Sobrevivente, O

01/04/2008 | Categoria: Críticas

Talvez o primeiro filme de gênero assinado pelo alemão Werner Herzog, ainda assim é um ótimo drama de guerra

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★☆☆

“O Sobrevivente” (Rescue Dawn, EUA, 2006) não é o primeiro filme de gênero assinado pelo diretor alemão Werner Herzog. Uma olhada atenta à filmografia do diretor radicado nos EUA, um dos grandes iconoclastas do cinema europeu dos anos 1970, esclarece que Herzog flertou com o horror (“Nosferatu”, em 1979) e com o documentário (“O Homem Urso”, em 2005), entre outros gêneros. Cada um desses mergulhos eventuais, porém, sempre resultava em um típico filme de Werner Herzog: singular, desconcertante, único e original. Embora seja um drama de guerra correto, e inclua temas que sempre fascinaram o alemão, “O Sobrevivente” é um filme de narrativa clássica, o que causa alguma surpresa. Afinal, filmar uma história da maneira que um cineasta normal faria é algo inédito na carreira idiossincrática de Herzog.

O longa-metragem encaixa perfeitamente na linhagem dos filmes sobre fugas espetaculares, lembrando bastante o clássico “Fugindo do Inferno” (1963). Usando um tom realista e uma narrativa clássica, Herzog filma a incrível história do piloto norte-americano cujo avião caiu durante uma missão secreta no Laos, na década de 1960, pouco antes da Guerra do Vietnã. Dieter Diegler (Christian Bale) ficou preso num campo de concentração escondido no meio da selva, por alguns anos, mas nunca deixou de sonhar com a liberdade, mesmo com as possibilidades de fuga serem claramente nulas (quando ele observa para um colega que as celas de bambu poderiam ser destruídas com certa facilidade, vem a resposta arrasadora: “você não percebeu que a verdadeira prisão é a selva?”).

Movido por uma força de vontade cega, Diegler acabaria por se tornar um dos sete únicos militares dos EUA a conseguir escapar de uma prisão asiática durante todo o conflito no Vietnã. Sem dúvida uma história extraordinária, que Herzog filma com a segurança de quem é íntimo dos segredos das difíceis filmagens no meio da selva (convém não esquecer que o homem dirigiu “Aguirre – A Cólera dos Deuses” e “Fitzcarraldo”, passando meses a fio dentro da selva amazônica). O diretor dispensou cenários artificiais e levou o elenco para a Tailândia, onde todo mundo aceitou ficar hospedados em casinhas de bambu. Juntos, eles fizeram o filme no meio da lama e do mato, usando habitantes de aldeias selvagens como atores. O resultado é extremamente realista, como se pode perceber nas seqüências em que Dieter e os companheiros de fuga tentam desesperadamente avançar no meio da mata fechada, mas não conseguem dar sequer um passo à frente devido à vegetação cerrada.

É possível encontrar elementos da filmografia de Herzog dentro da história. O diretor alemão dá bastante destaque à relação desigual de forças que se estabelece, durante a fuga, entre homem e natureza – um ser insignificante, movido puramente pela força de vontade e pelo desejo obsessivo de sobreviver, contra um meio ambiente indiferente, implacável e voraz. Este confronto não está apenas em filmes como “Aguirre” e “Fitzcarraldo”, mas aparece em toda a obra de Herzog, inclusive no maravilhoso documentário “O Homem Urso”. Aqui, porém, a relação homem/natureza não está no centro da narrativa. Ela fornece apenas o ambiente, o contexto em que a ação se desenvolve. A história é sobre um homem especial – alguém cuja trajetória, curiosamente, também apresenta algumas semelhanças com a do próprio diretor.

Para começar, Dieter Dengler também nasceu na Alemanha. Durante a infância, em plena Segunda Guerra Mundial, ele viveu um episódio que definiu toda sua vida futura. Dieter estava no quarto, no sótão de casa, durante um bombardeio aliado. Da janela do quarto, ele viu um avião rumar diretamente para a casa. O aparelho passou tão perto que Dieter e o piloto puderam se entreolhar por alguns instantes. O menino não ficou aterrorizado, como a maioria das pessoas, mas sim fascinado. Decidiu, naquele instante, se tornar piloto de caças. Para concretizar este desejo, teve que se mudar para os EUA e assimilar a cultura daquele país.

Herzog fez coisa parecida. Após viver uma fase extremamente criativa em meados dos anos 1970, com grandes filmes alemães, ele percebeu que não conseguiria construir uma carreira sólida como cineasta longe dos EUA. Foi viver lá e conseguiu se estabelecer fora de Hollywood, trabalhando como documentarista e diretor de filmes baratos de ficção, sempre com molho autoral. Em 1997, Herzog descobriu a história de Dieter e ficou fascinando. Fez naquele ano um documentário sobre o personagem, e voltou à história quando finalmente conseguiu financiamento para reconstituir o episódio da prisão na selva. Detalhe importante: “O Sobrevivente” não é um filme patriota ou mesmo político. Não está embutido nele qualquer comentário a respeito do Vietnã, apesar do viés patriótico do final. Trata-se de uma história humana, um conto sobre obsessão e sobrevivência, sobre força de vontade e estoicismo – outro elemento fundamental dentro da obra de Herzog.

O elenco de “O Sobrevivente” é muito bom. Chama a atenção, sobretudo, a atuação de Steve Zahn (“The Wonders”), ator conhecido como protagonistas de comédias leves e inconseqüentes, que mergulha de cabeça num personagem difícil e dramático. Jeremy Davies, como outro prisioneiro do campo de concentração no Laos, repete a persona que construiu em filmes como “O Resgate do Soldado Ryan”, a do maluquinho de plantão que pode pôr tudo a perder devido à instabilidade emocional. E Christian Bale, arrojado como sempre, interpreta um protagonista que, curiosamente, lembra bastante seu personagem de estréia no cinema (o garotinho de “Império do Sol”, de Steven Spielberg). Todos tiveram que perder entre 20 e 30 quilos cada para poder interpretar com verossimilhança. Em solidariedade, Herzog também resolveu perder 20 quilos – e perdeu. Sujeito teimoso.

O DVD da Califórnia Filmes não tem extras. O filme aparece com qualidade decente de imagem (widescreen 1.85:1) e áudio bom (Dolby Digital 5.1).

– O Sobrevivente (Rescue Dawn, EUA, 2006)
Direção: Werner Herzog
Elenco: Christian Bale, Steve Zahn, Jeremy Davies, Zach Grenier
Duração: 126 minutos

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