Sobrevivente, O

22/05/2008 | Categoria: Críticas

Fraca e esquemática aventura futurista antecipou em alguns anos a criação dos reality shows

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★☆☆☆

O maior mérito de “O Sobrevivente” (The Running Man, EUA, 1987), maior inclusive do que suas qualidades cinematográficas, é ter antecipado em alguns anos a criação dos reality shows. O filme de Paul Michael Glaser, uma fraca e esquemática aventura futurista de tom distópico, feita a partir de sobras de filmes como “Blade Runner” (1982), estaria fadado ao esquecimento, se não fosse a conexão histórica com o conceito que fez tremerem as bases da televisão clássica. Analisado sob esse aspecto, a produção tem lá sua cota de interesse, apesar dos problemas óbvios de roteiro e caracterização de personagens.

A gênese do longa-metragem remonta ao escritor Stephen King. Foi ele quem escreveu a novela que deu origem à história, num surto de trabalho de três dias. Percebendo que o conto mais parecia um subproduto saído da mente de Philip K. Dick, o romancista sequer cogitou publicá-la sob o próprio nome. O livro chegou às estantes com a assinatura de Richard Bachman, pseudônimo que King usava regularmente para desovar a pior parte de sua criação. Logo, a novela seria escolhida como mais uma das sangrentas e despretensiosas aventuras feitas sob medida para Arnold Schwazenegger, cujas qualidades interpretativas nunca foram muitas, além de exibir os músculos.

Como legítima produção caça-níqueis, “O Sobrevivente” trocou de astro e diretor um punhado de vezes, antes de receber o sinal verde dos produtores. Andrew Davis (“O Fugitivo”) foi um dos cineastas que desenvolveu o projeto. Christopher Reeves e Dolph Lundgren estiveram a um passo de protagonizar o filme que, no fim, acabou rotulado como produção B feita para promover o ascendente Schwarzenegger. Por isso, o desconhecido Paul Michael Glaser foi posto no comando da produção. Ele buscou inspiração nos cenários das aventuras futuristas distópicas que haviam saído aos borbotões, alguns anos antes (“Fuga de Nova York” seria o maior exemplo), e criou versões unidimensionais e fortemente estilizadas das intrincadas locações de “Blade Runner”.

O uso de cores berrantes em tonalidades néon (como o absurdo traje amarelo vestido pelo herói) remete, claro, ao período da produção – o filme tem a cara dos anos 1980. Já a história não poderia ser mais simples. Depois de se recusar a massacrar uma revolta popular de gente faminta, um militar de índole pacífica (Schwarzenegger) vai para a cadeia, onde lidera uma fuga sangrenta e vira alvo de uma caçada gigantesca. Recapturado, acaba se tornando protagonista do mais popular programa de TV de um futuro ditatorial, em que o governo restabeleceu a censura e suprimiu os direitos individuais. O reality show consiste em liberar uma vítima na parte abandonada de uma metrópole, onde ela terá que se defender de gladiadores high-tech para não ser trucidado diante das câmeras.

Com três atos claramente definidos e uma narrativa limpa, rápida, que não se preocupa em desenvolver os personagens ou aprofundar o subtexto político, “O Sobrevivente” não funciona muito bem. A direção de arte é pobre, e as atuações mecânicas de todo o elenco, a começar pelo próprio astro musculoso do papel-título, não ajudam. A única curiosidade é mesmo o desenvolvimento da noção de interatividade entre o público da atração e os produtores do programa – são os integrantes da platéia quem escolhem quais gladiadores devem aniquilar as vítimas, e a voz da audiência continua a ser ouvida durante todo o desenrolar da atração, em tempo real. Está longe de ser um bom filme, mas tem lá sua curiosidade.

O DVD nacional, vendido em bancas de revistas, é simples e sem extras. A qualidade das imagens (wide letterboxed) e do áudio (Dolby Digital 2.0) está apenas razoável. A melhor edição disponível nos EUA traz som em DTS, dois comentários em áudio e três featurettes, embora nenhum sobre as gravações do filme em si.

– O Sobrevivente (The Running Man, EUA, 1987)
Direção: Paul Michael Glaser
Elenco: Arnold Schwarzenegger, Maria Conchita Alonso, Yaphet Kotto, Jim Brown
Duração: 101 minutos

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