Sociedade dos Poetas Mortos

12/05/2005 | Categoria: Críticas

Filme de Peter Weir é experiência apaixonante para jovens, mas imperfeita para gente calejada

Por: Rodrigo Carreiro

NOTA DO EDITOR: ★★★½☆

Um filme se torna mais do que uma mera peça de entretenimento quando exerce algum tipo de impacto sobre o comportamento de alguém. Os melhores filmes deixam marcas, às vezes, em toda uma geração. Vez por outro, filmes não tão bons, mas impactantes, exercem efeito semelhante, para logo em seguida serem esquecidos. Este é o caso de “Sociedade dos Poetas Mortos” (Dead Poets Society, EUA, 1989), o filme mais famoso do diretor australiano Peter Weir. O longa-metragem com Robin Williams fez um tremendo sucesso entre os jovens no início da década de 1990, mas não sobreviveu muito bem ao sucesso inicial.

Há alguma razão específica para esse fenômeno? Sim, existe: “Sociedade dos Poetas Mortos” é um filme de temática aparentemente subversiva, mas enterrada em um profundo conservadorismo estético e narrativo. Em outras palavras, trata-se de um filme que valoriza as liberdades individuais, e a importância de aprender a desenvolver as próprias idéias, sem copiar nada de ninguém. Só que Peter Weir não seguiu a própria recomendação e fez um filme igual, em aparência e estrutura, a muitos outros. Talvez seja este o motivo da película ter tido sobrevida tão curta, porque, obviamente, ela está longe de ser taxada de ruim.

Para determinada geração, que tinha em torno de 18 anos na virada das décadas de 1980/90, “Sociedade dos Poetas Mortos” exerceu um papel importante, pois representou o resgate de valores que pareciam velhos, antiquados, pouco atraentes. O filme utiliza citações e trechos de poesias de Walt Whitman, Henry David Thoreau, Byron e William Shakespeare, entre outros ícones da literatura romântica e rebelde, para apresentar a sua lição: a boa arte, a verdadeira arte, é aquela que desperta paixões, que celebra a vida. Não tem nada a ver com a fria matemática literária que nos ensinam nas escolas. A arte ensina a pensar. Arte é liberdade.

A primeira metade do filme é perfeita para demonstrar esse raciocínio. Ele se passa na Walden Academy, uma conservadora e rica escola para rapazes, nos EUA, em 1959. Naquele ano, um novo professor de Literatura chegou ao colégio. John Keating (Robin Williams) é jovem e deseja ensinar aos alunos aquilo que considera de mais valioso: aprender a pensarem por si próprios, a reconhecer e desenvolver suas próprias habilidades. Para isso, emprega técnicas de ensino revolucionárias.

Para ressaltar a condição artística da poesia, por exemplo, Keating manda os alunos rasgarem o artigo do livro oficial do currículo, que mede a qualidade da poesia em gráficos matemáticos. Para ele, a poesia deve ser compreendida com o coração, mais do que com a mente; o que vale é o fogo interior que ela produz. Noutra aula, ele pede que os alunos subam nas mesas, para ver o mundo de outro ângulo. Com uma didática desse tipo, ele acaba incentivando um grupo mais rebelde de alunos a reativar reuniões secretas em uma caverna indígena próxima ao colégio, com o simples objetivo de ler poesia e aproveitar a vida. O lema: “Carpe Diem”.

Peter Weir realiza um trabalho meticuloso, colocando o espectador na mesma posição dos alunos de Keating. “Sociedade dos Poetas Mortos” não é sobre poesia e arte, mas sobre liberdade e autonomia de pensamento. Nesse sentido, conta com a preciosa colaboração do fotógrafo John Seale (Oscar por “O Paciente Inglês”). A fotografia de Seale é majestosa, e não apenas nas belas imagens da natureza ao redor do campus, como na linda tomada em que um dos alunos desce uma colina de bicicleta, causando uma revoada de pássaros à beira de uma lagoa. A maior parte das cenas se passa em interiores, e a iluminação é perfeita. Preste atenção, por exemplo, nas seqüências que se passam dentro da caverna, iluminadas por velas. A atmosfera é gótica, mas jamais ameaçadora; apenas um pouquinho melancólica.

Na segunda metade do longa-metragem, Peter Weir escorrega para o melodrama apenas correto. Há uma tragédia, que causa um baque nos ensinamentos do professor, e uma cena final de redenção e esperança que, se enche o coração do espectador jovem de paixão, também deixam cinéfilos mais experientes constrangidos. É um final adequado e libertador, mas falso; a vida não é assim, embora quem tenha 18 anos goste de acreditar que pode ser. Não há nada de mal nisso, é claro. “Sociedade dos Poetas Mortos” continua a ser uma experiência cinematográfica excelente para a juventude, mas não funciona com a mesma eficácia em pessoas com mais quilometragem, mais calejadas.

Os DVDs da Buena Vista não costumam chamar a atenção pelo capricho, mas “Sociedade dos Poetas Mortos” é uma exceção louvável. O filme, em si, comparece com o corte original (widescreen) e uma trilha razoável em dois canais em formato, Dolby Digital 2.0. Nos extras está o maior tesouro: quatro pequenos documentários, em que o melhor deles traz uma verdadeira aula de fotografia (22 minutos) com o premiado John Seale. Ele ensina, de modo bem didático, o que significa iluminar e fotografar uma cena. E faz isso ao vivo, ali na frente, discutindo pacientemente a posição dos holofotes e refletores de luz. É a chance de aprender muito sobre algo que muita gente acha que sabe o que é, mas na verdade não entende nada.

Para completar, há um featurette (27 minutos) com entrevistas feitas com o elenco relembrando momentos das filmagens, tomadas preliminares de uma cena específica (8 minutos) e uma homenagem retrospectiva ao editor de som Alan Splet (11 minutos), falecido em 1995. Completam o disco um comentário em áudio legendado em português, reunindo Weir, Seale e o roteirista Tom Schulman, e um trailer. Ótimo DVD.

– Sociedade dos Poetas Mortos (Dead Poets Society, EUA, 1989)
Direção: Peter Weir
Elenco: Robin Williams, Robert Sean Leonard, Ethan Hawke, Josh Charles
Duração: 129 minutos

| Mais
Tags:


Assine os feeds dos comentários deste texto


10 comentários
Comente! »