denzel Washington faz o papel de sempre: o herói que salva, ou tenta salvar, o dia. Ted Levine (o serial killer de “O Silêncio dos Inocentes”), Bruno Ganz (o anjo de “Asas do Desejo”) e Miguel Ferrer (“Twin Peaks”) compõem o luxuoso elenco de apoio.

O problema é que havia um evidente objetivo político no filme, e diante do que aconteceu na eleição para os EUA – a vitória de Bush – a mensagem do longa-metragem soa pálida. Talvez Jonathan Demme tenha feito mais cinema e menos política, mas o fato é que a produção também fracassou nas bilheterias. Para os bons observadores, referências estrategicamente colocadas na obra à família Kennedy e ao papel dos Estados Unidos como “responsável pela vitória da liberdade no planeta” denotam uma visão de mundo estreita, tacanha e, pelo menos para os padrões brasileiros, progressista apenas na superfície. Mesmo assim, vale uma conferida.

O DVD da Paramount contém o filme (imagem widescreen, som Dolby Digital 5.1) e uma série de extras, incluindo um comentário em áudio com Demme e o roteirista, um documentário de bastidores, uma coleção de cenas inéditas e o teste de filmagem de Liev Schreiber.

– Sob o Domínio do Mal (The Manchurian Candidate, EUA, 2004)
Direção: Jonathan Demme
Elenco: Denzel Washington, Meryl Streep, Liev Schreiber, Jon Voight
Duração: 129 minutos

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