Sobre Café e Cigarros

19/07/2007 | Categoria: Críticas

Jim Jarmusch faz coleção de esquetes em preto-e-branco diferente de tudo o que você já viu

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★☆☆

A idéia maluca que deu origem a “Sobre Café e Cigarros” (Coffee and Cigarettes, EUA, 2003) só poderia ter saída da cabeça de Jim Jarmusch, um diretor excêntrico até a medula. Jarmusch, que é fã inveterado de rock intelectualizado (Neil Young, Tom Waits) e do cinema do japonês Yasujiro Ozu, acalentou o projeto deste longa-metragem durante 17 anos. O filme exemplifica exemplarmente o tipo de cinema que Jarmusch sempre afirmou querer fazer: mostra a intimidade dos seus personagens nos momentos em que os diretores tradicionais sempre desligam as câmeras.

“Sobre Café e Cigarros” é um filme que fala, bem… sobre café e cigarros. É composto de 11 esquetes, gravadas com três diferentes diretores de fotografia, durante um período de 16 anos. Jarmursch começou as filmagens durante a produção do clássico alternativo “Daunbailó”, filmando o esquete com Roberto Benigni em 1987. O último esquete, por sua vez, surgiu em 2003, poucos meses antes do lançamento. É documentário? Não. Tampouco pode ser chamado de ficção, pelo menos não nos moldes tradicionais, porque não tem nenhuma história. É uma mistura das duas coisas que resultou em algo completamente diferente.

Em cada esquete, duas ou três pessoas (que na quase totalidade do longa-metragem são chamadas pelos nomes verdadeiros dos seus intérpretes) sentam em uma mesa e dividem xícaras de café e cigarros. Fumam, bebem e conversam, na maior parte das vezes sobre como o café, ou os cigarros, interferem nas suas vidas pessoais. Algumas pessoas tomam o filme como um documentário, mas nada poderia ser mais longe da verdade. Steve Buscemi, que no seu esquete é chamado mesmo de Steve, vira garçom de uma lanchonete vagabunda. Claro que o sujeito não é garçom na vida real. De fato, todo mundo em “Sobre Café e Cigarros” está interpretando variações fictícias de si mesmo.

Isso fica bem claro no episódio que envolve o encontro dos rock stars Iggy Pop e Tom Waits (provavelmente o melhor de todo o longa). Eles não deixam de ser Iggy e Tom, e demonstram uma saudável rivalidade musical (os dois, em diferentes momentos, consultam o cardápio da vitrola de fichas da lanchonete para saber se a banda do colega está no repertório). Mas o papo que compartilham é esquisito, absurdo, algo quase surreal, com um toque de humor demente que não faz ninguém rir.

“Sobre Café e Cigarros” não é o tipo de filme que as pessoas compram ingressos para ver no cinema – a não que sejam pessoas chegadas a filmes intelectualizados, herméticos, às vezes incompreensíveis mesmo. Mas sim, tem tudo a ver com a proposta de cinema que Jarmusch defende, o que me leve ao início do texto. Certa vez, quando divulgava “Noite Sobre a Terra”, Jarmush foi questionado por um crítico a respeito da unidade temática dos seus trabalhos. O cineasta disse que não existia. “Tudo o que tento fazer é mostrar o cotidiano das pessoas nos momentos em que suas vidas são banais, enquanto no cinema normal os diretores preferem mostrar as pessoas vivendo acontecimentos extraordinários”, explicou.

Não entendeu? Pense no seguinte exemplo: é como se Jarmush fosse rodar “Titanic” e começasse o seu filme quando os sobreviventes deixassem o hospital. Ou seja, o filme dele começaria exatamente onde o de James Cameron termina – quando as vidas dos personagens ficassem monótonas como as de todos nós. Pois é isso que “Sobre Café e Cigarros”, no fundo, tenta mostrar: uma olhada de soslaio nos bastidores de uma filmagem de verdade, quando os atores ficam horas esperando que os técnicos acertem a luz da próxima tomada. Nessas horas, Jarmusch reuniu seus atores, colocou-os para improvisar e filmou tudo em filme preto-e-branco. Ele não quer passar nenhuma mensagem, nada disso. “Sobre Café e Cigarros” é o que está na tela, e nada mais. Bom? Que tal você decidir?

O DVD da Europa traz apenas o filme. A qualidade de imagem (widescreen) e áudio (Dolby Digital 2.0) é boa.

– Sobre Café e Cigarros (Coffee and Cigarettes, EUA, 2003)
Direção: Jim Jarmush
Elenco: Bill Murray, Roberto Benigni, Iggy Pop, Tom Waits
Duração: 95 minutos

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