Sobre Meninos e Lobos

01/01/2005 | Categoria: Críticas

Clint Eastwood consegue equilíbrio perfeito entre policial clássico e retrato da condição humana

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★★★

Histórias policiais e dramas sobre a condição humana são, na cartilha cinematográfica, como água e óleo. Não se misturam. Existem poucos cineastas capazes de fazer isso com sensibilidade, talento e profundidade. Clint Eastwood é um deles. O cineasta transforma “Sobre Meninos e Lobos” (Mystic River, EUA, 2003) num dos grandes filmes de 2003.

A película revisita um dos temas favoritos de Eastwood: o uso de uma trama policial trivial como mero pretexto para investigar as profundezas da alma. “Meia-noite no Jardim do Bem e do Mal”, apenas para citar um exemplo, fazia a mesma coisa. Mas em “Sobre Meninos e Lobos”, Eastwood conseguiu um resultado ainda melhor. O longa-metragem, baseado no romance de Dennis Lehane, talvez seja o mais bem resolvido filme do diretor.

Há, de fato, dois filmes em “Sobre Meninos e Lobos”. O primeiro é uma história policial clássica, mas muito bem contada. A filha mais velha do comerciante Jimmy Markum (Sean Penn) é assassinada brutalmente, aos 19 anos, e tem o corpo abandonado num parque, nos arredores de Boston. Sean Devine (Kevin Bacon) é o investigador encarregado do caso, cujas pistas indicam o possível envolvimento de Dave Boyle (Tim Robbins).

Os três se conhecem bem. Foram grandes amigos na infância, até que um episódio aterrador interrompeu o contato entre eles. Certo dia, enquanto jogavam hóquei na rua, o trio foi abordado por dois homens que se diziam policiais. Os dois obrigaram Dave a entrar num carro e sumiram com ele durante quatro dias. Depois do acontecimento, surgiram ressentimentos e a separação foi inevitável. Cada um tomou um rumo na vida.

Entre os dois crimes, 25 anos se passaram. Mas a investigação do assassinato de Katie Markum (Emmy Rossum) reaproxima os três homens. Todos são pais e enfrentam, cada um a seu modo, problemas familiares. O caso criminal põe os personagens no segundo “filme” existente dentro da película: um panorama agudo da impossibilidade do homem de lutar contra as armadilhas do destino.

Há estilhaços de Nietzche no filme (“Deus está morto?”). Eastwood parece se perguntar o que acontece com o mundo. A metáfora do título original (o rio de Boston, que um personagem acredita “lavar os pecados de todos”) cai como uma luva para descrever o tom agridoce que domina o filme.

Sentimentos como culpa, perdão, raiva e medo são trabalhados de forma diferente por cada personagem. Eles são obrigados, diante das circunstâncias, a reavaliar as vidas que levam. Mas esses sentimentos estão sempre em segundo plano, já que o destino se impõe diante de todos, indecifrável e, quase sempre, injusto. Essa reavaliação, portanto, não é coletiva, mas um processo solitário. Cada um dos três precisa lidar com sentimentos contraditórios.

O entrelaçamento de dois temas tão diferentes flui de forma maravilhosa, graças a um texto inspirado do irregular Brian Helgeland (que fez a jóia “Los Angeles – Cidade Proibida” e a bomba “Devorador de Pecados”, entre outros). O roteiro segue na contramão do manual-padrão de filmes de Hollywood, que procura apresentar os personagens nos primeiros 15 minutos para só então desenvolver a trama. Aqui ocorre o contrário: a trama se impõe aos personagens, como na vida. São os acontecimentos que os levam a tomar determinadas escolhas. Essas pequenas escolhas, como os três aprenderam a duras penas, podem provocar grandes sofrimentos. Mas elas precisam ser feitas.

O filme funciona muito bem porque o texto é coeso, firme e profundo. Mas, se o roteiro brilha, é importante ressaltar que o filme jamais funcionaria de forma tão eficaz sem um elenco à altura. Aliás, até nisso o texto ajuda, pois cada um dos seis personagens em torno dos quais a ação principal gravita tem pelo menos uma grande cena solitária. Os diálogos, inteligentes e mordazes, são um ponto forte do filme. Mas quando prescinde deles, “Sobre Meninos e Lobos” ainda funciona perfeitamente.

Preste atenção, por exemplo, na longa seqüência final, que acontece durante um desfile nas ruas do bairro. Nenhuma palavra é pronunciada, mas o destino de cada personagem fica evidente através de pequenos gestos e olhares. É importante destacar, para entender essa façanha, a atuação acima da média de todo o elenco, incluindo os coadjuvantes Laurence Fishburne e Márcia Gay Harden.

Não há, contudo, como não destacar Sean Penn, comprovando mais uma vez que é um ator de capacidade extraordinária. Ele só é ofuscado por um Tim Robbins contido, que entrega uma interpretação cheia de nuanças. Ele interpreta Dave Boyle à perfeição: um homem triste, incapaz de sorrir, que se fechou em copas depois do terrível acontecimento na infância. Dave consegue encontrar, em filmes de vampiros, uma metáfora audaciosa e original para a própria condição.

Metáforas visuais, como convém a um diretor duro como Eastwood, são pouco comuns nesta película. Mas quando a câmera fecha na calçada de cimento em que o trio de crianças registrou os próprios nomes, no fatídico dia do carro que levou Dave, é impossível não compreender o significado do filme. A calçada amarra e resume os acontecimentos com uma simplicidade comovente.

“Sobre Meninos e Lobos” é o filme ideal para amantes do bom cinema. Ele funciona nesse nível emocional profundo, que o cinema norte-americano raras vezes consegue alcançar. Mas, além disso, funciona também como suspense policial de primeira qualidade, representando um subgênero que Alfred Hitchcock nomeou como “whodunit” (em tradução livre, algo como “descubra quem é o assassino”). Nos dois casos, trata-se de um dos filmes mais densos de Clint Eastwood.

– Sobre Meninos e Lobos (Mystic River, EUA, 2003)
Direção: Clint Eastwood
Elenco: Sean Penn, Tim Robbins, Kevin Bacon, Laurence Fishburne, Marcia Gay Harden
Duração: 137 minutos

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